sábado, 14 de novembro de 2009

Sobre o filme Anticristo, Camille Paglia e a bestialidade da natureza

Archidy Picado Filho
archidy@ibest.com.br
Artista plástico, músico e escritor

Já se passaram pouco mais de cem anos desde que os Irmãos Lumière desenvolveram a técnica capaz de criar a sensação visual de movimentos a partir da exposição projetiva dinâmica de uma seqüência de quadros fotográficos sob influência da luz. A tal engenhosa obra de arte puseram o nome de "Cinema". De lá para cá, o Cinema evoluiu de um simples recurso de registro de momentos da História a instrumento de produção e reprodução dos sonhos mais delirantes de artistas - uma conseqüência inevitável da necessidade de superarem, a cada produção, suas próprias capacidades criativas e expressivas. Nesse processo, o Cinema evoluiu de matizes projetivas em preto e branco, mudas, a coloridas e sonoras, evoluindo em possibilidades de produção visual animada até chegar aos recursos artísticos da computação gráfica, onde novíssimos mundos de imagens, sons e argumentos põem dúvidas nas cabeças de semióticos a lhes fazerem pensar até que ponto vão os limites daquilo que podemos reconhecer como "realidade" a distingui-la de sua prima "virtualidade".

De registros banais de imagens do cotidiano, dos argumentos mais simples aos mais "profanadores de hábitos e costumes", segundo conservadores, das mais irrelevantes expressões estéticas aos experimentos mais revolucionários, portanto, o Cinema, associado às artes da Música, da Literatura, ao Teatro e a outras artes visuais como a Fotografia, a Maquiagem, a Cenografia, a Escultura e o designer de costumes - mais conhecido como Moda, deu exemplos de até que ponto vai ousadia dos artistas que produzem a chamada "Sétima Arte" com a feitura de filmes que, ora acalmam nossa angústia existencial com humor, ou nos contando histórias românticas "água com açúcar", ora nos lançam em outros mundos fundamentados nas mais alucinadas fantasias, ora nos provocam reflexões sobre as profundezas daquele que reconhecemos "nosso" próprio ser, ainda tão misterioso quanto, às vezes, horripilante.

Escrito e dirigido pelo cineasta dinamarquês Las Von Trier, com o ator Willem Dafoe o "Duende Verde" no filme O Homem-aranha e a competente atriz francesa Charlotte Gainsbourg como únicos protagonistas, o filme Anticristo, considerado "o mais polêmico do ano", concebido "durante uma fase depressiva" do cineasta, é um desses que, malgrado possa vir a ser considerado "de profundo mau gosto" por uns tantos, foi realizado não apenas para testar a ousadia interpretativa de seus atores, mas também para remexer nossas cabeças e estômagos a pôr a questão sobre até que ponto somos, de fato, verdadeiros "humanos" ou apenas espécimes biológicos representantes de uma animalidade racional, verdadeiramente demoníaca para usar antigos signos religiosos, embora ainda tão atuais!, muito longe de ser superada.

O argumento inicial de Anticristo é relativamente simples: um casal perde um filho, que despenca da janela do apartamento onde moram e onde, no momento da morte do menino, eles fazem sexo. Filmado em preto e branco e em câmera super lenta, com fundo musical onde se ouve um belo solo erudito, de voz feminina - que torna muito chique e suave o que será apenas denso e trágico - a cena inicial do filme, o Prólogo da trama - uma vez que a história é dividida em capítulos - apesar de não ser uma obra pornográfica, exibe detalhes de sexo explícito.

Já aí encontramos uma inovação, uma vez que filmes que não tem cunho pornográfico, mesmo quando do gênero Terror ou Suspense, produzem cenas de sexo de forma apenas sugestiva, sendo freqüentas tais cenas de sexo em Anticristo, e sempre surpreendentemente violentas. Numa delas, a menos violenta, a mulher pede ao marido que lhe bata com força - o que é relativamente freqüente em relações entre "homens" e mulheres no "mundo real" para satisfação de alguns "homens" que, como se costuma dizer dos árabes em anedotas, com freqüência batem em suas mulheres que, então, secretamente, "sempre sabem por que estão apanhando", embora eles não tenham certeza do por que lhes estão espancando - fora o fato de que, para algumas mulheres , é extremamente prazeroso serem surradas como estímulo ao orgasmo.

