segunda-feira, 30 de março de 2009

Burton e Mallarmé: obrigado Poe!

Primeiro trabalho em stop-motion de Tim Burton, Vincent (1982), conta a história de um menino de 7 anos, chamado Vincent Malloy. Ele é leitor de Edgar Allan Poe e sonha ser um grande ator de filmes de terror. Seu ídolo é Vincent Price, que narra a animação feita a partir de um poema de Burton. Para os leitores do blog O Vertebral, o curta legendado.


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"Tombeau d’Edgar Poe" foi escrita em 1877 por Stéphane Mallarmé, cujo verdadeiro nome era Étienne Mallarmé, poeta e crítico literário francês.


O túmulo de Edgar Poe

Tal que em si mesmo enfim a eternidade o muda,
O poeta suscita com uma espada desnuda
Seu século assustado de não ter percebido
Que a noite triunfava em sua voz estranha!

Como um vil sobressalto de hidra ouvindo o anjo
Dar sentido mais puro às palavras da tribo,
Proclamaram bem alto o sortilégio aurido
No fluxo degradado de uma negra mistura.

Do solo hostil e a nuvem hostil, ah quanta afronta!
Se nossa idéia falha em esculpir um relevo
De que o túmulo de Poe, deslumbrante, se orne,

Calmo bloco caído aqui de um desastre obscuro,
Que esse granito oculte ao menos seu contorno
Aos negros vôos da Blasfêmia esparsos no futuro.


quarta-feira, 25 de março de 2009

Barba e cabelo


Moacyr Scliar
mscliar@uol.com.br
Médico e Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras

No Oriente Médio é um costume antigo e tradicional: as mulheres cobrem a cabeça com um lenço ou com um véu, um sinal de modéstia e de pudor. Para os homens a regra é deixar crescer a barba: um rosto barbeado equivale à uma desavergonhada e ofensiva nudez. Ah, sim, e a barba não pode ser aparada. Deve crescer conforme o desígnio divino, em direção à terra que é nosso destino final. Os pelos faciais do homem são um sinal de dignidade. Os cabelos da mulher, não. Ao contrário, são um símbolo de sedução.

E isto nos lembra a lenda da Medusa, aquela mulher cujo olhar paralisava os homens e que exibia uma cabeleira formada de serpentes.De onde teria surgido esta espantosa figura? Não é difícil imaginar. A serpente, réptil de ataque sorrateiro, é um antigo símbolo de pérfida sedução – não foi a serpente que tentou Adão e Eva no Paraíso? Mas, notem, foi à mulher que a serpente se dirigiu, não ao homem, como se houvesse, entre ambas, certa afinidade, certa cumplicidade. Não é admirar que, nas religiões monoteístas, a mulher tenha ficado com o estigma de pecadora em potencial. Estigma que tem um símbolo, os cabelos. Tal como vistos pelos moralistas de todos os tempos, os cabelos das mulheres são sutis tentáculos, prontos a prender os homens. São as serpentes da Medusa.

O mundo mudou. Aos poucos, as mulheres foram se libertando e seus cabelos dão testemunho disso. Agora, não apenas são mostrados, são também cuidados e embelezados, o que sustenta uma milionária indústria. E a imagem de sucesso masculino, no Ocidente, é a do executivo sorridente, com rosto bem escanhoado. As barbas, quando existem (por exemplo, no caso de professores e intelectuais) são bem cuidadas. Uma exceção ocorreu quando da revolução cubana, que a barba de Fidel até hoje lembra: aquela, sim, é uma barba bíblica, uma barba de profeta, papel que os líderes revolucionários de certa maneira sonharam desempenhar. Uma barba que lembra os revolucionários lutando em Sierra Maestra: não tinham tempo nem condições para cuidar da aparência, mas sonhavam com um mundo melhor.

Uma vez escrevi um conto chamado “O Cabeleireiro da Medusa”, descrevendo os sofrimentos de um pobre homem às voltas com o ninho de cobras que era a cabeleira da medonha figura. Tirando este fictício caso, a profissão é amena, agradável, e em alguns casos chega às fronteiras da arte – nomes famosos não faltam para comprová-lo e, nos filmes americanos mais antigos, o nome do responsável pelos penteados das atrizes sempre figura nos créditos.

Em relação aos homens é diferente. Para começar, falamos de barbeiro, não de cabeleireiro, mostrando a importância de estar bem barbeado. Aliás, no passado, os barbeiros eram figuras importantes, porque prestavam cuidados cirúrgicos (durante muito tempo a cirurgia, coisa manual, era vista com desprezo pelos clínicos). Barbeiro abria abscesso, fazia sangria, providenciava curativos. Mas, mesmo cuidando apenas da barba, e do cabelo, sempre foi uma figura típica e aí está a ópera “O barbeiro de Sevilha” para confirmá-lo. O barbeiro era, e freqüentemente o é, um profissional animado, loquaz, o que é compreensível: ali está ele, perto de seu cliente, que, imóvel, só pode falar (e escutar). O dentista não pode manter um diálogo; o barbeiro pode. Resultado: as barbearias são locais animados. Espera-se ali que todos, profissionais e clientes, batam papo.

Estudante de medicina, e fazendo um curso em São Paulo, fui uma vez a uma barbearia para cortar o cabelo. Sentei-me na cadeira, o homem perguntou se era para aparar a cabeleira (abundante, naqueles bons tempos), fiz que sim com a cabeça e ali permaneci imóvel, enquanto ele trabalhava. O homem me olhava e sorria, muito amável, coisa que eu não estava entendendo. Lá pelas tantas perguntou:

– Não fala?

Mirei-o, espantado. Ele repetiu:

– Não fala português?

Aí me dei conta: como muitas vezes acontece, no Rio ou no Nordeste, ele estava me achando com cara de americano. Claro que falo português, respondi. Ah, bom, ele disse. E daí por diante, sem qualquer esperança de receber em dólar, atacou selvagemente os meus cabelos, como se fossem as cobras da Medusa. Houve época em que os cabelos americanos impunham respeito. Bush deve ter saudades disso.

terça-feira, 24 de março de 2009

Reflexões sobre a rapsódia de Mário de Andrade

(Tarsila do Amaral)

Jorge Sanglard
jorgesanglard@yahoo.com.br
Jornalista, Pesquisador Musical e Produtor Cultural

A obra-prima modernista de Mário de Andrade (09/10/1893 – 25/02/1945) “Macunaíma” completou 80 anos em julho de 2008 e o Brasil celebrou em outubro os 115 anos do nascimento do escritor. Os 800 exemplares da primeira edição e suas 288 páginas marcaram a literatura brasileira de forma definitiva. Apesar da frase “Ai, que preguiça!” simbolizar o estado de espírito do “herói sem nenhum caráter”, o certo é que nos 80 anos de presença na vida cultural brasileira “Macunaíma” permanece desafiando o tempo e provocando reações as mais diversas. Amado por uns e questionado por outros, o livro é uma autêntica imersão nas coisas do Brasil e, sem dúvida, é um dos marcos da língua portuguesa no século XX.

