terça-feira, 25 de agosto de 2009

Getúlio e a sombra de um estado gigante

Rodrigo C. Vargas

A I Grande Guerra resultou numa Europa cheia de cadáveres, ruínas e costurada por convulsões radicais como a revolução russa, o nascimento do fascismo e a crise geral das economias liberais. A fragilidade exposta do Velho Continente – colonizador, catequizador e regulador - permitiu aos países dependentes até aquele momento estruturar um projeto autonomista de forte caráter nacional-estadista como o peronismo na Argentina e o Estado Novo brasileiro de Getúlio Vargas.

O varguismo no Brasil buscava uma identidade nacional consciente de valores coletivos e para isso contava com a insegurança e instabilidade externa que ajudavam na aceleração dos sentimentos e sua transformação em paixão. A emergência simbólica do nós, desfazia o eu em busca da construção da identidade e identificação do outro. Esse apontamento era o princípio de uma estratégia bem sucedida.

No livro Getúlio para crianças, o presidente era descrito como alguém que reconstruía o país. Em qualquer dos textos, não importando para quem estivesse se dirigindo, Getúlio tinha os traços de sua personalidade de líder evidenciados. Vários livros traziam essas mensagens, como O Brasil é bom que tratava de incentivar o sensação de pertencimento a uma terra grandiosa e farta, orgulho de seus filhos, reforçando o sentimento de agregação e de identidade pela associação do Brasil com a família. O “pai dos pobres” era mais uma faceta bem construída por Getúlio, sob a condição de esconder uma base popular vista como objeto sem autonomia, e uma sociedade marcada por representações de passividade e receptividade, ou seja, tudo o que um líder carismático precisa.

O Estado Novo e sua propaganda formaram um novo espírito brasileiro impregnado de informação mobilizada nos limites daquele Estado, necessitado de um plano para manter sua extensão territorial baseado não na exploração de suas características reais, mas ilusórias.

A forma de lidar com a competitividade é a prova da esterilização das massas resultante desse processo. Essa ação deixou de ser produto da elevação do homem diante de sua comunidade e sua evolução natural para preencher possíveis espaços vazios, sob uma importância inútil do ponto de vista pedagógico. Para o brasileiro não adianta competir, só a vitória importa. O primeiro lugar no podium é sublime e dispensa os outros colocados. A natureza dessa ação segue uma regra básica: a não regra. Para seguí-la, basta não questionar o vencedor. Não é necessário saber como chegou lá, o caminho percorrido ou se houve merecimento. Tudo parte de uma força maior que impulsiona e dita: é preciso vencer a qualquer custo. O Eco desse desejo está em todos. O Legislativo, Executivo e Judiciário acompanham esse movimento, e para perceber seus atores basta compreender a história dos líderes de cada um desses poderes.

Somos um país de megalomaníacos. Os dois templos da paixão nacional evocam isso: o Morumbi - que até bem pouco tempo era o maior estádio de futebol particular do mundo e o Maracanã - que também perdeu o posto de maior estádio de futebol público do mundo. E o que dizer da Amazônia, do carnaval, da mulher brasileira, da Copa do Mundo, do pré-sal? Referências contraditórias de um país desconstruído por coronéis, onde a educação política ameaça as costuras frágeis e de vidas curtas de gerações beneficiadas por esse tipo de relação afetiva, e de mistura entre o público e o privado. Migalhas que fazem do povo seres gigantes em ambientes doceis. Viva Getúlio! Viva o Brasil esquizofrênico de Lula! Um país que para grande parte dos brasileiros, se Deus é um deles de fato, esqueceu onde nasceu.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O poeta da estranheza

Pedro Maciel
pedro_maciel@uol.com.br
Escritor

“o pauloleminski/ é um cachorro louco/ que deve ser morto/ a pau a pedra/ a fogo a pique/ senão é bem capaz/ o fdp/ de fazer chover/ em nosso piquenique”. Esse texto do poeta curitibano traduz um pouco a vida que levou Leminski (1945-1989). Bebeu em todas as fontes. Escreveu ensaios, letras de música, traduziu Bashô e Homero, exerceu o jornalismo, viveu nos tempos das liberações. Polêmico e inovador. Um autor que se perguntava para que servem os poetas?

Leminski e Ana Cristina César são os dois mais importantes poetas da geração de 70. Geração marginal. Aliás, a maioria dos poetas da geração 70, descobertos pela ensaísta Heloísa Buarque de Hollanda, não é de bons artesãos, não domina o instrumento e não sabe do que se trata o passado e por isso não levam adiante “o que estava jóia”. São apenas ignorantes, pensava Leminski.

No artigo “Tudo, de novo”, Folha de São Paulo (março de 1983), o poeta anota que “uma das grandes novidades é que o poema ficou portátil. Leve de carregar. Grafitável, numa palavra. Nisso, puxou por vários dos seus avós: Blaise Cendrars, Oswald de Andrade, antropólogos em geral. Ou aquele Drummond angloautomobilístico dos anos 30: Stop./ A vida parou. Ou foi o automóvel?”.

Leminski era como o Fausto de Goethe. Preferiu viver como um estranho. O ex-estranho, Editora Iluminuras, é o título da última coletânea de poemas inéditos. Ainda falta publicar contos, ensaios e uma novela. O poeta multimídia era um estranho em sua própria terra. Um estrangeiro. Um homem do mundo morando no interior do Brasil. No poema o ex-estranho um breve auto-retrato: “passageiro solitário/ o coração como alvo/ sempre o mesmo, ora vário/ aponta a seta, Sagitário/ para o centro da galáxia.”

Leminski esteve no mundo em busca de aventura. O que importava era ter a vida na mão. Saber de cor e salteado os truques pra se levar a vida. Essa vida tão falada e banal. Mas Leminski queria a vida também escrita. Reescritura de vida. Reescreveu as lendas e ecos dos emigrantes poloneses do sul brasileiro. Incorporou a voz sofrida e cantada do povo negro da África. Desta miscigenação nasceu a poesia de Paulo Leminski. Poesia que a gente encontra em toda parte.

Talvez o livro mais impressionante de Leminski seja o Catatau. Texto fragmentado, tendente ao barroco. Fala a língua de James Joyce e Guimarães Rosa. É um rosário de preces contemporâneas do francês René Descartes. O poeta imagina a vinda do filósofo ao Brasil durante o período das invasões holandesas. No livro o filósofo é chamado de Renatus Cartesius e mora na Recife do século XVII. O livro não tem roteiro ou enredo. É uma fábula exemplar. Um livro sem estilo.

Leminski à maneira borgiana recriou muitas fábulas. Reescreveu o mundo que poderia ter sido e não foi. Reinventou o texto para contextualizar, contestar, protestar. O texto de Leminski é quase sempre um protesto. Um pré-texto. Texto que mais parece uma “proesia” sonora, segundo o poeta Carlos Ávila, “cheia de invenções léxicas trabalhadas artesanalmente no melhor sentido joyceano-macarrônico, procurando dar continuidade às conquistas de Oswald, Rosa e Haroldo de Campos, indo muito além dos contistas e romancistas em cena atualmente no Brasil”.

Leminski era um poeta que viveu praticamente à margem em nossos tempos pós-modernos. Poeta de um rigor sintético admirável e ao mesmo tempo caprichoso e relaxado. O poeta que mais se aproxima de Torquato Neto. O Nosferatu. Poeta popular, pop, para tocar no rádio. Leminski homenageou Torquato num belo poema: “Coroas para Torquato/ um dia as fórmulas fracassam/ a atração dos corpos cessou/ as almas não combinam/ esferas se rebelam contra a lei das superfícies/ quadrados se abrem/ dos eixos/ sai a perfeição das coisas feitas nas coxas/ abaixo o senso de proporções/ pertenço ao número/ dos que viveram uma época excessiva”.

Romântico e utópico: ”Vai vir um dia/ quando tudo o que eu diga/ seja poesia”. Leminski era também um poeta com consciência intersemiótica. Vivia com a cabeça ligada no planeta e os pés plantados na terra de nascimento: “Um dia/ a gente ia ser homero/ a obra nada menos que uma iliada/ depois/ a barra pesando/ dava pra ser aí um rimbaud/ um ungaretti um fernando pessoa qualquer/ um lorca um éluard um ginsberg/ por fim/ acabamos o pequeno poeta de província/ que sempre fomos/ por trás de tantas máscaras/ que o tempo tratou como as flores”.

Poemas do livro “O ex-estranho”, Paulo Leminiski

INVERNÁCULO

(3)

Esta língua não é minha,
Qualquer um percebe.
Quando o sentido caminha,
A palavra permanece.
Quem sabe mal digo mentiras,
Vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longíngua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.

Já disse de nós.
Já disse de mim.
Já disse do mundo.
Já disse agora,
Eu que já disse nunca.
Todo mundo sabe,
eu já disse muito.

Tenho a impressão
que já disse tudo.
E tudo já foi tão de repente.

desastre de uma idéia
só o durante dura
aquilo que o dia adianta adia

estranhas formas assume a vida
quando eu como tudo que me convida
e coisas alguma me sacia

formas estranhas assume a fome
quando o dia é desordem,
e meu sonho dorme
fome da china fome da índia
fome que ainda não tomou cor
essa fúria que quer
seja lá o que flor

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RIMO E RIMOS

Passarinho parnasiano,
nunca rimo tanto como faz.
Rimo logo ando com quando,
mirando menos com mais.
Rimo, rimo, miras, rimos,
como se todos rimássemos,
como se todos nós ríssemos,
se amar fosse fácil.

Perguntaram por que rimo tanto,
responder que rima é coisa rara.
O raro, rarefeitamente, pára,
como pára, sem raiva,qualquer canto.
Rimar é parar, parar para ver e escutar
Remexer lá no fundo do búzio
aquele murmúrio inconcluso,
Pompéia, idéia, Vesúvio,
o mar que só fala do mar.

Vida, coisa para ser dita,
como é dita este fado que me mata.
Mal o digo e já meu dito se conflita
com toda a cisma que, maldita, me maltrata.

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leite, leitura,
letras, literatura,
tudo o que passa,
tudo o que dura
tudo o que duramente passa
tudo o que passageiramente dura
tudo, tudo, tudo,
não passa de caricatura
de você, minha amargura
de ver que viver não tem cura

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Trevas.
Que mais pode ler
um poeta que se preza?