Até onde percebi, o argumento do filme parece também ter sido inspirado nas idéias desenvolvidas no livro Personas Sexuais - Arte e decadência de Nefertiti a Emily Dickinson, da controversa e razoável intelectual norte-americana Camille Paglia - obra onde ela defende as expressões artísticas, essenciais instrumentos da produção de culturas, tentativas eminentemente masculinas de superação da verdadeiramente insuperável bestial força da natureza, a qual somos todos submissos, sendo as mulheres, como fêmeas de quaisquer espécies, as mais autênticas representantes dessa naturalidade - não apenas como seres integrantes da natureza como nós, machos, também somos, mas principalmente enquanto partícipes literalmente viscerais da materialização orgânica de formas pré-humanas da Vida, incubadoras biológicas daqueles que, violenta e sanguinolentamente expulsos de seus úteros, continuarão a perpetuar a espécie que, segundo Paglia, por vontade obsessiva dos machos - como uma expressão de nossa inveja do útero - tende a procurar conhecer a si mesma, domar instintos e fundamentar uma civilização a pretender se definir como substancialmente "humana".

Para ilustrar minha tese de que o autor/diretor Las Von Trier deve ter se inspirado na obra de Camille Paglia para realizar seu inquietante filme Anticristo - entre leituras de outras obras, naturalmente - seu protagonista demoníaco é a própria natureza e toda sua bestial brutalidade. Em seu filme, a decomposição progressiva dos corpos, o sofrimento e a morte são as máximas expressões do Mal. Há sempre árvores apodrecendo e desabando numa lamacenta floresta, e, entre outras, a incômoda visão de uma corça a carregar seu filhote natimorto, meio pendurado em sua vagina, como também, para a protagonista, "mãe-órfã" de seu filho, torna-se insuportável ver um pássaro recém-nascido caído do ninho devorado por formigas e, depois, capturado e destroçado por um falcão.

Para a personagem de Von Trier em crescente desespero, "A natureza é o templo de Satã" Camille Paglia a chama uma expressão do "daimon", presença essencial inevitável também em nossa própria bestial pré-humanidade, e quando uma brisa entra pela janela da cabana onde o casal se isola a tentar resolver seus traumas, num local curiosamente chamado "Édem" que nada tem do belo jardim do Édem que nos estimulam a imaginar o Livro do Gênesis, ela refere-se à brisa como "a respiração" de Satã. E há quase sempre para eles a companhia da chuva, quer de água como de pesadas sementes de carvalho, que despencam das centenárias árvores em volta sobre a cabana, "morrendo e morrendo", como observa a protagonista, fazendo-a entender que "tudo o que costumava ser bonito em Édem talvez fosse horrível" e que, agora, só o que ela ouve por lá é "o choro de tudo o que vai morrer".

Num outro momento do filme, um movimento na vegetação chama atenção do personagem de Dafoe. Num canto da mata, ele encontra escondida uma raposa, que devora parte de seu próprio corpo e, em câmera lenta, como final do "capítulo dois" da trama, late para ele com timbre de demônio: "O caos reina".

Numa das mais violentas cenas de sexo que já vi num filme, certamente para punir sua natureza perversa, a mulher corta o próprio clitóris com uma tesoura - ao que parece, uma referência do autor da trama ao que faziam com mulheres alguns católicos "santos" inquisidores na Idade Média, entre outros de outras culturas e épocas, a evitar que, com seus orgasmos, estimulassem as mulheres a deixarem escapar suas naturezas demoníacas . E a personagem de Las Von Trier se mutila depois de ter com o marido uma violenta relação sexual, bater no pênis dele com uma tora de madeira e, ao masturbá-lo, extrair-lhe sangue ao invés de esperma, furando depois a coxa dele com uma broca de mão e atravessando nela uma pesada roda-lixa de metal, prendendo-o na perna do homem com seu suporte de ferro e uma porca a evitar que ele a abandone - coisa que, apesar de toda a loucura e violência crescente da esposa, até então ele não parece disposto a fazer.