Até o Carnaval do Rio de Janeiro abriu alas para o personagem de Mário de Andrade, em 1975, quando a Escola de Samba Portela cantou na avenida o samba-de-enredo “Macunaíma”, de David Corrêa e Norival Reis: “Vou me embora, vou me embora / eu aqui volto mais não / vou morar no infinito / vou virar constelação / Portela apresenta, do folclore tradições, / milagres do sertão a mata virgem / assombrada com mil tentações / Macunaíma, índio branco catimbeiro, / negro sonso, feiticeiro, / mata a cobra e dá um nó...”.

Para marcar o cinqüentenário da obra de Mário de Andrade, em 1978, Telê Porto Ancona Lopez lançou uma edição crítica de “Macunaíma” (LTC) apresentando o texto da rapsódia ilustrado por oito guaches de Pedro Nava (05/07/1903 – 13/05/1984), feitos em 1929, e buscando desvendar o processo literário do escritor, além de refletir sobre as múltiplas leituras que o livro suscitou. Esta edição comemorativa também trazia outras ilustrações realizadas em épocas diferentes: um desenho a nanquim e lápis de cor de Cícero Dias, um desenho a lápis de cor cinza sobre papel e uma pintura de Tarsila do Amaral, duas águas-fortes de Carybé, um desenho a tinta sobre papel de António de Alcântara Machado (Totó), um desenho de Del Pino, uma ilustração de Euclides L. Santos e uma gravura de Santa Rosa para a capa da segunda edição, publicada em janeiro de 1937, pela José Olympio Editora, com mil exemplares. A força de “Macunaíma” continua sedutora, oito décadas depois, e ainda inspira leituras diversificadas.

Autêntico ícone modernista brasileiro, “Macunaíma” inspirou também o saudoso artista plástico mineiro Arlindo Daibert (12/8/1952 – 28/8/1993) e ganhou adaptações no cinema e no teatro no Brasil. Em 1969, a obra foi filmada pelo cineasta Joaquim Pedro de Andrade, utilizando, sempre que possível, as palavras do livro. Eduardo Escorel assinou a montagem, Carlos Alberto Prates Correia foi o assistente de direção e no elenco despontavam Grande Otelo, Dina Sfat, Paulo José, Milton Gonçalves, Jardel Filho, entre outros. E, em 1978, o encenador Antunes Filho dirigiu uma premiada adaptação teatral do Grupo Pau Brasil e de Jacques Thiériot, tendo como cenário a floresta amazônica em meio a sons de água e barulhos de pássaros, de ramagens e de animais. Essa rede mágica sonora ambientava toda a ação das personagens.

Em 2008, a cantora Iara Rennó lança o CD “Macunaíma Ópera Tupi” -"Macunaó.perai.matupi" (Petrobras – MinC), trazendo músicas de sua autoria a partir de letras extraídas de trechos da obra de Mário de Andrade. A cantora afirma que as formas da música popular folclórica do Brasil se misturam com a música contemporânea que ela ouviu. A partir daí, diz Iara, surgiu este disco, conservando e corrompendo a tradição, colando e recriando, bem ao gosto do poeta e ao sabor da obra, “na fala impura”.

O disco conta com diferentes produções em cada música, articulando artistas como Siba, Kassin, Moreno Veloso, Benjamin Taubkin, Beto Villares, Alexandre Basa, Maurício Takara, Daniel Ganjaman, Quincas Moreira e Buguinha Dub. E ainda traz como convidados Tom Zé, a banda Fuloresta, Arrigo Barnabé, Dante Ozetti, Funk Buia, Barbatuques, Tetê Espíndola, Toca Ogã, Da Lua, Bocato e Anelis Assumpção. Segundo Iara, o CD será distribuido em escolas públicas de ginásio e segundo grau em todos os estados do Brasil, como complemento de estudo da obra “Macunaíma – o herói sem nenhum caráter”. O projeto “Macunaó.perai.matupi” ou “Macunaima Ópera Tupi” nasceu a partir de um estudo de “Macunaíma”, quando Iara cursava literatura na faculdade de letras da USP.

Pedro Nava criou os oito guaches a partir de “Macunaíma” para devolver uma provocação do amigo Mário de Andrade, que tinha enviado o livro com a dedicatória: “A / Pedro Nava, / pouco trabalhador, / pouco trabalhador, / o / Mario de Andrade / São Paulo 14 / VIII /28”. Ao aproveitar as páginas em branco da primeira edição, Nava desenhou sua visão de Macunaíma e devolveu-a a Mário estabelecendo um diálogo criativo intenso e vigoroso. Na verdade, muitos anos antes de se tornar o maior memorialista brasileiro, Pedro Nava transitava no desenho com desenvoltura e personalidade instigante. Estes oito guaches são a prova incontestável.

A arte de Arlindo Daibert (também juizforano como Pedro Nava), quase 15 anos após a morte do artista plástico mineiro, é outro testemunho vivo da ousadia e da inventividade de quem sempre encarnou a criação como um desafio e um estímulo, além de um compromisso com a produção do saber. O legado de Arlindo Daibert deixa explícita a inquietação, a precisão e a afiada percepção de um artista em permanente processo de reflexão sobre a linguagem do desenho. O livro “Macunaíma de Andrade” (Editora UFJF), com trabalhos de Daibert, editado em 2000, representou um verdadeiro mergulho na essência de “Macunaíma” e uma autêntica rapsódia, com direito a novas apropriações e à exploração de muitas outras vertentes.

Assim, a editora prestou não só um tributo à memória de um dos mais significativos artistas brasileiros da segunda metade do século XX como reafirmou a intenção de manter ao alcance do público uma obra impregnada de inquietação do primeiro ao último traço, da primeira à última linha. A interpretação visual de Arlindo Daibert merece ser exposta permanentemente para que mais e mais pessoas vislumbrem toda sua criatividade e, a partir daí, ampliem o debate sobre o papel de Mário de Andrade na renovação da literatura brasileira e como fonte inspiradora e questionadora.

Arlindo Daibert criou 58 imagens em técnica mista, lançando mão do desenho, pintura e colagem, e outros 10 esboços, reafirmando o diálogo com a rapsódia de Mário de Andrade e acentuando a forte influência da matriz geradora marioandradina. A cada nova leitura, seja nas artes plásticas, seja na música, ou cênica, ou ainda cinematográfica, “Macunaíma” permanece oito décadas após seu lançamento como uma matriz expressiva e sedutora. Na apresentação do livro de Daibert, Telê Porto Ancona Lopes diz tudo: “Nessa navegação que se apropria do texto com alta exigência no artefazer, ‘Macunaíma’ se transforma, de fato, em ‘Macunaíma de Andrade Daibert’, soma de universos”. E é exatamente a possibilidade de permitir esse entrecruzamento de universos que faz da obra-prima de Mário de Andrade uma fonte permanente de inspiração, mesmo passados oito décadas da primeira edição.