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depois de muito meditar
resolvi editar
tudo o que o coração
me ditar

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Poemas do livro “Caprichos & Relaxos”, Paulo Leminski

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro do meu centro
este poema me olha

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parar de escrever
bilhetes de felicitações
como seu eu fosse camões
e as ilíadas dos meus dias
fossem lusíadas,
rosas, vieiras, sermões

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Poemas do livro “Polonaises”, Paulo Leminiski

um poema
que não se entende
é digno de nota

a dignidade suprema
de um navio
perdendo a rota

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para a liberdade e luta

me enterrem com os trotskistas
na cova comum dos idealistas
onde jazem aqueles
que o poder não corrompeu

me enterrem com meu coração
na beira do rio
onde o joelho ferido
tocou a pedra da paixão

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lembrem de mim
como um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça

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Poemas do livro “Não fosse isso e era menos não fosse tanto e era quase”, Paulo Leminski

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

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entro e saio
dentro
é só ensaio

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não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino

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confira

tudo que respira
conspira

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parem
eu confesso
sou poeta

cada manhã que nasce
me nasce
uma rosa na face

parem
eu confesso
sou poeta

só meu amor é meu deus

eu sou o seu profeta

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Poemas do livro “Ideolágrimas”, Paulo Leminski

na rua
sem resistir
me chamam
torno a existir

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esquentar numa fogueira
o frio que sinto
ao contemplar estrelas?

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cabelos que me caem
em cada um
mil anos de hailkai

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Poemas do livro “SOL-TE”, Paulo Leminski

nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima

algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima

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se
nem
for
terra


se
trans
for
mar


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Dois poemas publicados em jornais

M, DE MEMÓRIA

Os livros sabem de cor
Milhares de poemas.
Que memória!
Lembrar, assim, vale a pena.

Vale a pena o desperdício,
Ulisses voltou de Tróia,
assim como Dante disse,
o céu não vale uma história.

Um dia, o diabo veio
seduzir um doutor Fausto.
Byron era verdadeiro.
Fernando, pessoa, era falso.

Mallarmé era tão pálido,
mais parecia uma página.
Rimbaud se mandou pra África,
Hemingway de miragens.

Os livros sabem de tudo.
Já sabem deste dilema.
Só não sabem que, no fundo,
ler não passa de uma lenda.

PLENA PAUSA

Lugar onde se faz
o que já foi feito,
branco da página,
soma de todos os textos,
foi-se o tempo
quando, escrevendo,
era preciso
uma folha isenta.

Nenhuma página
jamais foi limpa.
Mesmo a mais Saara,
ártica,significa.
Nunca houve isso,
uma página em branco.
No fundo, todos gritam,
pálidas de tanto.

____________________________

Carta de Paulo Leminski para Régis Bonvicino; do livro "Uma carta uma brasa através” (1976-1981)

out / 77

EPÍSTOLA A RÉGIS

Paulo, pequeno irmão,
da pequena cidade de Curitiba,
ilha de certeza
cercada de pequenos problemas por todos os lados,
a Régis, grande irmão,
na grande cidade de São Paulo,
cercado por um grande problema

....................................

pare de se lamentar
como uma velha carpideira siciliana

esse teu medo de ter secado tua fonte de poesia
é apenas para nos deixar preocupados

eu já te disse
PARA SER POETA
TEM QUE SER MAIS QUE POETA

v. tem que ser um monte de outras coisas mais
senão daonde?
v. vai acabar fazendo literatura de literatura
v. tem que esculhambar mais
pintar por fora das molduras
EXISTENCIALMENTE

esculhambe-se vire-se altere dê alteração
considere a possibilidade de ir pro Japão
rejeite o projeto de felicidade
q a sociedade te propõe

eu sei
você é paulista
mas ser paulista não é tudo

rompa

fique mais irregular

seja mais inconveniente

é a linguagem que está a serviço da vida

não a vida a serviço da linguagem

a linguagem vem
sai na urina
acontece

fazer poemas não é a coisa mais importante
mas para quem faz é
e tem que ser assim

o signo é nosso destino
nossa desgraça e nossa glória

uma aranha sempre sabe
que depois desta teia
virá outra teia e outra teia e outra

uma aranha não duvida

v. vê
não há pressa: Mallarmé deixou meiadúzia de coisas
augusto idem
não se importe com q a freqüência/ a fecundidade
/a abundância
uma década pode esperar um bom poema

Anexo: Leminski fala sobre o poeta como produtor de conteúdo


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domingo, 23 de agosto de 2009

Palco de Obsessões




Ricardo Soares de Carvalho
rsoarescg@uol.com.br
Jornalista e escritor

Poucos autores brasileiros tiveram, como Nelson Rodrigues, uma visão cuja genuinidade é o aspecto trágico da existência. Ao longo de dezessete peças teatrais, nove romances, seis volumes de contos e crônicas e ainda várias centenas de artigos jornalísticos, o leitor incursiona pela atmosfera inventiva de quem enxergava o mundo como um lugar irremediavelmente triste. Enxergando-o assim, porém, utilizou lentes reguladas pelos fenômenos mítico e poético.

Referidos fenômenos prosseguem desafiando os desbravadores da mundividência rodrigueana, urdida na tristeza. Mas o binômio poético-mítico em Nelson Rodrigues afigura-se sobremodo desafiador quando se lembra: o convencional, na tragédia, consiste em as pessoas se oporem a seus destinos, que as destroem; paradoxalmente, ela, tragédia, contém mais otimismo do que a comédia, na qual aludidas pessoas nunca encetam contato com os desígnios universais. Seja qual for a hipótese, cabe evocar Marcel Duchamps na célebre assertiva de que “o humor é a delicadeza do desespero”.

Os livros de Nelson Falcão Rodrigues são repletos de figuras (falsos beatos, grã-finos devassos, entes incestuosos, solteironas reprimidas) atormentadas pelo sexo, que funciona associado à culpa e à morte, aviltando os indivíduos; dentre estes, são escassos os que encontram no amor uma possibilidade de redenção para seus desesperos. Em tal contexto, é percorrendo as 555 páginas de “Asfalto Selvagem” (edição da Companhia das Letras, 1995), que fica melhor perceptível o ângulo captado pela ótica peculiar de Nelson Rodrigues, onde se somam os recursos evidentes da estratégia irônica, do acentuado ceticismo e do clima libidinoso. Porque, jungindo coerentemente ditos recursos, retratou a farsa daquela moral classe-média por ele classificada em tom cáustico: puritana nos julgamentos, desequilibrada nos lares-alcovas e usuária da sexualidade como se estivesse lidando com o detalhe mal-resolvido das sociedades ocidentais. Tratando-se de escritor que considerava a ficção brasileira “cega para o cio nacional”, a prosa contundente de “Asfalto Selvagem” é uma ruptura nessa ficção.

O teatro moderno começou de fato, no Brasil, com a estréia de “Vestido de Noiva”: a ação desenvolve-se simultaneamente em três planos, misturando presente, passado e fantasias intimistas. Não sendo fortuito que, na derradeira peça, “A Serpente”, Nelson Rodrigues tenha abordado situação parecida à de “Vestido de Noiva” num formato mais complexo; pois imobilizara o transcurso dos anos em sua dramaturgia, e as antigas (reiteradas e compactadas) obsessões estavam presentes com a inexorabilidade das tragédias deixadas pelos gregos. Por conseqüência, o que se constata em “A Serpente” é uma fragmentada estrutura armada nas cenas esparsas, com o foco do tempo muito nítido. Verifica-se, ademais, a comprovação do vasto domínio de Nelson Rodrigues sobre a técnica teatral, revelando o fabulista espantoso pela originalidade e pelo despudor no uso de construções gramaticais e de palavras inusitadas (é fascinante seu afã de lexicalizar metáforas ou invocações repetitivas). Motivos sobejos para vê-lo como explorador de imaginários neuróticos, que pretendia típicos da classe média suburbana.

A censura oficial manteve “Álbum de Família” proibida de encenação durante vinte e dois anos; contudo, Nelson Rodrigues também foi censurado politicamente, tanto pela direita quanto pela esquerda: a primeira jamais lhe perdoou a crueza temática e a freqüente galeria de protagonistas escandalosos, ao passo que a segunda odiava a ironia ácida com a qual vergastava os modismos adotados pelo esquerdismo. Impiedoso polemista (as frases que esgrimiu para polemizar foram “os dogmas que tiram o véu do óbvio”, no dizer magistral de José Lino Grünewald), as discussões em torno de si impediram avaliações justas dos escritos que teceu na íntegra de incontestáveis méritos. O que parece descabido quando se pondera que as idéias políticas perdem validade, todavia a condição existencial é permanente. Eis indício seguro de haver critérios nas artes que suplantam os momentos e as ideologias: Sófocles e Shakespeare (que é uma espécie de guia para as possibilidades humanas) persistirão sempre atuais. Observe-se que Macbeth não é imortal por ser uma criatura estranha, e sim porque sua proximidade em absoluto faria bem.

Nessa linha conceptiva, as fases críticas que as expressões do espírito normalmente atravessam não se confundem com o caráter perecível dos posicionamentos ideológicos. Mencionadas fases de crise representam hiatos como o ocorrido com a pintura, quando Mondrian, Klee e Kandinski esgotaram o não-figurativismo; com a escultura, cujo colapso se verificou após os contributos de Brancusi e Giacometti; com a literatura, onde o impasse foi subseqüente ao nouveau roman; e com o teatro, desde que a supressão da linguagem estrutural instaurou paralisante encruzilhada na rota das experiências dramáticas: a diferença, no atinente a Nelson Rodrigues, é que sua criatividade abriu atalhos desviantes dos bloqueios no percurso paralisado. Sem embargo, Ortega y Gasset conceituou o homem de gênio como o que tem a capacidade de inventar alternativas para seus pendores precípuos.

A obra de Nelson Rodrigues é virulenta, explosiva e não raro desagradável (até seus exuberantes comentários sobre futebol avizinham-se do sentido de quem lamenta casos inopinados). Ao examinar referida obra com minúcia, Otto Lara Rezende desvendou traços revolucionários num escritor que proclamava seu reacionarismo. A conclusão, irretorquível, atesta que o mestre de “Senhora dos Afogados” era personalidade marcada pelas controversões. Por isso, Décio de Almeida Prado preceitua sejam-lhe filtrados os méritos, para destes eliminar a manipulação de melodramas: do procedimento emerge, consabido, majestoso legado dramatúrgico.

Anexo: Entrevista com Otto Lara Rezende.


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quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Cora Coralina

Escritor e jornalista

Grande expressão literária do século passado em Goiás, reconhecida tardiamente, embora desde a sua estréia em um almanaque provinciano tenha inspirado a admiração de contemporâneos mais antenados com o fenômeno literário, Cora Coralina continua vivíssima em tudo aquilo que escreveu e produziu. Em tudo impôs a marca do seu talento.