Ele é psicanalista e ela é escritora, diz a sinopse do filme. Como tal, ela anda a desenvolver uma tese sobre o comportamento "essencialmente perverso" das mulheres que, no passado, por isso foram mortas. Numa tentativa de ajudar a esposa a superar sua violenta crise existencial - embora não seja profissionalmente aconselhável que psicanalistas tratem de amigos ou, muito menos, membros de sua própria família - no Capítulo Três do filme, intitulado "Desespero: Femicídio ", ele começa com ela um diálogo interessante segundo versão legendada:

"Gostaria de fazer mais um exercício", diz ele. "Vamos interpretar. Meu papel será... todos os pensamentos que provocam seu medo. O seu papel será o pensamento racional. Sou a natureza. Tudo o que você entende por natureza".

"Tudo bem, senhor natureza", ela diz. "O que quer"?

"Machucá-la quanto eu puder", ele responde.

"Como?", ela pergunta.

"Como acha?", pergunta ele.

"Me dando medo", ela supõe.

"Matando-a", responde ele.

"A natureza não pode me machucar", ela acredita. "Você só é o verde lá fora".

"Não, sou mais que isso", ele garante.

"Não entendo", ela diz.

"Estou lá fora, mas também estou dentro. Sou a natureza de todos os seres humanos", ele esclarece.

"Esse tipo de natureza. O tipo de natureza que faz as pessoas causarem mal às mulheres", ela observa.

"Exatamente quem eu sou", ele diz.

"Essa natureza me interessou quando estive aqui", ela revela. "Era o assunto de minha tese. Mas não deveria subestimar Édem".

"E o que Édem faz?", ele pergunta.

"Descobri mais do que imaginava", ela diz. "Se a natureza humana é maldosa, também é válido para a natureza"...

"... das mulheres", ele completa: "Natureza feminina".

"Natureza de todas as irmãs", ela diz. "As mulheres não controlam seu corpo. A natureza é que controla. Escrevi isso nos meus livros".

"O material que usou em suas pesquisas era sobre maldades cometidas contra as mulheres", ele observa, "mas entendeu como a maldade das mulheres? Era para ser mais crítica sobre esses textos, era sua tese! Em vez disso, está levando a sério. Sabe o que está dizendo"?

"Esqueça", ela pede. "Não sei por que falei aquilo".

Num processo de violência crescente, de manifestação intensa da fêmea besta "humana", então, o psicoterapeuta termina inevitavelmente por estrangular a mulher que, ininterruptamente, ao mesmo tempo em que sexualmente lhe seduz e tortura, parece querer matá-lo, embora dubiamente procure sempre aplacar o sofrimento que lhe causa.

Misturados com a floresta, depois que mata a esposa e sai da cabana, o homem percebe, misturados com a vegetação, os fantasmas de todas as mulheres assassinadas ao longo da História, e o filme termina.

Como eu disse antes, "o filme Anticristo é um desses que, malgrado possa vir a ser considerado `de profundo mau gosto` por uns tantos, parece ter sido realizado não apenas para testar a ousadia interpretativa de seus atores, mas também para remexer nossas cabeças e estômagos a pôr a questão sobre até que ponto somos, de fato, verdadeiros `humanos`", e até que ponto a natureza é, de fato, a obra de um Deus "bom".

Para constatar ou contestar isso, procure ler o aqui citado livro de Camille Paglia e ver também o filme. Ele lhe mostrará certamente muito mais do que pude lhe contar até aqui. Para mim, o livro e o filme são verdadeiras obras-primas de ousadias estético-filosóficas, dignas daqueles que, destemidos, com profunda honestidade e de estômagos vazios, buscam melhorar a verdadeira essência de seus seres, que, a rigor, ainda não tem passado de expressões do caos e da violência bestial da natureza que nos reveste.

Anexo: Trailer de Anticristo (2009)

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2 comentários:

Aletheia disse...

Olá! Ao assistir ao filme tive basicamente as mesmas sensações que você, saí do cinema tensa e sem entender realmente meus sentimentos a seu respeito, e escrevi assim que cheguei em casa, de maneira caótica e desordenada. Parabéns pelo texto. um abraço

Marcos Vinícius Almeida disse...

http://www.revistabula.com/posts/colunistas/o-bezerro-de-ouro