A relação essencialmente inventiva expressa pelo artista plástico nos desenhos, pinturas e colagens de sua reflexão sobre “Macunaíma”, reafirma o compromisso inventivo de Arlindo Daibert. Toda a força criativa desta interpretação aberta da obra de Mário de Andrade pode ser percebida e acompanhada no Diário de Bordo, que revela como o artista juizforano iniciou um estudo detalhado da obra de Mário de Andrade e passou a se enveredar nas artimanhas de “Macunaíma”, entre 1981 e 1982, para elaborar uma de suas mais intensas séries. Como muito bem ressaltou o jornalista e crítico de arte mineiro Walter Sebastião, ao escrever sobre “Imagens do Grande Sertão - Arlindo Daibert” (Editora UFMG – Editora UFJF), lançado em 1998, a incrível rede de significados elaborada por Daibert exprime a síntese de toda a sua inteligência no manuseio de signos/símbolos e toda a sua habilidade artesanal. Tanto ao se enveredar pela rapsódia de Mário de Andrade quanto pelos caminhos do “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa, Daibert assumiu riscos, enfrentou o desafio de peito aberto e criou uma obra maior, onde a reflexão marca presença em cada momento, com a interpretação do artista plástico abrindo perspectivas novas sobre o original de escritos tão díspares e tão contundentes.

Um artista capaz de deixar fluir uma forte crença na responsabilidade cultural de sua arte, Daibert sempre se recusou ser um mero “produtor de imagens” e defendia como compromisso do artista a produção do saber. Assim, Arlindo não levou em conta o contexto pessoal do escritor Mário de Andrade e não fez uma releitura técnica de “Macunaíma”. Afinal, não se trata de uma ilustração para a obra marioandradina. Na verdade, Arlindo ousou criar sem limitações, tendo como ponto de partida o estímulo literário.

No livro “Macanaíma de Andrade”, o saudoso artista plástico mineiro conseguiu, mais uma vez, romper limites e refletir sobre a linguagem do desenho. O desafio da criação nunca intimidou Arlindo Daibert, pelo contrário, sempre serviu como estímulo. Ao criar as imagens de “Macunaíma de Andrade”, Arlindo Daibert explorou toda a diversidade de situações presente na obra-prima de Mário de Andrade, deixando muito claro que, ao realizar seu trabalho, seja em desenho seja em pintura, ou ainda em colagem, o fundamental era exercitar uma linguagem de encarar o mundo. E ressaltava que não se podia confundir um método de raciocínio com apenas uma produção de imagens. A característica da linguagem gráfica de Arlindo Daibert não poderia deixar de ser a criação da imagem, mas sempre como conseqüência e não como fim de seu projeto. E o artista plástico explicitava este ponto de vista: “O meu projeto não é criar imagens, o meu projeto é refletir sobre as coisas através das imagens”. Isso criou uma dinâmica capaz de não prender a criação de Daibert a nenhuma fórmula gráfica, a nenhum estilo gráfico.

O artista plástico ainda confidenciou: “Eu tenho um estilo de raciocínio e não um estilo gráfico. Os meus estilos gráficos se adaptam às problemáticas que eu estiver refletindo em cada momento”. Este era o grande trunfo de Arlindo Daibert como um artista afiado e afinado como seu tempo. Avesso a concessões e a limitações, Daibert fazia da ousadia de dar um passo à frente o estímulo para continuar caminhando até o infinito. Essa percepção mágica diferenciava Arlindo e está viva e presente em sua arte.

Amigo de Arlindo Daibert e guardião de suas três mais importantes séries reunidas no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – “Macunaíma de Andrade”, “Imagens do Grande Sertão” e “Alice” –, o colecionador Gilberto Chateaubriand ressaltou a genialidade do artista plástico mineiro: “Arlindo, no seu período de vida, foi talvez o mais completo desenhista que nós tivemos, porque ele aliava não só a habilidade e a técnica do traço, mas também a cultura e a pesquisa. Basta conferir os desenhos surrealistas do início da carreira, como também os de fundo mais histórico e narrativo, e até os que traziam um contingente autobiográfico”. Em seu pouco tempo de vida, Arlindo deixou uma obra expressiva e consistente tanto qualitativamente quanto quantitativamente. É justamente aí, segundo Chateaubriand, que se observa sua genialidade, porque era um criador frenético e sempre decidido.

Ao receber da família de Daibert a série “Imagens do Grande Sertão”, após a morte do artista plástico mineiro, complementando o acervo em sua coleção de arte contemporânea, Chateaubriand revelou: “É com muita emoção e muita saudade que recebi esta obra, porque uma das últimas visitas, senão a última visita, que recebi de Arlindo foi justamente para me dizer que fazia absoluta questão que a série sobre o livro ‘Grande Sertão: Veredas’, finalmente, compusesse a trilogia com os trabalhos que eu já tinha dele. E que eu destinasse sempre os trabalhos para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, o MAM, onde ele sempre mereceu uma acolhida generosa”.

O poeta e pesquisador Júlio Castanõn Guimarães, no livro “Caderno de Escritos” (Editora 7Letras), afirmou que o artista, tendo iniciado brilhante carreira no início dos anos 70, impôs-se logo pelo virtuosismo de seu desenho. “Nos cerca de 20 e poucos anos em que desenvolveu sua atividade, incorporou a esse traço inicial uma série de outras peculiaridades, em que se destacava a permanente discussão da própria criação artística”. A importância de Arlindo Daibert como artista plástico, segundo Júlio Castanõn, já foi devidamente - embora não suficiente - ressaltada, não só pela sua curta trajetória, mas também pelo reconhecimento dos principais críticos de arte do país.

Sua intensa e múltipla produção era acompanhada de (e refletia) uma permanente preocupação com questões que ultrapassam os limites da técnica, ressaltou Castanõn: “A reflexão, a indagação, a especulação sem dúvida foram determinantes em seu percurso. Dos bicos-de-pena iniciais, ligados a uma tendência ao fantástico, até os objetos de fria e violenta elaboração conceitual, o caminho não envolveu apenas um arrojo de pesquisa, mas também um embate com a noção mesma de produção artística”.

“Um franco atirador que jamais erra o alvo”. Assim, o jornalista, crítico de arte, ex-secretário estadual de Cultura em Minas Gerais e atual prefeito da histórica Ouro Preto, Angelo Oswaldo, definiu o artista Arlindo Daibert, lembrando que ele enfatizava a individualidade como condição imprescindível numa época de padronização e massificação da própria subjetividade. “Incentivador de projetos à sua volta, na qualidade de professor da Universidade Federal de Juiz de Fora e curador de exposições, alimentava o crescimento de valores novos, ao mesmo tempo em que reabastecia para o desafio da criação”.

Amigo e conhecedor de sua obra, Angelo Oswaldo considera Arlindo Daibert um dos mais importantes artistas da contemporaneidade brasileira. “A morte dele interrompeu uma trajetória que nos levaria definitivamente a uma das obras mais significativas do século XX”. E ressalta, ainda, que o artista foi responsável por ter colocado Juiz de Fora como um centro de referência de vanguarda no cenário artístico nacional.

A interação entre a literatura e visualidade, ponto essencial da proposta artística de Arlindo Daibert, é apontada por Angelo Oswaldo como uma contribuição ímpar: “Há um processo de integração entre a literatura e a visualidade - que ele soube resolver muito bem - em que a força da linguagem se transforma na grande energia autônoma da expressão visual. Ele conseguia extrair a poética da literatura e dar suporte à sua expressão visual, sem violentar a autonomia da imagem”. Segundo Angelo Oswaldo, a obra visual de Daibert deve um tributo à literatura, mas é também autônoma, pois cria sua linguagem própria a partir de símbolos literários. “Dentro das artes plásticas brasileiras, talvez seja a obra mais intelectualizada, porque Arlindo trouxe para o campo da criação plástico visual toda a sua rica cultura nas áreas de literatura, lingüística e filosofia”.