Tendo vivido numa pobreza imensa, Cora Coralina atribuiu vida eterna a uma gente anônima, marginalizada e sem história, como o agricultor que vive sujeito à vontade do patrão e aos caprichos do tempo; como a mulher do povo, desbocada, proletária e parideira; como a lavadeira do rio Vermelho com o seu cheiro gostoso de água e sabão; como a cabocla velha de mau-olhado, acocorada ao pé do borralho, olhando o fogo; como a mulher cozinheira em sua cozinha bem cacheada de picumã, pisando alho e sal...

Como o próprio Carmo Bernardes, extraordinário escritor telúrico com quem passei uma das horas mais intensas de toda a minha vida, Cora Coralina forjou com sensibilidade e paciência um permanente diálogo com o seu povo e o elevou, através dos seus impressivos escritos, à mais alta potência.

Uma tarde, no terraço da sua casa do Setor Pedro Ludovico, em Goiânia, Carmo Bernardes me disse, sem esconder a satisfação, que Cora havia “bagunçado” a literatura goiana, incluindo em seus escritos os “pobres de Deus”, uma gente estigmatizada pela penúria e a privação. Não seria exagerado dizer que Goiás vive e respira em seus versos repletos de sortilégios baseados na tradição e em um imaginário riquíssimo.

Embora tenha se exprimido majoritariamente em versos, Cora Coralina não gostava de ser incluída entre as poetisas. Talvez temesse ser confundida com aquelas mulheres literatas que lançam suas efusões íntimas sobre o papel, sem nenhum outro compromisso com a estética, a não ser o de promover o sacrifício de árvores. Certamente Cora temia ser confundida com elas e em conseqüência dessa promiscuidade, desvalorizada em sua essência. Preferia explicar o seu livro à sua maneira: “Versos... Não/ Poesia... Não./ Um modo diferente de contar velhas estórias”...

No fim da vida, cercada de glória, Cora Coralina fazia doces para sobreviver. Porém, mais do que a qualquer político ou administrador, deve-lhe Goiás páginas imortais e aquele brilho que não é negociável e que distingue o verdadeiro artista, que não depende dos favores de ninguém e só conta, de fato, com o tempo que redimensiona tudo. Por isso é que se diz que todo grande artista é póstumo.

domingo, 16 de agosto de 2009

A volta de Dorival Caymmi à Bahia



Eduardo Calazans
dudacalazans@gmail.com
Dramaturgo e escritor, membro da sociedade brasileira de autores teatrais

A Bahia amanheceu em festa e a notícia se espalhou feito brisa nos coqueirais, estava de volta à cidade, o filho querido, aquele que tão bem cantou os costumes, a religiosidade, o folclore, a cultura e a levada da sua terra e da sua gente, o amigo e compadre de longas datas, meio-irmão, quase mabaço, unha e carne de Seo Valdivino do Amor Divino. Salve o Obá de Xangô! Kaô kabiessi ! Obá Onikoyi! Axé, babá!

Há muito não avistava o camarado, precisava encontrá-lo, prosear, botar as conversas em dia, jogar conversa fora. Ficar assim à tardinha, mamparreando, mamparreando, no ramerrão da praia. Proseando, proseando, refestelados na areia da praia espiando até onde os zóio não consegue alcançar... E depois com o sol se pondo, cantarolar uma daquelas melodias tão lindas, de uma lindeza que não tinha mais tamanho e que só ele sabia cantar. E quando a noitinha de mansinho chegasse, contar estrelas, assar um peixe na folha da bananeira e comer, acompanhado de umas talagadas de uma pinga porreta do Recôncavo. E assim, assim, contar culhudas até as primas horas da noite. Depois de depois, puxar um ronco que ninguém é de ferro...

Na primeira estrela da manhã, sair pro mar, jogar uma redezinha e esperar os bichos pular. Cada bitelo! Ói, o tamanho do bicho, cada lapa! Ói, o peso. Vixe Maria mãe de Deus! Odoyá, minha mãe! Pescar um peixe bom e trazer...

Há muito não havia pesca, nem de farracho, arrastão então, nada, é nem uma, é de cortar o coração! Saveiros então, nem se fala, se picaram-se todos. Os peixes? Ah! Os peixes escafederam-se, sumiram-se tudo, e os amigos tombém. Há muito não avistava umzinho sequer, nem peixe, nem camarado, nada de nada. É de moquequiar o coração!

Andando pela praia de Caixa-Pregos e as lembranças dançando em volta da cabeça dele que nem pititingas prateadas a saltar na rede, que nem xaréu brilhando em noite de lua cheia. Voavam. Debatiam-se, querendo escapulir. Clareando, clareando, com pouca, anuviano, anuviano, para depois aclarear de novo, e aquele sorriso aberto, bem grande, de Dorival no horizonte tomando conta de toda a imensidão do mar.

Carecia avistar o camarado, tirar dois dedos de prosa. E se ele cismasse de visitar os lugares onde passou os melhores dias da vida dele? E se ele encasquetasse de ver a velha Bahia? Os lugares onde foi feliz? Itapuã? A Pedra da Sereia? A Lagoa? Diz o povo que é melhor nunca voltar ao lugar onde se foi feliz.

Temia pelo amigo de versos e prosas. Ele, Valdivino do Amor Divino, já estava acostumado com as mudanças da terrinha, resignado, que nem peixe no anzol. Aquilo lá, estava virando uma moqueca de arraia, Afe, Maria! É de escamar o coração! Por isso agora ele estava cada vez mais distante, se picara-se para Caixa-Pregos, cada vez mais longe, vida de pobre é assim mesmo, os ricos bota os pobres pra correr pra cada vez mais longe, fazer o quê? Paciência! Aí só Deus, só Deus! O compadre, não, há muito não vinha à Bahia, podia levar um susto e babau, Vixe Maria! Nossa Senhora! Misericórdia! Desanuveia esses encasquetamentos homem de Deus! Não e não. Nada de nada, ia ser uma festa, com fé em Deus e nos Orixás, Atotô meu pai! Odoyá, minha mãe!

Ômi deixa de anuviamento, se avexe não, a alegria do reencrontro apaga as tristeza da saudade. Quem sabe com a chegança dele à Bahia, com fé em Deus e nos Orixás, os governantes não tomassem vergonha na cara e fizessem alguma coisa que prestasse. A justiça de Deus tarda, mas não faia!

Será que ele ia estranhar muito? Nossa Senhora, chega dá uma fisgada no peito, será que ele, ainda, ia achar a terra dele o sonho mais lindo que há?

Logo na chegada, ele ia sentir alguma coisa estranha, qualquer coisa errada, será que eles tinham largado a proa, rasgado a vela, quebrado o leme, perdido o prumo, ficado à deriva e saltado em outras terras, em outras paragens? O nome do Aeroporto nera mais Dois de Julho? Será que ele vinha de avião, de saveiro ou de jangada? Homem se assunta, tá atoleimado, d’adonde ele vem é de longe, qual jangada ou saveiro o quê, só se for de Ita, mas Ita num tem mais, se assunta, ele vem é de avião mermo.

As mocinhas risonhas da chegada pareceriam baianas, pareceriam estar vestidas de baianas, mas não eram baianas, não. E Dorival cantarolando: “Um rosário de ouro/ e uma bolota assim...”. Umas vestes estranhas, parecendo bumba-meu-boi. Cadê os balangandãs, as miçangas, os dengos e os requebros faceiros? E ele suspirando baixinho: “Só vai no Bonfim quem tem...” Sorriria sem graça para as meninas e pediria ao amigo que o acompanhasse até o automóvel.

Alegrar-se-ia com o bambuzal do aeroporto, ainda estava lá como havia deixado. Lembrar-se-ia dos coqueiros de Itapuã e cantarolando solicitaria ao chofer que tocasse pela orla. O moço que guiava, todo solícito, querendo ir pela Avenida Paralela, era menos engarrafada e o trafego andava mais rápido, não, não, insistiria cantando mais alto com a sua voz de baixo profundo: “Coqueiro de Itapuã/ Coqueiro... e emendaria com “Abaeté é uma Lagoa escura/ arrodiada de areia branca.../ Ô de areia branca/...”, depois, sorriria com dengo e com toda paciência e serenidade que Deus lhe deu, olharia pela janela a movimentação frenética dos automóveis sobre o viaduto, dali pa’pouco chegariam a Itapuã.

Logo, logo mataria as saudades de Itapuã, e com água na boca alembrar-se-ia do acarajé, do abará, do acaçá, do vatapá, da passarinha, do bolinho de estudante (mais conhecido como punheta), da cocada-puxa da negra baiana com o tabuleiro de iguarias na cabeça.

O automóvel no engarrafamento e o chofer desavisado dizendo em alto e bom som: “Já estamos n’Itapuã”, e Dorival com a voz embargada, consertando ; “Tá chegando, tá chegando...”, não querendo crer no que estava vendo ; lojas e mais lojas, outdoors, propagandas e mais propagandas, borracharias, oficinas, lojas de auto peças, motéis, e muito cacete armado feito à migué, a culhão como se diz aqui na Bahia. É de moquequiar o coração baiano! “Mas tudo isso aqui era mato, areal e restinga...” Sussurraria sorrindo e resignado o poeta, mais uma vez pensaria ter errado de cidade, enquanto o moço que guiava reclamava de alguma coisa. Será que ele havia errado o itinerário? Não, era ali mesmo, a Bahia cresceu além da conta, principalmente o lado pobre e miserável. Natural, as cidades brasileiras estavam inchando que nem baiacu no anzol, natural... Natural, mas dói...

Estavam chegando, estavam chegando, após uma hora de engarrafamento chegariam ao Largo da Sereia, avistariam a estátua do poeta Vinícius de Morais, sem o copo e sem os óculos, haviam roubado. Dorival respiraria fundo, sentiria a brisa tantas vezes desfrutada, não era o mesmo ar puro de outrora, estava diferente, nenhum saveiro ou jangada a singrar o mar de Itapuã, apenas cadeiras plásticas ao longo da areia, “a praia virou bar?”, murmuraria Dorival, sem graça. Ao lado, num quiosque improvisado, um samba esquisito com uma loura oxigenada no meio da roda, mãos no joelho a sacudir freneticamente o seu carismático balaio. “Vamos na Lagoa do Abaeté,...”, lhe diria Valdivino, fugindo do constrangimento que nem siri no seco.

Tocariam para lá. No caminho cruzariam com enormes caminhões caçambas carregados de areia branca e fina a derramar pelo asfalto. Chega dá uma pontada no peito! O poeta, mirando em volta, procurando as dunas brancas e somente avistando loteamentos, villages, resorts, Vixe, Maria! Casas de invasão, puxadinhos, pirambeiras, ingrizilhas e o diabo a quatro. O chofer enxerido querendo bodejar sobre os assaltos constantes naquela área, desistiria ante o olhar de reprovação do compadre, mania que esse povo tem de dar notícia ruim! Ali onde havia um areal, com umas dunas cinematográficas a se perder de vista, agora, era um amontoado de casas feias e mal - ajambradas, algumas enormes, palacetes de granfas, cercadas de gosto duvidoso, outras sem reboco ou mal pintadas. Acolá, outro areal devastado, destruído. E Valdivino sentindo um engasgo que nem peixe no anzol. O quê se há de fazer? Paciência!...

Pronto lá estava ela, a lagoa escura, arrodiada de areia branca, esplendorosa, radiante, encantadora. Saltariam, e ele sorrindo e cantarolando: ”Abaeté é uma lagoa escura...”, espreguiçar-se-ia, erguendo os braços para o alto, agradecendo aos santos e aos orixás. Caminhariam até a beira d’água, onde Dorival com as mãos em concha saudando a mãe Oxum : “Ora yeyê ô!”, ensaiaria molhar o rosto ou quem sabe até mesmo beber daquela água santa, quiçá, banhar-se-ia, que farra! Seria impedido pelo chofer que apontaria dejetos plásticos boiando à margem, Dorival não ia gostar da repreensão, mas cederia sorrindo quando o compadre pilheriasse : “Ômi, a água tá meia anuviada, espia quanto bregueço, tem inté camisas-de-vênus!”. Os três sorririam encabulados. A lagoa ainda era bela, vista de longe, linda e mágica.

Aonde andará as lavadeiras e suas cantigas e dengos? E o povo - de - santo com seus batuques e cânticos? Ora yeyê ô, ora yeyê ô! “Ê, de noite, ê/ De noite até de manhã/ Ê, de noite, ê/ Ouvir cantar pra Nanã...”, aonde andará, aonde andará? Do alto, viriam uns ruídos, uns sons bate-estacas, umas aleivosias modernas de um automóvel estacionado... “Vamos pro hoté?”, diria Valdivino baratinado pressentindo o constrangimento, “Depois do rancho, nóis vai vê casa véia, no Centro Histórico, que-diga”. Dorival seguiria a contragosto e o compadre com coração na mão, mais aflito do que siri na lata, mais enrolado do que tentáculos de polvo.

À tardinha rumariam em direção ao Centro Histórico. Via orla, pediria Dorival. “Cadê o Teatro Maria Bethânia?”, Virou bingo. “E o Cine Rio Vermelho?”, Virou Igreja Evangélica. E a Igreja de Sant’ana ? Tá’li... Tá’ li... Quantos bares e hotéis, hotéis e mais hotéis. Odoyá, minha mãe! Atotô, meu pai! Diria o poeta se benzendo. Tudo bem, toca em frente, aquelas casinhas amontoadas ali junto daqueles arranha-céus, é o Morro da Sereia ou o da Paciência? É... É... Toca mais ligeiro chofer, estava doido para ver Ondina. “Já passou, Seo moço”, resmungaria o condutor envergonhado. Ainda bem, suspiraria o quase-irmão aliviado, ele não iria reconhecer mesmo.

Farol da Barra. “O carnaval agora é aqui, pai!”, diria Valdivino tentando animar o compadre. “Tudo granfa, tudo de camarotes”. E a Praça Castro Alves? Perguntaria o poeta. “É do povo, é do povo, como o céu é do condor!”, diria o moço que guiava, displicentemente, apontando o farol. Porto da Barra, Ladeira da Barra, Largo da Vitória, tudo tão diferente, tão desigual, modernoso.

Será que valeria a pena levar o amigo e compadre para ver o estado lastimável em que se encontrava o Centro Histórico, ainda que o Pelourinho estivesse maquiado, e o restante do patrimônio caindo aos pedaços? Valeria a pena fazer o amigo passar por tamanha tristeza e constrangimento? E quando eles passassem pela Alameda da Vitória, e o poeta calado, fechado em ostras, parecesse não reconhecer nada daquilo, muitos edifícios, edifícios e mais edifícios, estaria na Bahia mesmo? “Ói compadre, tamos chegando no Campo Grande”, diria o meio - irmão, percebendo o olhar atônito do poeta. “Campo Grande, já?”, perguntaria Dorival abrindo um sorisso que nem pérola de dentro da ostra.

Pediria ao chofer que fosse mais devagar com o andor. Queria apreciar a Rua Forte de São Pedro, as Mercês, a Igreja das Mercês, a Avenida Sete, quão diferentes, lojas e mais lojas de eletrodomésticos; a parte térrea dos casarões, desfigurada, camelôs e mais camelôs, comerciantes a dar com um pau, Vixe Maria Mãe de Deus! Praça e Igrejas da Piedade, “Senhor tende piedade de nós!”, benzia-se Dorival, e Valdivino com o coração que nem caranguejo se estrebuchando na panela de água fervendo.

O Relógio de São Pedro, parado, quebrado, carros e mais carros, mais gente vendendo do que comprando, que nem cardume de caçonetes fugindo de tubarão. Mosteiro e Igreja de São Bento, pelo - sinal, em nome-do-pai, parecia rezar tamanha contrição. Quando descessem a Ladeira de São Bento, Valdivino pediria ao chofer para tocar mais ligeiro, fizesse a volta na ladeira de São Bento, fosse pela Carlos Gomes, melhor que o poeta não avistasse a Praça Castro Alves, e se ele pedisse ao chofer para dar uma paradinha na Praça? De lá avistariam as Ladeiras da Montanha, da Preguiça, do Sodré, da Conceição, arrasadas, todas as casas em ruínas, cada cafofo, cada mafuá, Vixe Maria Mãe de Deus!

Todo o Comércio e a Cidade Baixa pedindo PPU (Pedindo Penico Urgente, SOS de baiano), os casarões com os seus telhados e paredes desmoronando, escombros, entulhos, muitos espaços vazios, latrinas e estacionamentos improvisados, parecia uma cidade bombardeada, Jesus, Maria, José! Valei-me minha Santa Barbara! Como deixar o amigo-irmão passar por tamanho vexame? “Óia lá o mar, que lindo... Óia o Forte de São Marcelo!”. Distrairia o amigo. E ele com o olhar perdido entre os sobrados e o horizonte. Seria moquequiar demais tão nobre o coração, Vixe Maria mãe de Deus! E se ele inventasse de ver a Rua Chile, acabada, esquecida e cheia de casas de agiotagem? Não, não, melhor não, aí, era mesmo que fazer xinxim do pobre coração, tá rebocado! Piripicado! E se o automóvel subisse picado a Ladeira da Ajuda? O poeta reconheceria a Rua Chile? Ali era o Teatro São João, diria Dorival, aquele ali era o prédio do jornal A Tarde, mas ele saía de manhã. A antiga loja Adamastor, do pai de Glauber, a Slooper, as Duas Américas, a primeira escada rolante da Bahia, não existem mais, como está abandonada a Rua Chile! Aí, era mesmo que cortar o coração do poeta em postas, tá reboré, piripiri! E o automóvel seguindo pela Rua da Ajuda. O prédio do Tesouro do Estado, agora vai ser o Museu Afro, ainda bem que fizeram alguma coisa que preste! A Igreja da Ajuda, ué, cadê o prédio do Banco Econômico? Desmancharam duas ruas de Casarões Históricos para fazer um ponto de ônibus? É de lenhar! Vixe Maria! Nossa Senhora! Valei-me minha Santa Bárbara! Ó pái, ó! Ali era a C. Sampaio, diria Dorival tentando se animar, é verdade, é verdade, a primeira loja de long-plays da Bahia, o sonho de todo cantor baiano era ter um long-play sendo vendido ali, ele, Gil, Caetano, todo artista da Bahia sonhou com essa façanha, faça a volta aí no Café das Meninas chofer, pediria Dorival. Os carros agora têm que fazer a volta lá na Praça da Sé, diria o moço que guiava, então tá certo toca pra lá, alegrar-se-ia Dorival. E a Praça Tomé de Souza, a Praça do Elevador Lacerda, com aquela estrovenga que chamam de Prefeitura, aquele cacete armado modernoso? E a Hamburgueria “Baitacão” logo na entrada do Elevador Lacerda, em pleno cartão postal da Bahia, não, não, melhor não, assim, era mesmo que arpoar o imaculado coração. E quando chegassem na Praça da Sé? Aquele deserto de granito, com uma fonte luminosa ao som de música americana? Que mania que essa gente tem de imitar gringo! Afe, Maria! Não, não, melhor não, era preferível ficar ali na Praça Castro Alves, mesmo. “Óia o restaurante O Cacique, vamos comer no Cacique?” O poeta reviraria os olhinhos com cara e dengo de quem viu cocada-puxa. Não havia mais o Cacique. “Óia compadre, tá vendo ali, era onde funcionava o Tabaris, o grande Cassino e Dancing da Bahia”. “Tô vendo! Tô vendo, depois, na frente, fizeram o cinema e deram o nome de Cine Guarani, para homenagear a ópera O Guarani de Carlos Gomes, depois mudaram para Cine Glauber Rocha para homenagear o cineasta baiano, depois fecharam de novo”, diria o poeta mostrando erudição. “Esses políticos, ô cambada de safados...”, praguejaria Valdivino tentando alegrar o amigo, “... já gostam de uma homenagem e uma inauguração, com uma meia dúzia de políticos desses, ninguém precisa de guerras, de enchentes, de mau tempo, de tempestades, de maremotos, agora cuidar do preservamento que é bom, necas de pitibiribas!”