Daibert abordava de maneira singular, como desenhista, pintor, criador de objetos e instalações, obras de autores como Mário de Andrade, Murilo Mendes, Guimarães Rosa e Lewis Carroll, entre outros. Além do legado artístico, em termos de acervo, Arlindo deixou um trabalho muito importante para a cultura de Minas Gerais e do Brasil, contribuindo, de modo especial, para a revalorização da presença do poeta Murilo Mendes (1901-1975) no país e para a instalação em Juiz de Fora do Centro de Estudos Murilo Mendes, atual Museu de Arte Murilo Mendes, instituição da Universidade Federal de Juiz de Fora, que abriga a obra e a pinacoteca do poeta juizforano.


[1] DAIBERT, Arlindo. Cadernos de escritos. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1995. p.25-26. (Organização de Júlio Castañon Guimarães.)}[2] SOUZA, Eneida Maria de. A pedra mágica do discurso. 2.ed. revista e ampliada. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1999.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Massacre jovem


Antônio Mourão Cavalcante
a_mourao@hotmail.com
Psiquiatra e Antropólogo

O jovem pega uma possante arma, enche a mochila de balas e sai para ajustar as contas. Feito um robô, ele dispara, matando quem encontra pela frente. Os professores e seus colegas de escola constituem o alvo principal. Nos dias seguintes à tragédia a polícia procederá as investigações. Descobrirá que era um garoto introspectivo, tímido. Vivia isolado, solitário e com um intenso envolvimento com jogos violentos no computador e na Internet. Claro que muitos outros jovens apresentam comportamento de escusa social e nem por isso são assassinos. Descobre que ele freqüentava a escola, a mesma onde praticou o tresloucado gesto. Ele fora humilhado e algumas vezes castigado, até mesmo excluído. Expulso. Isto é, a escola sendo um terreno onde conheceu intensa humilhação e grave frustração. Para uma personalidade em formação, essa vivência pode ser dramática. Catastrófica.

Tenta-se buscar na Psiquiatria alguma explicação. Comumente estes adolescentes tiveram episódios em que foi necessário procurar ajuda, até com o uso de medicamentos e hospitalização. Fala-se insistentemente em depressão e surtos de tipo psicótico, além do uso imoderado de bebidas e remédios controlados. A lista de hipóteses pode ser mais longa... Há agressões e violências familiares, abusos e rejeição. Muitas vezes mantém-se um rigoroso silêncio e discreta negação. Aparentemente, tudo vai bem... No final, a grande surpresa: Meu Deus!

Quando um dia cunhou-se a expressão: “o homem é um ser social”, não foi apenas uma frase de retórica. Tem cabimento. Nenhum ser humano pode viver como ilha. Precisa do aconchego familiar. Do acolhimento como pessoa plena de dignidade, carente de afeto e reconhecimento, com sentimentos de pertença, feliz por existir entre nós, estruturado em sólidos valores morais e éticos. Na vida humana um remédio mostra-se sempre muito eficaz: a solidariedade que responde também pelo nome de amor...

Anexo: trecho de Tiros em Columbine

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domingo, 22 de março de 2009

Pequenas epifanias de Clarice

Miguel Leocádio Araújo
Graduado em Letras pela UFC
Especializado em Investigação Literária pela UFC
Mestre em Literatura Brasileira pela UFC

Quando lançou Felicidade clandestina (1971), Clarice Lispector (1920-1977) já era uma escritora consagrada. Com vários romances, livros de contos e crônicas escritas para jornais, ela decide dar destino a um material já conhecido de seu público.

Os 25 contos ali enfeixados haviam saído em A legião estrangeira (1964) ou como crônicas para o Jornal do Brasil, onde Clarice manteve uma coluna semanal, de 1967 a 73, completando-se com As águas do mundo, um trecho do romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969). Nenhum texto inédito, mas era como se fosse. O livro de 64 ofuscara-se pela publicação de A paixão segundo G. H., romance impactante, considerado uma de suas obras-primas, também de 64. Já as crônicas para jornal perdiam-se no tempo, levadas pelo imediatismo da edição do dia seguinte. Logo, o suporte do livro, ao retomar os textos, deu-lhes uma nova vida e uma permanência tão longeva quanto qualquer outra publicação da escritora, com seus temas mais caros e suas técnicas de composição tão peculiares.

Um das temáticas recorrentes é a infância, com suas experiências marcantes fixando-se na memória. Um exemplo: o texto que dá título à obra lança o leitor no universo do desejo inocente de uma menina por um livro. Uma vez de posse do objeto desejado, ela experimenta uma "felicidade clandestina" que a acompanhará por toda a vida, pegando-a de surpresa, provocando sensações inesperadas, como as "pequenas epifanias" de que falou Caio Fernando Abreu. Felicidade difícil e momentânea, porém forte.

Aliás, a infância protagoniza vários contos: um menino que se desestabiliza com a visão do dente de ouro e com o amor maternal de uma prima (Miopia progressiva); a garota que, num triste carnaval marcado doença da mãe, mesmo depois de ter sua fantasia de flor destruída, ainda é reconhecida como "uma rosa" e não como simples menina (Restos do carnaval); a ruivinha que se depara com um cão basset também "ruivo" e vê nesse encontro algo similar à descoberta da suprema afinidade entre os seres (Tentação); ou a menina que roubava rosas e pitangas por achar que estas "pediam" para serem roubadas em vez de permanecerem nos galhos e apodrecerem ("Cem anos de perdão"), entre algumas outras. Alguns destes textos são baseados em reminiscências da própria autora, conforme depoimentos de familiares colhidos por suas biógrafas. Trata-se então do vivido que é ficcionalizado, como se Clarice quisesse passar sua vida a limpo.

Também recorrentes são os animais, que aparecem como contraponto às personagens (pessoas), às vezes devolvendo-lhes uma humanização já esquecida. Assim, há galinhas, macacos ou insetos como a barata, que, vale lembrar, constitui a matriz deflagradora da experiência de mergulho em si mesma, da narradora-protagonista de A paixão segundo G. H.

Embora alguns textos apresentem ação, respeitando a etimologia do termo "conto", no sentido de relatar um fato acontecido, outros se fazem na exploração de uma atmosfera, um sentimento ou uma reflexão, contrariando o ato de "contar uma história". Em O ovo e a galinha, totalmente despojado de enredo, tomam-se os dois elementos do título como metáforas da existência, ao mesmo tempo em que representam os objetos e os seres tragados pela voracidade do olhar em busca de compreendê-los.

Neste sentido, é muito freqüente a associação da obra clariceana com a filosofia existencialista, representada sobretudo por Jean-Paul Sartre, autor do romance A náusea e do ensaio filosófico O ser e o nada. Os questionamentos existenciais, suas angústias e vicissitudes, estão associados à sondagem da vida interior das personagens e à própria elaboração literária, constituindo-se como metalinguagem consciente de seu lugar de procura, que mais pergunta do que responde, ancorando-se no cotidiano, como acontece em "Menino a bico de pena".