Dorival sorriria com os gracejos do amigo. Não, não, Valdivino, mudaria de assunto, “Óia o prédio do jornal ATarde, tem esse nome e sai de manhã, engraçado né?”, repetiria o gracejo tentando alegrar o poeta. Não, não, não iriam até o Centro Histórico, não, seguiriam pela Carlos Gomes, desceriam o Largo Dois de Julho e rumariam pela Avenida Contorno, aquela vista magnifica, decerto encantaria o menestrel. Nem mesmo o Terreiro de Jesus e o Pelô, valeriam a pena visitar, muitos negócios e negociantes. Depois tudo aquilo era demais para um coração tão sensível, praiano. Não, não, tocassem para a Cidade Baixa. “Vamos no Bonfim, compadre?”, Dorival escancararia um sorriso de orelha a orelha. “Toca pra lá chofer!”. Aí sim, aí sim, do topo da Avenida Contorno descortinaria esplendorosa a Baía de Todos os Santos e os olhos do poeta cheios d’água e de alegria. Que maravilha a Bahia! Alguns instantes de êxtase e alumbramento, pareceriam duas crianças saboreando baba-de-moça. O mar da Bahia, o céu da Bahia, o sol da Bahia, lá do outro lado, a ilha de Itaparica, mas alegria de pobre dura pouco, que murada doida era aquela? Fizeram uma cortina de cimento, depois do Solar do Unhão, cobrindo toda a visão de quem passa apreciando a paisagem e ainda têm a cara-de-pau de desenhar umas ondinhas na muralha horrorosa, um cacete armado, isso sim, chamavam de cais, não, chamavam de Píer ou Pier, uma peste dessas aí, quem já viu? É ruim, hein? Tem gente que pensa que os outros é besta! Isso é coisa de rico: “Rico quando não caga na entrada, caga na saída!”. E quis barracão mal - ajambrados são aqueles na prainha do Unhão? Dorival se pipocaria de rir se adivinhasse as conjecturas do amigo. Que estrupício! Onde já se viu uma coisa dessas? Ao passar pela Igreja da Conceição, ambos se benzeriam com uma precisão coreográfica. Pediria ao chofer para tocar o barco, ansiava passar por ali o mais rápido possível, pois temia o desconforto do amigo em meio a tantos casarios caindo aos pedaços, e se ele perguntasse pelo cais do Mercado Modelo? Vixe, Maria mãe de Deus! Aí, era de cortar o coração do homem, que nem se corta quiabo em Caruru de Cosme e Damião, bem miudinho. O cais, não existia mais, fecharam, em seu lugar botaram um Posto de Gasolina, valei-me Nossa Senhora! Quem já viu? São umas antas, mesmo. Ô despautério! Oxalá, qu’ele não perguntasse pelo cais do Mercado Modelo, senão babau! Aí, era esmigalhar o coração que nem moqueca de siri - bucêta! O poeta apreciando toda a Avenida do Comércio na Cidade Baixa com um sorriso entre o incrédulo e o resignado. Uma ou outra coisa bonita e muito estrago. Diz o povo que os gringos tão comprando tudo, tudo, querem fazer que nem o principado de Monaco ou Mônaco lá das estranjas, uma porra dessas aí, pensaria Valdivino com receio que o compadre adivinhasse seus encasquetamentos. “Ói, a Ladeira da Água Brusca! Daqui pa’pouco nóis passa na feira de São Joaquim, antiga Água de Meninos!”. Outra pontada no coração. Avia, chofer, pé na tábua, toca com esse bonde, passa nas carreira homem de Deus, avia. E o motorneiro suado numa malemolencia de fazer gosto. A Estação Ferroviária na Calçada, a Igreja dos Mares, o Largo de Roma. Ah, porreta, tavam chegando, tavam chegando, a Avenida Dendezeiros, uma água-de-coco no abafamento do caminho. Ói, ela, A Colina Sagrada! A Igreja do Bonfim, Oxalá, meu pai! Suba aí marinheiro, rapidinho, lá estaria ela, bonita, misteriosa, encantada, mas... Fechada. Só abre na sexta-feira, nas novenas, ou quando tem caravana de turistas. Não faria mal, saltariam, rezariam, acenderiam velas, isto é, se os vendedores de fitinha e balangandãs deixassem, é nem uma! Não faria mal, tocariam o barco, “Toca pra frente chofer!” Tomariam um sorvete na Ribeira e voltariam beirando o mar: Ponta de Humaitá, praia da Boa Viagem, algumas fisgadas no coração esmiuçado boiando no dendê quente e, ele, Valdivino, não ia dizer mais nada, nem que está isso, nem que está aquilo, nem que está aquiloutro, pra depois o povo e a patroa, a Iaiá dele, não dizer que o Ioiô dela estava muito rememorento, saudosento, e esculhambando a Bahia. Esculhambando não, só pensava tudo isso por que gostava muito daquela terra, mas que dá uma dor retada no peito vê ela assim daquele jeito e maneira, toda escalifada, Ah isso dá! É de pinicar o coração bem miudinho, que nem moqueca de siri catado, tanto descaso e desleixo dos governantes para com a cidade da Bahia.

Pensando bem, talvez fosse melhor não ir ao encontro do amigo, não. Pouparia o compadre, amigo e irmão de tamanho sofrimento. Ele também não ia se importar de não ir ao passeio, contanto que tivesse uma águazinha-de-coco, uma redinha, uma brisazinha e um violão, aí, estaria tudo porreta, nos conformes. Dorival, mermo, era quem sempre falava que queria conhecer Maracangalha, e nunca foi, convidou Anália, ela não quis ir, ele disse que ia só, deu uma chuvinha, redinha, aí piorou, deu banzo, preguiça mermo, chamou Valdivino, adulou todos os companheiros, disse que todo mundo ia de linformes brancos, chapéus de palha, tudo nos trinques, nada, ninguém moveu uma palha, todo mundo na marmota, Maurino, Dadá e Zeca, nada, não foram porque lá em Maracangalha não tinha mar, isso sim! Valdivino do Amor Divino queria tanto encontrar o amigo, mas era melhor assim, era melhor não encontrar, coração só se tem um e depois só louco amar como ele amou, se fizer bom tempo amanhã, se fizer bom tempo amanhã, Valdivino do Amor Divino vai, mas se por inxemplo chover, mas se por inxemplo chover, não vai... E saiu, encarquilhado, cantarolando pela beira-mar até sumir na imensidão de areia e mar de Caixa-Pregos.

Anexo: Trecho do filme Estrela da Manhã dirigido por Oswaldo Marques de Oliveira lançado em 1950, baseado em argumento de Jorge Amado. Cena com Dorival Caymmi e Dulce Bressane.

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sábado, 15 de agosto de 2009

Os sertões: contemporâneo da posteridade

Mauro Rosso
maurorosso@uol.com.br
Escritor, professor e pesquisador de literatura brasileira

O livro número um do Brasil” - que dezembro completa 107 anos de publicação - diz muito de um drama da história nacional, e também de dramas dos tempos atuais.

“Só as obras bem escritas hão de passar à posteridade": palavras lapidares escritas por um naturalista, o conde de Buffon (mais conhecido por uma frase que se tornou famosa: ‘le style cest lhomme même’), ao tomar posse na Academia Francesa, em 1753. Os sertões estão fadados à posteridade. A obra-prima de Euclides da Cunha completa 106 anos celebrada por muitos, muitíssimos motivos — em especial por sua espantosa atualidade

Já se falou e escreveu — vai-se falar e escrever sempre, ao que parece — de sua linguagem difícil: o que não o impediu de ser o primeiro best-seller da história editorial brasileira, com três edições sucessivas no lançamento, a 2 de dezembro de 1902, (ou seja, cinco anos após o fim de Canudos), pela editora Laemmert, e de ser consensualmente considerado “o livro do Brasil”, “a obra número 1”. É bom lembrar que o “livro vingador” — assim ele mesmo, Euclides da Cunha, o batizou, ao lançá-lo — teve sua primeira edição (custeada com recursos próprios do autor) de 2 mil exemplares, rapidamente esgotados.

O que mais dizer de um livro que conta com mais de 30 edições em português, traduzida em 3 idiomas, em mais de 60 países — em muitos deles foram feitas traduções sucessivas, em tentativa de contínuo aprimoramento. Mas, por outro lado, é equivocado pensar que sobre Os sertões tudo já foi dito, lido, ouvido e escrito: muito há o que comentar, muito o que refletir, muito até mesmo o que de críticas e ressalvas ouvir e ler, muito o que debater e meditar.

O que fez, e faz, Os sertões tão célebre?

A consagração de Euclides e de sua obra se de um lado foi, à primeira vista, um fato relâmpago e inesperado — um anônimo engenheiro e pouco conhecido jornalista ter se transformado no mais celebrado escritor do país, na época — de outro está sedimentado por dois fatores básicos: 1) a aceitação de alguns conceitos — chave de Os sertões relacionava-se com um longo trabalho de imposição de novas idéias e concepções e de novos valores que vinham sendo gestados no país há pelo menos 30 anos — o cientificismo da ‘geração 1870’; 2) a consagração-relâmpago foi impulsionada por alguns dos críticos literários mais importantes do país, José Verissimo, Araripe Junior e depois Silvio Romero — além de Roquette-Pinto. Todos enalteceram, insistindo em signos de raridade na obra, mostrando o quanto texto, tessitura, forma, estrutura e conteúdo escapavam do comum, do conhecido — e os ensaios críticos que vieram em seqüência, ao longo dos anos (e até hoje), enfatizam esse caráter de descobertas de verdades fundamentais para o destino do país, como “a tese dos dois Brasis”, a necessidade de olhar para o interior, para “o Brasil real”. O consenso era de que Os sertões não podia ser comparado a nenhum outro livro: era “uma bíblia permanentemente aberta para interpretações, vindas de diversas áreas: literatura, história, geografia, geologia, política,biografia,matemática, engenharia”. Tanto Veríssimo como Araripe sublinhavam a idéia de totalidade encontrada no livro, resultado da soma da arte com a ciência, do épico com o trágico e da emoção com a razão. Euclides produzira uma obra científica, uma obra histórica, mantendo “a continuidade da emoção, sempre crescente, sempre variada, que sopra rija, de princípio a fim, no transcurso de 634 páginas, um livro fascinante, resultado de um conjunto de qualidades artísticas e de preparo científico”. Eis aí uma das vertentes do aspecto ‘ fundador’ da obra, tão mencionado pelos críticos literários ao longo do tempo.