E é no cotidiano que se localiza a tão falada epifania clariceana, que nas palavras de Affonso Romano de Sant'Anna seria "o relato de uma experiência que a princípio se mostra simples e rotineira, mas que acaba por mostrar toda a força de uma inusitada revelação", apresentando-se como "iluminação súbita" na consciência das personagens, descortinando sua verdadeira condição. Fugazes e imediatas, essas epifanias, na verdade, nunca são "pequenas", pois guardam a tensão viva da clandestinidade dos afetos soterrados pelas máscaras sociais de cada um.

sábado, 21 de março de 2009

A divina comédia de Dante e Moacir: Ó o mêi!


Ricardo Guilherme
ricardo-guilherme@uol.com.br
Criador do Teatro Radical Brasileiro

MOACIR
Ei, psiu, seu Deus! Meu Deusim, ói pa mim. Eu sô fii do Martim, aquele arrenturero que rêi lá de Purtugal atrás dumas tora de pau, aquele daquelas nau chêa de puga, o portuga que rêi dá o grau nas cunhã e que se enrabichô pur uma cunhatã de primêra linhage que prepararra de Tupã a beberage. Repare bem pas minha fuça de tabajara. Eu sô Moaci, paroara, neto de Araquém, fii da Iracema. O Sinhô se alembra da mãe? Aquela do banhe nas lagoa de Porangaba e Mecejana que pariu um bruguelim numa cabana. Apois o bruguelim tá aqui: Moaci, da Iracema, um cearenso da gema. E se eu rim rê seu imbrema, remano que nem pêxe na piracema, é purque seu Dante foi lá na Terra me dizê que o Sinhô tinha umas coisa pa me dizê.

DEUS
Eu rô te dizê de A a Z o que é da minha conta, do meu rosaro e dos meu buzo. Lá rai. O que é do meu abuso é esse teu entra-e-sai. Só purque tu ficô sem mãe e aí teu pai, o Martim, te amostrô muntas légua e légua sem fim. E assim, tu mora andano, sempe arribano, hôme de Deus.

MOACIR
Deus dos Hôme, num me jogue péda, num me bote arreparo. Eu num paro, eu num paro, mas o sinhô tombém desarreda, Nisso o Sinhô num se faça de santo. O Sinhô tombém tá im tudo quanto é canto.

DEUS
Tu qué bem dizê que é saltimbanco purque me arremeda!

MOACIR

Positivo, tiro e queda.

DEUS
Hôme de Deus, tu quano arreda, arreda, e eu arredo mas num desarredo. Posso tá aqui e tá lá, no mermo tempo, im todo lugá, e tu num tem esse dom. Tu num pode sê eu. Tu num é eu. Tu é um errante judeu. Úh! Tu nem é Deus. Iei! Tu é hôme.

MOACIR
Deus dos Hôme, num me embrome. Ai, ai, ai, ai, ai. Se eu sô fii de Deus - ora, merda - o fii tudo herda o que é do pai.

DEUS
Hôme de Deus, tu tá embananano as carta do barai ô intão tá com implicança. Purque as tua herança é a terra.

MOACIR

Deus dos Hôme, aí é adonde o Sinhô erra purque im toda terra tem os coronel e os colono, como aqui no céu, adonde o Sinhô é que é o dono. Eu tô reno que no céu é cuma lá na terra do sol: nós rai po sol e só quara, quara, feito babaquara. Ô Deus, num era pa pelo meno o Sinhô, aqui no céu, fazê a reforma agrara?

DEUS
Hôme de Deus, pára, pára. O céu cum a terra não se compara. Aqui num se paga aluguel e tem sempe o de-comê pa mode se enchê o farnel.

MOACIR
Eu sei, Deus dos Hôme, que ninguém passa fome na sua cozinha, mas insine pos hôme um mêi de tombém tê essas meizinha.

DEUS
Hôme de Deus, eu rá matei tua fome, tanto, tanto. Mas nem todo dia é dia santo. Eu ra te dei tanto insino. Rai cuidá do teu distino.

MOACIR
Deus dos Hôme, o meu distino é o mermo distino da arribaçã que veve pulano de gai im gai, no mêi dos pé de pau. Eu sô pé-rapado, capiau, cabrinha acanaiado que nem o cão da itaoca. Eu sô cuma se eu fosse fii do bode Ioiô com a galinha choca.

DEUS
Cearenso, o que eu penso é que tu é que nem um pinto calçudo que veve ciscano e o teu ciscá nunca se acaba.

MOACIR
É por causo que eu, Sinhô Deus, nasci no campo da Porangaba, mas um dia, adispois de minha mãe ra finada, meu pai me socô numa jangada e me puxô pa ôtas quebrada.

DEUS
Mas, hôme de Deus, tu num é fii de chocadêra. Tu teve mãe e a tua mãe num era estradêra. Se ela um dia do sertão descambô foi pur amô. Foi pur amô que tua mãe traiu o Pajé, teu avô, traiu a pajelança. Tua mãe deu a teu pai o cauim que era do Xamã. E no que ele bebeu, ela traiu de Tupã a confiança. .Pur amô, tua mãe traiu Caubi, teu tio, e partiu da tribo os fio. Ela esvaiu o sangue da sua própria herança quano quebrô com o Guerrêro Branco aquela lança..

MOACIR
Meu Deus, Nosso Sinhô, o Sinhô sempe gabô dizeno que o amô amansa qualqué diferença. Pu amô num tem cô, num tem raça. num tem crença. Isso eu sei derna que era piqueno. O amô é feito capim que brota em qualqué terreno. E eu num tô reno adonde o Sinhô qué chegá com esse seu blábláblá.

DEUS
Apois eu tô reno que é a tua ficha que num cai. Agora sai dessa, sai. Por que é que, quano tua mãe embarrigô, tu dento dela encruô e nasceu Moaci, fii da dô? E se tu, Moaci, num queria nascê ali, pur que foi intão que tu rêi e só rêi adispois de munto ai, ai, ai? Foi só pá puxá a teu pai, o viajante. Por isso é tu qué veve sempe distante, nas lonjura, fugino do lugá do teu avô adonde teu pai cavô pa tua mãe a seputura.

MOACIR
Deus dos Hôme, criadô, criatura, por favô, pára com isso. Se num fosse minha mãe eu num tinha essas mistura e eu num era mestiço. E o Sinhô, sinhô Deus - pula amô de Deus, Deus - num renegue seus cumprumisso. Encangá e apartá num é de Deus tombém os ofiço? Intão, dêxe de bestêra! Deus, eu te cunheço, laranjêra. Tu encanga mas tombém quano tu corta, é afiada a tua pexêra purque o teu corte é de morte e a morte num é brincadêra. Foi tu que me dêxo sem mãe, solto na buraquêra. Foi tu, Deus, que esse destino de judeu me deu. Foi tu, Deus.

DEUS
Hôme de Deus, eu te botei no teu mêi, no Cearazim, adonde tu foi curumim.

MOACIR
Meu Deusim, daquelas maloca os zé-povim é tudo-tudim cuma o Seu Dante que faz uma travissia no rumo do céu, escapano do inferno e do purgatóro. Nós sai atrás de adjutóro. Intão, se o cearenso sapeca o sarrafo a viajá pelas arêa do chão, das vez é pur gosto, é pur um frivião, mas a mó das vez é pur pricisão.

DEUS
Hôme de Deus, adonde mora o teu porém é lá no teu chão. Lá é que é o mêi. E foi pa isso que eu te chamei: pa te dizê que a mirage daquela beberage que tua mãe fazia e oferecia pos guerrêro de Tupã sonhá é pa tu botá no teu lugá. Bem no mêi. Intão, num me aperrêi. Sai do meu mêi e rai pa lá. No pau-de-sebo tu raí agora escorregá. E é um e é dois e é três e é mêi e é já.

MOACIR
Ó o mêi, que eu rô pa terra rê as serra e os monte que ainda azula no horizonte. Eu rô rê os rai de sol e as raia das praia adonde canta a jandaia nas palma da carnaúba. Ó o mêi, que o pau-de-sebo me derruba. De arriê. Lá rai, lá rai, lá rai! Ó o mei, ó. Taqui o mêi, no mêi desses arredó. O mundo é grande mas o Ceará é maió. A gente se embrenha mas - oxente - parece que o lugá rai e rem tombém dento da gente e faz cum que a gente se encangue. Ó o mêi, ó o sangue! Eh, Ceará! O mêi é o má, é o mel, é o mói, o mêi é só o mii, o mêi é a mãe. Iracemãe, se arreganhe e me semêi que eu vortei pa passá de novo pelo seu mêi. Ei, ei. ei, ei! Ó o mei!

sexta-feira, 20 de março de 2009

Charge

Clayton Rebouças
claytoncharges@gmail.com
Chargista

A escola é a cara do diretor

Daniel Lins
dlins2007@yahoo.com.br
Sociólogo, filósofo e psicanalista,
com doutorado em Sociologia - Université de Paris VII -
Université Denis Diderot (1990)
e pós-doutor em Filosofia pela Université de Paris VIII (2003)

A Coréia do Sul e a Finlândia, países que atraem, graças ao sucesso planetário, visitantes do mundo inteiro à procura da receita apropriada à gestão de uma educação vencedora, escolheram a figura do diretor como eixo de uma “educação vitoriosa”. paralelamente, outros países : Reino Unido, alguns estados da América do Norte, Vietnam, Grécia, Islândia etc., que alcançaram resultados extraordinários na educação, repetem a mesma máxima: “A escola é a cara do diretor”.

Neste contexto, proponho fragmentos de uma entrevista exclusiva com o Dr. André Metz, educador e pesquisador do “Estado atual da educação finlandesa”.

- O que é um diretor?

- Um diretor é antes de tudo um sujeito altamente formado. A maioria possui doutorado, sendo mestrado, diploma obrigatório para exercer a função. Sua formação integra os saberes da gestão, da micro-economia, da cognição ampliada pela riqueza da transversalidade sem a qual a questão relacional não existe, e das culturas em geral. É alguém que deve falar pelos menos duas línguas, afora a língua pátria, sendo prioritário o inglês e o francês, às vezes, o espanhol, no caso dos USA, por razões históricas. Na Finlândia os diretores aprendem o inglês e o francês; na Coréia do Sul, o inglês é prioritário, podendo optar por uma segunda língua :o alemão ou o francês.

- Para que serve um diretor?

Ele é a mola mestra da Escola. O critério de competência constituindo o axioma fundamental de seu engajamento, ele é um expert em gestão e conhecimento pedagógicos. Ativo, em formação constante, permanente, ele gera a Escola como um Diretor de alto nível administra uma empresa, sem misturar, porém, educação com empresa, mas levando à educação a ciência empresarial.

Palavra de ordem: a Escola deve ser vencedora de seus objetivos e projetos. Eis por que a valorização e formação do Diretor é uma obviedade para os países em que a educação obtém um real sucesso.

Na Inglaterra, Finlândia, Coréia do Sul e em alguns estados da América, ele controla suas equipes de trabalho, mas é ao mesmo tempo controlado por um comitê de sábios ao quais deve, se necessário prestar conta.

No caso inglês, o controle é bimestral, e a formação permanente. Nos países aqui citados, as metas são objetivas: realizá-las faz parte do que se espera da gestão do diretor. A discussão e o diálogo constituem, todavia, armas importantes para compreender mudanças estruturais dos países e, assim, poder melhor “julgar” o sucesso esperado ou as problemáticas ligadas as micropolíticas, por exemplo, na influência de uma “queda de produção” no empreendimento Escola.

- Há eleições para diretores?

- A seleção dos diretores, na maioria dos países europeus, não passa pelas eleições, sobremaneira os países-exemplos de sucesso integrado da educação na contemporaneidade. Salvo a América Latina e Central, em que perduram eleições para diretor, essa prática é algo de um passado longínquo. A eleição para diretor, em conseqüência de seus efeitos perversos e inoperância democrática faz hoje parte da história antiga. E a democracia ganhou!

Na Inglaterra, Finlândia e Coréia do Sul, além da escolha meritocrática, incluindo neste item sólida formação intelectual, filosófica, pedagógica e científica, há um ensino oferecido por cada país aos candidatos selecionados; em alguns casos, como na Coréia do Sul, pode chegar a 14 meses. A formação é dada por grandes autoridades reconhecidas no assunto, e o ensino da gestão, da economia da administração, é obrigatório para todos os candidatos.

A entrevista do professor Metz motiva a louvar o projeto do atual governo de inaugurar no Ceará o Centro de Formação de diretores.

“Os professores e a ‘baboseira”, com este título, a Veja de 29 fevereiro de 2008, provocou uma comoção no Brasil, instigando reações de diversas secretarias de educação. Proponho, a título de reflexão, o seguinte fragmento:

“É preciso melhorar a qualidade dos diretores. Não é possível que todos os professores possam dizer se ‘fulano é um péssimo diretor” e o Estado não consiga se apropriar desta informação, insistindo em escolhas equivocadas. O primeiro passo é o convencimento de todos que sem um bom diretor, mínimas chances de produzir uma educação de qualidade satisfatória. Mas se, na prática, os diretores são indicados pelo clientelismo dos governos locais ou, mediante concurso, estão politicamente compromissados de modo mais ou menos velado com estes mesmos governos, a escola desse diretor dificilmente terá a cara dos professores nem dos alunos que lá estão”.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A mística do ceticismo


Anatole France dizia o elogio do Ceticismo como sendo a escola heróica da tolerância, da coragem, da virilidade moral de resistir, etc, etc. Esses mesmos valores estão na boca de todos os devotos religiosos. Qualquer religião, qualquer doutrina política e filosófica apregoa possuir os mesmos títulos que Anatole reivindicava como privativos de Moliére, Montaigne, Rabelais, Renan…

Lembro-me de um jogador de Bilboquet, fazendo o elogio do seu brinquedo. O Bilboquet, como sabem, consta de uma bola com um furo e um bastãozinho preso à esfera por um cordel. O jogo consiste em fazer a bola descrever no ar uma curva calculada de tal forma que o orifício coincida com a ponta do bastãozinho que fica na mão do jogador.