A emoção e o espanto provocados pela obra de Euclides emite seus ecos até hoje. Quase todos os críticos se entusiasmaram, mas por força de seu ofício ficaram se perguntando: por quê? “É uma obra sem carteira de identidade. A natureza de seu ser, enquanto obra literária, permanece indecifrada. É impressionante verificar como sua realidade ontológica persiste incapturável pela crítica literária”, admitiu o escritor Franklin de Oliveira, que fez a si mesmo a pergunta até hoje ‘clássica’: afinal, o que é Os sertões? É ficção, vaticinaram entre outros Tristão de Athayde e Afrânio Coutinho, que escreveu: “Trata-se de romance-poema-epopéia. Uma epopéia épica,narrativa heróica, da família de Guerra e paz, e cujo antepassado mais ilustre é a Ilíada.” O professor Leopoldo M. Bernucci, da Universidade do Colorado em Boulder, EUA, acredita que em toda a história da literatura brasileira nenhum autor conseguiu estabelecer, até agora, uma relação tão visceral com seus leitores como Euclides. “O sentimento do leitor é de assombro e perplexidade. É detestado e adorado. Tem acertos e deslizes, mas não deixa ninguém indiferente.” Entre os supostos deslizes literários, mostrando que a posteridade não é um refúgio seguro nem para os grandes gênios, inclui-se o comentário de Joaquim Nabuco ao conferir a Euclides a responsabilidade por um certo mau estilo das gerações que o sucederam. Gerardo Mello Mourão, por sua vez, acha que o barroco euclidiano degenerou “no rococó dos deslumbrados, que produziu no Brasil uma literatura altissonante e suspeita, na qual se pode inscrever a obra do próprio Guimarães Rosa”. Independentemente do sucesso de público e de crítica, sua perpetuação, sustenta a antropóloga, pesquisadora e ensaísta Regina Abreu, está relacionada a demandas sociais. Ao ser transformada em monumento, símbolo nacional ou fenômeno cultural, uma grande obra literária extrapola suas características iniciais, passando a desempenhar funções sociais que ultrapassam seu valor essencialmente literário. “O coroamento de Os sertões teve o mesmo efeito de um tombamento__ como ocorre com um bem arquitetônico”, ela explica; “ é como “semióforos”, dotados de um valor simbólico que ultrapassa o valor de uso; considerados preciosidades, estão investidos de valor sagrado. Tornam-se um culto”.

Na consagração de Os sertões, menciona-se o aspecto “fundador” da obra. Em que consiste essa fundação? por inovar, por renovar, por revolucionar... por tornar-se enfim um clássico, em meio a elementos histórico-político-sociológicos e literário-culturais específicos de um período de fortes mudanças no país — não apenas pela substituição da monarquia pela república, que seria aliás interpretado como um dos motivadores da ‘rebelião de Canudos’.

***

Euclides da Cunha nasceu e se criou na sociedade brasileira da segunda metade do século XIX — uma sociedade monárquica dominada por grandes proprietários de terra e de escravos, em que vigorava o espírito da “sociedade de corte”.Na seara literária, era época da incipiência do naturalismo/realismo — de um naturalismo com cunho cientificista — ascendente sobre o romantismo(então representado sobretudo por Machado de Assis e José de Alencar); tempo ainda da proliferação da temática do sertão e do interior, de profusão de ‘escritores sertanejos’ — e nesse contexto, por força desse vetor, Os sertões encontrou ‘campo fértil’ de aceitação e, face à sua qualidade excepcional, de celebração definitiva.

Sobre o episódio de Canudos outros autores escreveram, à época: Afonso Arinos, que já era conhecido por focalizar o tema dos sertões e contar histórias de sertanejos, com Os jagunços _ novela sertaneja ; Manoel Benício, com O rei dos jagunços; até Artur Azevedo criou uma peça, “O jagunço” , encenada no Rio de Janeiro em 1897; e Machado de Assis (ele mesmo), escreveu oito artigos entre 1894 e 1897 (22/7/94; 13/9/96; 06/12/96; 27/12/96; 31/01.97; 07/02/97; 14/02/97; 11/11/97) em sua coluna “A Semana”, publicada no jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro.

Mas Euclides, diferentemente da maior parte desses autores que escreveram sobre Canudos, preferiu não editar suas anotações escritas no ‘calor da hora’ dos acontecimentos, registradas no Diário de campanha e nos esboços do livro que a princípio intitulara “Batalhas dos soldados de São Paulo”, para amadurecê-las à base de seu arraigado cientificismo e à luz de novas leituras de trabalhos científicos: o recolhimento em São José do Rio Preto deu-lhe as condições necessárias a esse amadurecimento. Assim, “antecipou um comportamento que seria tônica entre os cientistas sociais, inaugurando de certa forma o ‘trabalho de campo’ seguido da postura de distanciamento e de reflexão teórica sobre o material recolhido”, segundo o crítico e ensaísta José Guilherme Merquior.

Por outro viés, o momento de consagração de Os sertões, no início do século XX, pode ser considerado o coroamento de uma invenção que já vinha se processando há anos, ‘a invenção do sertão’. O sucesso da obra de Euclides veio afirmar — e por ela foi ativada — a positivação da temática sertaneja, do interior, entranhada na cultura literária brasileira. Os sertões, de resto, se inserem numa tradição literária privilegiante do rural e incentivou, insuflou e consolidou uma vertente que iria gerar o ciclo do romance regionalista da década de 1930.

A literatura sertaneja constituida na virada do século já era tradição consolidada. O sertão era considerado o lugar da pureza e da autenticidade, o“lugar da nacionalidade autêntica”. Antonio Candido, por exemplo, sentenciara que “o cânone da literatura brasileira é rural, e não urbano” e já sinalizara nessa direção ao constatar que “desde o início de nosso romance, [o regionalismo] constitui uma das vias de autodefinição da consciência local, com José de Alencar, Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Taunay”. O ‘conto sertanejo’ tratava o homem rural do ângulo pitoresco, sentimental e jocoso: “era a banalidade dessorada de Catulo da Paixão Cearense, a ingenuidade de Cornelio Pires, o pretensioso exotismo de Waldomiro Silveira ou de Coelho Neto de Sertão, é toda a aluvião sertaneja que desabou sobre o país entre 1900 e 1930”, observava Candido, enfatizando que “a publicação de Os sertões contribuiu certamente para esse movimento de valorização do interior”.

Só que subvertendo toda uma visão “pitoresca, sentimental e jocosa’” do homem rural, rejeitando toda ‘banalidade, pretensioso exotismo, ingenuidade’ — e mostrando o sertanejo como “antes de tudo um forte... a rocha viva de nossa nacionalidade”. (vale notar que essa visão ‘dicotômica’ do sertanejo, ora como um ingênuo, frágil ora como um forte, veio na década de 1910 a permear a interpretação de Monteiro Lobato com relação ao Jeca Tatu, desenhado sob três perfis distintos ao longo de sua ‘trajetória literária’).

Euclides também se distinguiu dos demais escritores da ‘voga sertaneja’ por vir apoiado em discurso científico, novidade na época, que deu ao livro ‘autoridade’ superior (ao mesmo tempo ‘legitimadora’ das demais obras sertanejas) e forneceu condições para que idéias e conceitos emitidos apenas como impressão ou opinião ganhassem estatuto de fatos ‘cientificamente’. O sertão tornou-se via privilegiada para uma leitura do Brasil tanto do ponto de vista literário e artístico quanto da tradição de estudos de etnografia e folclore: na esteira dessa via vieram Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Guimarães Rosa, até mesmo Glauber Rocha no cinema e Mestre Vitalino na arte popular artesanal.

A grande novidade foi justamente “o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira”, o que coloca Euclides no lugar de “pai fundador da sociologia no Brasil”, pois segundo Antonio Candido “toda a onda [da voga sertaneja] vem quebrar em Os sertões, típico exemplo de fusão, livro posto entre a literatura e a sociologia naturalista, que assinala um fim e um começo: o fim do imperialismo literário, o começo da análise científica aplicada aos aspectos mais importantes da sociedade brasileira, no caso as contradições contidas na diferença de cultura entre as regiões litorâneas e o interior”.

É com Euclides da Cunha que se perfaz a revelação intelectual e afetiva do sertão, do “Brasil oculto e verdadeiro”. Os sertões emblematiza ainda a retratação do cientificismo de Euclides, de seu determinismo geográfico e racial, emprestado do darwinismo social — antes convencido da inferioridade das “raças fracas”, mas rendido à descoberta de que ser o sertanejo ‘um forte, uma rocha viva’... Não poderia deixar de ser, nem ser de outra forma : o contexto apontava para isso. O cientificismo de Euclides — de resto, comum a toda sua geração — era emprestado do ‘darwinismo social’(gerado pela publicação do livro A origem das espécies, de Charles Darwin em 1859), propugnante da tese de superioridade de raça, o conceito de raça ultrapassando o campo da biologia, se estendendo à cultura e à política, desvirtuando ou ‘adaptando’ as teorias darwinistas no que fosse mais conveniente, utilizando o que combinava e descartando o que era problemático para a construção de um argumento racial no país. A vertente cientificista buscava encontrar as leis que organizavam a sociedade brasileira, que determinavam a formação do gênio, do espírito e do caráter do povo; recorrendo às leis e métodos gerais, seria possível encontrar as especificidades da evolução brasileira e, assim, deduzir seu rumo. Ao lado da influência de Comte, o evolucionismo de Darwin e de Spencer dispôs Euclides a aceitar, com excessiva confiança, as "leis" sobre os caracteres morais das raças que tanto acabariam pesando na elaboração de Os sertões.

O naturalismo/realismo era acima de tudo “uma extensão literária da mentalidade cientificista em que o espírito positivista, ‘a glorificação do fato’, dominava o cenário intelectual, eliminados os últimos resquícios da educação humanística, dando livre curso à religião da ciência. Repudiando em bloco o espiritualismo da fase romântica, a ‘geração de 1870’ adere em massa ao empirismo materialista __ e Euclides é dessa geração; nela nasceu, nela viveu e por ela foi formado __ daí ser o romance realista uma “narrativa de tese”, uma narrativa que comprova o encadeamento causal dos acontecimentos, exibindo sua dependência de fatores biológicos ou ecológicos.

É preciso, no entanto, saber que por volta de 1894, Euclides já entregara-se com fervor aos estudos brasileiros, passando da geologia à botânica, da toponímia à etnologia: o acervo de conhecimentos que então carreou formaria a base científica de Os sertões. Foram anos de estudo intenso e variado: ao lado das ciências naturais, da geografia e história brasileiras, Euclides embebia-se dos clássicos portugueses cuja. sintaxe e vocabulário deixariam não poucos sinais em Os sertões.Foram também anos de interesse pelas ideologias renovadoras que já encontravam eco em um Brasil em fase inicial de industrialização. Sabe-se que Euclides se achegou ao grupo socialista de São José do Rio Pardo, mas teria sido antes um observador simpático do que um militante convicto: o que importa, porém, é a assimilação de critérios progressistas na gênese de sua obra — já denotado em Os sertões — principalmente nos últimos escritos, dentre os quais é texto exemplar o artigo "Um velho problema", de 1904, página candente de “repúdio à exploração da classe operária”.