O amador de Bilboquet afirmava que para ser-se um bom jogador era indispensável possuir-se calma, domínio aos nervos, rapidez de olhar, previsão, decisão mental de raciocínio, ação imediata, aproveitamento fulminante das oportunidades, bom humor. Essas virtudes indispensáveis para um jogador de Bilboquet, são igualmente indispensáveis para um Chefe de Estado. Anatole France não perderia o bon mot. É condição essencial para a suprema direção de um país o saber-se jogar Bilboquet.

A reação anticética parte apenas de um princípio. O ceticismo mas também a imobilidade espiritual. Não há exemplo de heroísmo de um cético. Montaigne era governador de Bordeaux e abandonou seus jurisdicionados quando a peste apareceu. Renan não queria que a França se preparasse por vingar-se da humilhação alemã de Sedan. Voltaire ficou com Frederico da Prússia contra a França e desejava ir morar até na Rússia. Seu patriotismo, como o de muita gente, estava na relação das graças recebidas. Moliére, fixador de costumes, foi um respeitoso incensador de Luis XIV, seu protegido e comensal Rabelais…

Não é pelo malabarismo verbal, o brilho prestigioso da frase, a cultura in partibus que o cético nos aparece simpático. É porque nele existe o acomodamento de todas as idéias no algodão macio e plástico de uma dialética lustrosa e fofa. Não vamos admirar Anatole pelo ceticismo. Admiro-o apesar do ceticismo peguento e mole que o acompanhou na vida e explica a crise de popularidade.

Et c’est en nous quo’on trouxe, acceptant nobre coeur. De I’Amour sans scandale, et du plaisir sens per…

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 06 de agosto de 1948

terça-feira, 17 de março de 2009

Modo de produção


Manoel Coelho Raposo
poetaraposo@yahoo.com.br
Escritor e Poeta

Todo sistema econômico/político baseado na divisão da sociedade entre classes antagônicas - opressores e oprimidos - está sujeito às leis objetivas das ciências sociais, isto é, que não dependem da vontade dos homens.

Portanto, qualquer Estado nestas condições possui um Modo de Produção especifico. O Modo de Produção é formado por Forças Produtivas e Relações de Produção. As Forças Produtivas são o elemento mais dinâmico do Modo de Produção: o homem, a natureza e os instrumentos de produção. Relações de Produção, são as relações econômicas que os homens contraem entre si no processo da produção. No capitalismo: Trabalho Assalariado e Capital.

O Sistema burguês-capitalista, surgiu nas entranhas do regime feudal, isto é, as Forças Produtivas burguesas avançaram deixando para trás, as Relações de Produção feudais, conduzindo as nações mais desenvolvidas promoverem violentas revoluções, principalmente na Europa com Revolução Francesa e nos Estados Unidos com a Guerra da Secessão.

Uma das categorias da dialética marxista é a Interdependência dos Fenômenos Naturais e Sociais. Analisemos, à luz da dialética marxista, as crises cíclicas que periodicamente assaltam o sistema burguês-capitalista, para irem se transformando em Crise Geral à medida que as Forças Produtivas burguesa são entravadas pelas caducas Relações de Produção Feudais.

1º) A concorrência entre os vários imperialismos acelerou rapidamente a introdução no mercado produtivo da informática, da robótica, enfim, de máquinas cada vez mais sofisticadas.

2º) A revolução técnica/eletrônica conduziu ao desemprego bilhões de pessoas em todo o mundo.

3º) O desemprego resulta no estrangulamento da indústria e do comércio que, por sua vez, alimenta a recessão por toda parte. Ao se instalar a recessão surge nova onda de desemprego.

4º) Está implantada a espiral: desemprego + recessão + desemprego + recessão ...

5º) A lógica do mercado capitalista é o lucro, jamais promover o bem-estar da população.

6º) O mercado de consumo é freado por falta de compradores, vítimas do desemprego. O dinheiro foge do mercado produtivo deslocando-se para o mercado financeiro, isto é, para a agiotagem internacinal. O mundo globaliza-se.

7º) À medida que o poder de compra da população se restringe, aumenta a inadimplência nos bancos, agravando as crises de ordem financeira.

8º) Para salvar os donos dos bancos da quebradeira, o Estado assume seus prejuízos com o dinheiro do tesouro nacional, isto é, com o dinheiro do povo. Concentrando-se o dinheiro nas mãos do Estado Burguês, a sociedade marcha para o avanço do CAPITALISMO DE ESTADO.

9º) Não é função do Estado burguês transformar o Capitalismo de Estado em Estado Socialista, conseqüentemente assume o papel de tentar deter o antagonismo entre as Relações de Produção e o avanço das Forças Produtivas. As Leis das Ciências Sociais como as Leis das Ciências Naturais são imutáveis. Exemplificamos: A Lei das Ciências Naturais (Lei da Gravidade)-e LEI DA CORRESPONDÊNCIA OBRIGATÓRIA ENTRE AS RELAÇÕES DE PRODUÇÃO E AS FORÇAS PRODUTIVAS (Lei Geral das Ciências Sociais). As duas leis citadas acima são imutáveis, conseqüentemente atuam independentemente da vontade dos homens. As Crises Cíclicas estabelecidas, ao atingirem a faze da Crise Geral do Capitalismo, a burguesia não encontrará solução dentro de seu sistema. Inicia-se o desespero da burguesia internacional e nacional na busca de analgésicos que apenas prolongará por mais algum tempo a sua morte.

10º) A sociedade enfrentará o dilema: SOCIALISMO OU GENOCÍDIO.
A Crise Financeira que presenciamos já se caracteriza como Crise Geral do Capitalismo.

Que fazer? O Sistema Burguês-Capitalista não encontrará solução para a crise que atualmente corrói as suas entranhas. A solução está na transformação revolucionária das Relações de Produção Sociais Burguesas. Do que foi dito, para salvarmos a humanidade da tragédia do genocídio só existe um caminho: A substituição do Capitalismo pelo Socialismo. A história não registrou nenhuma transformação de velhas Relações de Produção em novas, apelando para beijinhos, rock´n roll, tangos, carnavais, sorrisos alienados, etc.

Essa transformação que a humanidade está a exigir só será possível através da mobilização e da ação das massas populares sob a hegemonia revolucionária da aliança operária-camponesa. Refiro-me a aliança operária-camponesa às condições específicas do Brasil, pois as estratégias e as táticas obedecem as realidades objetivas e subjetivas de cada nação. Antes que a tragédia do genocídio geral nos atinja, vejo a necessidade dos povos do mundo em geral, e do Brasil em particular, de promoverem um grande debate que envolva a sociedade, particularmente operários, camponeses, estudantes, intelectuais, etc.

Nesse debate torna-se necessário aprofundarmos a causa fundamental que desarticulou a consciência socialista no mundo inteiro, concorrendo para o estado de perplexidade em que os povos foram envolvidos, principalmente trabalhadores, intelectuais, artistas, compositores, poetas etc. A causa fundamental da perplexidade a que nos referimos, reside nas concepções revisionistas que penetraram no P.C.U.S a partir de 1953, tendo como figura central o senhor Nikita Cruchiov que levou à queda a União Soviética. Não temo em afirmar ser o Revisionismo Marxista o maior inimigo das forças socialistas do mundo inteiro, daí porque defendo a necessidade de um grande debate internacional e nacional sobre suas raízes.

Se não nos conscientizarmos acerca do momento histórico em que vivemos presenciaremos num futuro bem próximo a pior tragédia que a humanidade terá de enfrentar: desemprego em massa em proporção jamais imaginada em escala internacional e nacional, e a morte de povos inteiros pela fome e pelas guerras cruéis patrocinadas pelo imperialismo contra as nações oprimidas da Ásia, África e América Latina e os próprios povos das nações imperialistas.

Portanto, já se configura o que dizíamos em 1989 em nosso ensaio PARA NÃO DIZEREM QUE EU ESTIVE AUSENTE: Socialismo ou Genocídio.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O princípio e o fim



Rodrigo C. Vargas

Na última quarta-feira em Recife, uma menina de apenas 9 anos interrompeu a gravidez de gêmeos. O fato choca não apenas por se tratar de uma criança que engravidou mas por quem a teria engravidado. O pai das crianças seria o padrasto que também teria estuprado a irmã mais velha da menina, de 14 anos. O crime só veio à tona depois que a criança começou a reclamar de dores. Já na unidade de saúde da cidade de Alagoinha, interior de Pernambuco, os médicos diagnosticaram a gravidez e a classificou como uma gestação de alto risco, pela idade e por ser de gêmeos. Só então a mãe da menina decidiu pelo aborto.

A repercussão foi ainda maior pela reação da Igreja Católica. O arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho, anunciou publicamente a excomunhão da mãe e da equipe médica envolvida no procedimento. Sobre o padrasto acusado de estupro, o arcebispo disse que não cabe excomunhão e ainda tratou de julgar o que segundo ele seria pior: "Esse padrasto cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente." O chefe do departamento do Conselho Pontifício para a Família, do Vaticano, Gianfranco Grieco disse que a decisão de Dom Cardoso foi correta.

É difícil entender a posição da Igreja em casos como esse. Apesar de respeitar por se tratar de um princípio não posso deixar de destacar aqui a sensação que tenho de sustentação inquisitória permanente. Será que a Igreja não reparou que aquela mãe já está condenada a um drama familiar? Será que o arcebispo ou o Vaticano não fazem idéia de como essa família será recebida na cidade onde moram (quem vive no interior do nordeste sabe bem o que quero dizer)? Outra fator interessante é a posição da Igreja quando o assunto é a preservação da vida. Se no caso brasileiro a igreja decidiu por excomungar os médicos e a mãe da menina estuprada, por que não tomou a mesma atitude com o pai que entrou com o pedido na justiça italiana e o juíz que autorizou a suspensão da alimentação de Eluana Englaro, de 37 anos, que vivia em coma irreversível há 17?

O que aconteceu no interior de Pernambuco merece uma atenção maior, inclusive da Igreja que não pode se omitir quando é a instituição que mais somou para a formação do espírito da sociedade brasileira. O assunto não pode ser tratado por motivação ideologica, ou muito menos por ordem de fé. Qual seria o futuro dessa garota mesmo sem essa perseguição eclesiástica? Por decisão do Ministério Público a criança não vai voltar para a cidade onde nasceu, a 230 km da capital. Ela permanecerá no Recife sob proteção. De acordo com a polícia, a menina sofria violência sexual desde os 6 anos.

O Presidente Lula comentou que como cristão e como católico lamentava profundamente o conservadorismo de um bispo da Igreja Católica (o pronunciamento do presidente foi antes do posicionamento público de membros do Vaticano a favor da excomunhão). E que nesse caso a medicina estaria mais correta que a Igreja.

Quanto mais se vende, mais se cria

Adelitta Monteiro Nunes
ad.monteiro@yahoo.com.br
Graduanda em Estilismo e Moda pela Universidade Federal do Ceará

Daqueles que visualizam apenas o mundo mercadológico da moda e sua alta dosagem de glamour, fetiches e imposições estéticas, talvez fuja uma fantástica discussão a ser levantada: qual a relação existente entre arte e moda? No meio artístico e intelectual uma enorme polêmica é gerada por essa pergunta.

Definir arte é complexo. As opiniões são diversas. Algo crucial na relação da arte com a moda é: até que ponto a arte pode ser comercial? O interesse mercadológico rompe o invólucro da arte, corrompendo-a?A arte de Romero Brito, feita para vender refrigerantes em latinha deixou de ser arte ao sair do universo das telas? As mesmas perguntas possuem, sobre o tema moda, o caimento perfeito da alfaiataria francesa. Acreditar que a moda se resume à fabricação de roupas, sapatos ou colares é um reducionismo lamentável. Crer que tendências de moda são lançadas puramente por estética segue a mesma ótica limitada. As roupas que usamos estão repletas de mensagens, se não fosse assim, não teríamos preferências em relação ao que vestimos. Isso nos mostra que cada peça de indumentária que está sobre o nosso corpo reflete a construção sócio-cultural pela qual passamos ao longo de nossas vidas. A arte é um ótimo termômetro de transformações sociais. Ela possui a peculiar característica de perceber antes as mudanças que estão prestes a acontecer no comportamento da nossa sociedade ao questionar padrões estabelecidos, ao criticar tradições, ao chocar as pessoas com atitudes inovadoras. Vestir arte não é novidade: Na década de 80, Leda Catunda e Leonilson utilizaram códigos da indumentária para compor seus objetos. Vinte anos antes tivemos o lendário Hélio Oiticica. Roupa pode ser arte sim!

O que dizer da mini-saia? Sem entrar no mérito de quem a inventou, se o francês Courréges ou a inglesa Mary Quant, é óbvio que o que levou à criação da mini-saia foi o desejo de violar a ordem social, ela foi um protesto a apologia ao pudor feminino vigente na época. Não é possível desconsiderar os sentimentos geradores da criação de uma peça como a mini-saia e as conseqüências de sua criação, seu lançamento é repleto de significados sociais, culturais, políticos e artísticos, ou seja, trata-se de uma verdadeira peça de arte ousada e transgressora. Porém, o sistema capitalista apropriou-se da criação artística do ou da estilista e atualmente milhares de mini-saias são produzidas por hora com uma única finalidade: gerar lucro. A partir daí, onde fica o conteúdo artístico de tais peças? Talvez no mesmo lugar onde são armazenadas as latinhas de refrigerante decoradas por Romero Brito.

As mega indústrias do meio “fashion” que proporcionam o espetáculo dos grandes artistas nacionais e internacionais do mundo da moda, têm como principal objetivo vender. Elas são cruéis, poluem o meio ambiente, ressaltam desigualdades sociais e causam sofrimento quando impõem padrões de beleza inatingíveis. São mecenas dos atuais artistas da moda. A arte alimentada por esse tipo de relação é arte? Nos anos 60, Lygia Clark e Hélio Oiticica criavam obras artísticas que deveria ser vestidas. Hoje, grandes estilistas criam peças de roupa menos para influenciar pensamentos que para fortalecer mercados. A diferença entre as duas situações é gritante. Talvez se trate de dois modos diferentes de produzir moda-arte. Talvez não.