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Euclides da Cunha, embora Os sertões fosse o seu primeiro livro, já havia atingido um alto estágio de amadurecimento, revelando nessa obra um perfeito domínio da língua e uma clara consciência da sua arte: o crítico Wilson Martins, por exemplo, reconhece que todos os elementos que formam o estilo euclidiano, e que em qualquer outro escritor” poderiam resultar em desastre”, salvam-se graças ao “poder transfigurador do grande artista da palavra que nele preexistia”. O crítico e ensaísta Alfredo Bosi sustenta que pode-se ler a obra principal de Euclides aproximando-a da prosa do seu tempo: naturalista no espírito, acadêmica no estilo”.Bosi argumenta ainda que Euclides não se teria tornado um dos nomes centrais da cultura brasileira pelo determinismo estreito das idéias nem pelo rebuscado da linguagem : Euclides implementou “uma consistência nova em nossas letras: o estatuto da contradição , expressa no livro em forma de opostos inconciliáveis”. Contradição e jogo de opostos, dicotomia tese/antítese que de resto constituem a essência mesma de toda a obra euclidiana — os ‘contrastes e confrontos’ (que deram título, aliás, a uma delas)

A questão de originalidade e autenticidade de Os sertões em última análise nada mais seria do que reflexo da personalidade de Euclides. Se o estilo é natural e original, “ele escreve o que vem de dentro, como sente”, nas palavras de José Verissimo, diferencia-se do escritor guiado apenas por sua subjetividade, pois examina a realidade exterior com as lentes da ciência, procurando o distanciamento — outra das características apontadas pelos críticos: o ecletismo, o jogo de oposições, de tese e antítese (na melhor acepção da filosofia‘hegeliana’),de ‘contrastes e confrontos’, presente da primeira obra a todos os escritos posteriores de Euclides, em que trata de “assuntos mais opostos, psicologia, socialismo, religião, política, envoltos em problemas de história, pátria, imigração, povoamento, indústria, engenharia”, como chamou a atenção Araripe Junior.

“Os sertões permanece atual, desafiando o tempo”, sustenta a ensaísta Walnice Nogueira Galvão. “O papel de Euclides da Cunha na construção da memória da Guerra de Canudos é fundador”, reitera; “Os sertões narra a conversão de Euclides, que foi para lá levar a civilização e o progresso e, quando viu, estava levando o massacre dos pobres; o livro fez por uma insurreição popular o que nenhum outro foi capaz de fazer, no país: alçou-a a tragédia paradigmática, mediante o louvor à coragem do sertanejo”. E dessa maneira, sentencia Walnice, “legou seu libelo à posteridade”.

José Guilherme Merquior ressaltou “uma eletricidade abertamente monumentalizante” nas páginas de Os sertões — obra que para ele era antes de mais nada “uma retratação”, no caso uma dupla retratação: retratação do republicano que condenara dogmaticamente, sem procurar a princípio entender o fenômeno, o “obscurantismo reacionário dos jagunços de Antônio Conselheiro”, e que em contato direto com a realidade, o ambiente, o hinterland, foi levado a reconhecer “o heroismo anônimo das populações seretanejas”.

Seriam contradições, sustentava Merquior, que por mais que turvem a coerência da visão cientificista de Euclides, depõem em favor de sua honestidade intelectual, enriquecem em especial a significação sociológica e estética de sua saga sertaneja. O alcance épico da rebelião que ele pintou em cores ‘poéticas e literárias’, fruto de sua própria transfiguração artística, teria sido basicamente o que levou a crítica a comentar “o romance que pulsa sob Os sertões” — sob a bitola da “linguagem rutilante, da ornamentação verbal”. Mas em Euclides há mais esplendor verbal do que simples ‘ornamentação’, afirmou Merquior.

Para Merquior, “Os sertões. é o clássico do ensaio de ciências humanas no Brasil”, numa época, enfatiza, em que os estudos sociológicos ainda conservavam muitas afinidades com a formação humanística. É exemplo notável de uma “intelectualização da literatura”, num livro meio científico meio literário que abordou “alguns temas atualissimos da pesquisa antropológica”: um deles, da mística do advento do Reino de Deus por intermédio do messias Conselheiro — e aqui surge o tema do messianismo e do sebastianismo (dos mais polêmicos : no que tange ao caso de Canudos, guarde-se as devidas cautelas acerca das peculiaridades e acepções que “a mais famosa, dramática e peculiar manifestação messiânica brasileira , simbolizada pela figura de Antônio Conselheiro , afirmando ou negando o índice messiânico daquela comunidade); outro, “o fato de Euclides da Cunha ter sentido muito lucidamente o problema da definição sociológica de certas formas de anormalidade mental”, escreveu Merquior. Ao reconhecer o entrosamento dos aspectos irracionais da personalidade do ‘profeta de Canudos’ com as aspirações e carências de uma comunidade rústica, sufocada por flagelos naturais e indiferença das camadas dominantes, Euclides “intuiu brilhantemente a natureza psicossocial da noção de loucura, dessa ‘zona mental onde se acotovelam gênios e degenerados’; sobre Antônio Conselheiro, cujo delírio místico traduzia o desespero de uma sociedade, Euclides afirmou que ‘foi para a História como poderia ter ido para o hospício’. Vale dizer, “o positivista Euclides suspeitava da existência de uma ‘sociologia do psiquismo’, do mesmo modo que o darwinista social constatara a força titânica das ‘raças inferiores’. Fulgurante pela transbordante energia poética de seu estilo narrativo, Os sertões sobrevive ad eternum também por seus inovadores vislumbres sociológicos __ inéditos e ‘revolucionários’ para a época, absolutamente válidos e instigantes hoje”, sublinhou Merquior.

Berthold Zilly, professor no Instituto Latino-americano da Freie Universität Berlin e o tradutor alemão de Os sertões, registra: “Euclides da Cunha chamou a atenção para os excluídos em obra fundadora da nacionalidade”. E observa que “o escritor é mais clarividente do que o pensador. O ideólogo republicano e cientificista Euclides da Cunha cada vez mais cede lugar ao patriota e homem cheio de empatia e de compaixão do mesmo nome, que se considera ´narrador sincero´, representando a realidade através de um ´consórcio’ da ciência e da arte”.Zilly destaca que entre as suas visões inovadoras merece destaque a valorização da mestiçagem como processo fundamental para a formação da sociedade sertaneja e brasileira. “Na história do pensamento social do país, Euclides, com sua elevação do sertanejo a herói nacional, constitui importante elo de ligação entre o viajante alemão Martius, que no seu tratado ‘Como se deve escrever a história do Brasil’, publicado em 1844, reinterpretou a mestiçagem como processo necessário e positivo para a constituição do Brasil como nação, e o sociólogo Gilberto Freyre, com seu ensaio clássico Casa-Grande e senzala”. A glória e a atualidade de Os sertões, registra Zilly, nem tanto se devem às informações e às reflexões sobre a guerra e o sertão, que se encontram em numerosos outros escritos da época, mas principalmente “à sua arte encenatória, sugestiva e plástica, à sua força imagética, à sua prosa altamente retórica e poética, entre sarcástica e sublime, à sua teatralização do meio, dos eventos e dos personagens; o caráter sagrado do sertão, na visão dos canudenses, passa para a obra, o assunto santifica o texto. Raramente na história da literatura a identificação entre uma realidade e a sua representação é tão intensa quanto em Os sertões”.Segundo Zilly, é isso que explicaria o extraordinário êxito junto ao público letrado, à opinião pública, aos críticos literários e aos próprios historiadores, “ justamente, o caráter abrangente da obra, que pode ser encarada como summa, e ainda sua indefinição, ou melhor, a multiplicidade de gêneros literários que condensa, sua capacidade de congregar as mais variadas informações, atitudes, formas de enunciação — relatos, poemas, pichações de paredes, artigos e livros sobre a guerra — incorporando, portanto, vários tipos de texto: crônica, lenda, depoimento, diário, tratado geográfico, etnográfico e historiográfico, formas populares simples e ainda romance, ensaio, discurso forense e político, oração fúnebre, tudo amalgamado num estilo relativamente coeso, próprio, inconfundível”. Enfatiza que o livro reúne as três formas básicas da literatura — a epopéia, o drama e a lírica — “um livro-síntese de temas, pontos de vista, métodos de pesquisa e ideologias, quase uma enciclopédia do sertão, que ‘digere’ todo tipo de texto anterior sobre o assunto, obra polissêmica, por isso mesmo sugestiva, instigadora da imaginação do leitor, radicaliza suas contradições, exacerba os paradoxos. Os sertões são muitos livros em um só”

Por outro lado, um certo viés de reticência oferece o ensaísta Roberto Ventura . Em texto ainda inédito, ressalta que “Os sertões é obra híbrida que transita entre a literatura, a história e a ciência, ao unir a perspectiva científica, de base naturalista e evolucionista, à construção literária, marcada pelo fatalismo trágico e por uma visão romântica da natureza. Euclides da Cunha recorreu a formas de ficção, como a tragédia e a epopéia, para estilizar a guerra de Canudos e inserir os fatos em um enredo capaz de ultrapassar a sua significação particular”, mas defendia a tese de que “Euclides interpretou a Guerra de Canudos a partir de fontes orais, como os poemas populares e as profecias religiosas encontrados em papéis e cadernos nas ruínas da comunidade. Baseou-se em profecias apocalípticas, que julgou serem da autoria de Antônio Conselheiro, para criar, em Os sertões, um retrato sombrio do líder da comunidade”.

Segundo Ventura, os sermões de Antônio Conselheiro, recolhidos em dois volumes manuscritos a que Euclides não teve acesso (as prédicas e discursos de Conselheiro constam de um caderno manuscrito encontrado em Canudos, após o fim da luta, por João de Sousa Pondé, médico que participou da campanha como cirurgião da última e vencedora expedição militar ;o escritor baiano Afrânio Peixoto , por sua vez, passou-os a Euclides da Cunha, quando Os sertões já estavam publicados. Euclides morreu poucos meses depois e não se sabe se teve tempo de folhear os manuscritos do Conselheiro) mostram um líder religioso muito diferente do fanático místico ou do profeta milenarista : revelam um sertanejo letrado, capaz de exprimir, de forma articulada, suas concepções políticas e religiosas, que se vinculavam a um catolicismo tradicional, corrente na Igreja do século XIX.

Ventura aponta que a leitura dos textos de Antônio Conselheiro traz uma surpresa instigadora: têm um nível considerável de organização, com uma distribuição e uma seqüência lógica dos assuntos; são gramaticalmente bem estruturados e seu conteúdo religioso, longe de qualquer aberração, é equilibrado e bastante próximo do texto bíblico.No discurso "Sobre a República" ,por exemplo, estão expostas as idéias de Antônio Conselheiro em que “se pode observar um conteúdo mais político, embora sempre determinado pela religião. A premissa fundamental do texto é a de que a República deseja acabar com a religião e por isso é nociva ao povo sertanejo; a República é criticada como ‘assunto que tem sido o assombro e o abalo dos fiéis’. Vista como grande mal para o Brasil, sua implantação é debitada à ‘incredulidade do homem’. Na ótica do Conselheiro, a deposição do monarca contrariava a vontade divina, pois ‘todo poder legítimo é emanação da Onipotência eterna de Deus’. “Tratava-se, portanto, de uma questão de princípio sustentada por um dogma religioso que fundamentava sua posição contrária ao regime republicano. Para ele, combater a República era defender a religião”, escreveu Ventura.

Dessa forma, a visão de Euclides acerca de Canudos torna-se complexa e problemática. Segundo o ensaísta, o discurso de Euclides da Cunha é ambíguo,” marcado por um torneio retórico de antíteses, em que Antônio Conselheiro, seus seguidores e Canudos emergem da análise num jogo de contradições, ora positivados e admirados, ora negativados e execrados. Isso mostra o impasse de Euclides diante da realidade observada, diante da dimensão humana do conflito e diante das limitações do seu método de análise. Todavia, pode-se considerar que o seu distanciamento cultural se mantém em todo o percurso do livro”. Todavia, ressalvou Ventura, “Euclides fixa a consciência de que os canudenses não representavam uma ameaça real à instituição republicana, pois não constituíam um movimento político organizado na tentativa de restaurar objetivamente a Monarquia, e assim procura mostrar que as idéias contrárias à República eram resultantes do atraso civilizatório, do estado de ‘ignorância’ em que se encontrava a população sertaneja. Sob essa ótica, a luta necessária não seria feita através da força militar e dos canhões, mas sim da educação, das letras, das luzes, no processo de introdução dos sertanejos ao progresso, incorporando-os à nacionalidade”. E Roberto Ventura concluía :”Esta constatação abre o caminho para a autocrítica e para a revisão de idéias anteriores, como a de que Canudos era ‘A nossa Vendéia’. A partir disso, Euclides interpreta a intervenção militar como um erro histórico, como um ‘crime da nacionalidade’ contra patrícios, de que seu livro se oferece como denúncia e libelo.” Em sua interpretação , Euclides foi além da narração da guerra, ao construir uma teoria do Brasil cuja história seria movida pelo choque de etnias e culturas, e lançou seu brado de alerta: ‘estamos condenados à civilização. Ou progredimos, ou desaparecemos.’

Desse modo, independentemente da perda de sua vitalidade conceitual, a permanência e a atualidade de Os sertões se devem à veemência de sua denúncia, à sua pertinência histórica e à sua excelência literária, o que o sustenta como um marco fundamental da cultura brasileira. Por todas suas implicações, significações, interpretações e nuances, um livro enfim que veio afirmar novos valores e novos temas de literatura e ciência, obra com a rara qualidade de possibilitar aproximação plural e múltiplas leituras __ entre elas uma reinterpretação do Brasil, renovado com a descoberta dos sertões.

Os sertões recebem, de Gilberto Freyre, uma interpretação que sublinham seu caráter ‘fundador e canônico’. O autor de Casa grande & senzala apontava “a eternidade e incolumidade” da obra diante de um movimento cada vez mais radical de mudança de eixo para interpretação dos fenômenos sociais: o conceito de raça, pelos idos de 1940, como explicativo para o social, estava sendo derrubado, e as ciências sociais proclamavam sua autonomia frente às ciências da natureza. “Como então Os sertões, que tinha em grande medida como quadro conceitual as ciências da natureza, mantinha-se [e mantém-se] atual, glorificado em edições e mais edições, traduções? Como resistiu ao movimento de releitura da raça como fator de inferioridade, explicativo da sua gênese?”, indaga Freyre, para ele mesmo responder: “porque Euclides da Cunha, ainda que resvale no pessimismo dos descrentes da capacidade dos povos de meio-sangue para se afirmarem em sociedades equilibradas e organizações sólidas, uma descrença lastreada no fatalismo da raça, no determinismo biológico,ao tentar compreender a psicologia do sertanejo, fez um ensaio revelador sobre a formação do homem brasileiro. Desmistificou o pensamento vigente entre as elites do período, de que somente os brancos de origem européia eram legítimos representantes da nação. Mostrou que não existe no país raça branca pura, mas uma infinidade de combinações multirraciais. Previu um destino trágico para o Brasil, se o país continuasse a não levar em conta as diversas raças que o formaram. Mostrou que o Brasil tinha contradições e diferenças étnicas e culturais extremas. Concluiu que havia uma necessidade imperiosa de se inventar uma raça. Caso contrário, o Brasil seria candidato a desaparecer”.

Apesar de imerso num contexto intelectual e sociológico onde predominava o determinismo biológico, Euclides teve, no entender de Freyre, a lucidez de perceber que “o movimento do Conselheiro foi principalmente um choque violento de culturas: a do litoral modernizado, urbanizado, europeizado, com a arcaica, pastoril e parada dos sertões. E esse sentido social e amplamente cultural do drama, ele percebeu-o lucidamente, embora os preconceitos cientificistas, principalmente o da raça, lhe tivessem perturbado a análise e interpretação de alguns dos fatos de formação do Brasil que seus olhos agudos souberam enxergar, ao procurarem as raízes de Canudos". Ao tecer o perfil de Euclides da Cunha como escritor além de seu tempo, intuindo o primado do fator cultural no estudo das sociedades num ambiente intelectual, sociológico e antropológico em que predominava a noção de raça como elemento explicativo do social, Gilberto Freyre propõe nova atualidade para o autor de Os sertões.

A atualidade e modernidade de Os sertões __ mais: sua ‘eternidade’ __ está em ser entendido como verdadeiro fenômeno cultural, inserido no cenário de constituição e transformação do pensamento social sobre o Brasil. “Euclides da Cunha é o intelectual brasileiro que mais se interessou em conhecer mesmo o Brasil por dentro”, vaticina o crítico e ensaísta Luiz Costa Lima. ”Os sertões deixou um retrato, um cenário que não pode nunca ser esquecido”, completa.
Costa Lima sustenta ser “Os sertões obra de estranhamento e paradoxos” , e especula : “pode uma obra ser ao mesmo tempo ficcional e não-ficcional? pode , na medida em que recicla e faz repensar o papel desempenhado pelo discurso científico e pelo discurso literário”. Lima argumenta que Euclides constrói na verdade ”uma dupla inscrição, uma estrutura narrativa que supõe o ajuste de um centro tematizado com bordas e molduras”. Nisso residiria exatamente o ‘estranhamento’, porquanto “o texto se desgarra do centro férreo — ‘cientificista’ — e se mostra sob a forma de ‘ilhas’, nas bordas em que uma espécie de representatividade teatral vence a intencionalidade autoral”. O que, no entender de Lima, entre muitos outros aspectos torna a obra absolutamente genial.

Euclides da Cunha mostra-se sempre um intelectual preocupado em "pensar" o Brasil dentro de um momento histórico e complexo processo de formação de uma sociedade que fosse capaz de integrar os diversos grupos humanos (litoral e sertão) na definição da identidade nacional. Com toda justiça passou a ser reverenciado como o primeiro autor a escrever um ‘clássico’ no Brasil, uma obra de peso, científica, densa, consistente, vigorosa, que até então só podia ser encontrada em autores e livros estrangeiros. E ter um ‘clássico nacional’ adquiria valor especial: igualava-nos às nações civilizadas do mundo moderno da época.

A criação de Os sertões faz parte do rol dos ‘grandes momentos’ da história do Brasil, e não é por acaso que tenha atravessado um século como obra mater, ‘bíblia da nacionalidade’ e seja fadado à posteridade.

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No lastro da posteridade, porque Os sertões, simbiose entre jornalismo, literatura, história, ensaísmo, ciência, geografia, sociologia, antropologia, geologia, é obra de múltiplos atributos primordiais: factualidade, perenidade, atualidade.

Factualidade, por ser antes de tudo de uma obra jornalística (mas tão grandiosa que abriga outras características), livro de um jornalista, “o maior feito jornalístico das letras brasileiras ou o maior feito literário do jornalismo brasileiro”, ao retratar um dos episódios mais marcantes da história republicana, registrar o conflito “elite x povo”, “sertão x litoral”, “monarquia x república”, e sobretudo expor condições e situações sociais e culturais de contingentes populacionais, obra que é “uma epifania de brasilidade, uma fala do Brasil”.

Perenidade, em sendo um cânone literário, por constituir-se uma das obras fundadoras da nacionalidade, “a mais representativa da cultura brasileira de todas as épocas”, capaz de expressar importantes dilemas nacionais que extrapolam a própria narrativa da tragédia de Canudos; obra incluída entre os textos fundadores, fontes da historiografia literária : Euclides, ao lado de Manuel Bonfim e Gilberto Freyre, como um dos pioneiros grandes intérpretes do Brasil ; um dos textos básicos de “história e construção do pensamento brasileiro” , um acervo formado por obras de Gonçalves de Magalhães, Francisco Varnhagen, Marquês de Maricá, Joaquim Norberto de Souza e Silva , José do Patrocínio. Perenidade, ainda, por ser inovadora de uma literatura-denúncia;

Atualidade por “chamar a atenção para os excluídos”, denunciar uma questão social, expor mazelas e injustiças, a miséria, a fome, registrar “tendências conflituosas da sociedade brasileira”, enfocar “um Brasil injusto e dividido”, anotar a religiosidade, a crendice, o misticismo e o messianismo — algo sempre latente no cenário político brasileiro (a eterna expectativa pelo ‘pai da Pátria’, pelo ‘salvador da Pátria’).

Sobretudo, a atualidade da obra deve-se à inquietação que seu caráter de denúncia provoca, um livro que oferece a oportunidade de ,a partir de Canudos, ter uma visão clara de questões de origens sociais.

Os sertões diz muito de um drama da história brasileira, e também de dramas dos tempos atuais.

Anexo: Trailer do documentário Sobreviventes - Filhos da Guerra de Canudos dirigido por Paulo Fontenelle.


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