domingo, 1 de novembro de 2009

O parto de uma geração atrasada

(Salvador Dali)
Rodrigo C. Vargas

“Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.” Clarice Lispector

As últimas décadas foram marcadas pela invasão de privacidade em nome de todos. É a máxima Mcluhaniana em que o homem cria a ferramenta e a ferramenta recria o homem. O espaço dividido por todos e por ninguém. Câmeras, lentes e flashes. Na garagem, no trabalho, na estrada, no bar, no corredor, sem glamour.

Cidades como Londres reduziram a possibilidade do anonimato à zero. Não há um ponto sequer sem cobertura visual, sem uma câmera apontada naquela direção. Hoje, o Reino Unido tem uma câmera para cada catorze habitantes.

Por aqui, semana passada, uma universitária do interior paulista foi hostilizada por ter ido à aula de vestido curto. O fato poderia ter ido parar nas páginas dos jornais locais, mas ganhou dimensão nacional por ter sido flagrado por câmeras de segurança da própria faculdade, e celulares dos alunos. Neste caso particular a tecnologia prestou o desserviço de publicitar. Será que essa moça terá a mesma vida de antes?

Esse artigo tem a pretensão de escapar do maniqueísmo, portanto apresenta o outro lado, como o do juiz assassino Pedro Percy Barbosa de Araújo, captado pela câmera de um supermercado do interior do Ceará onde sua vítima trabalhava como vigia. Ou o caso do coordenador do grupo AfroReggae que graças as câmeras de uma agência bancária é possível perguntar: morto pelos assaltantes ou pelos policiais?

Na cidade de São Paulo o número de câmeras cresceu dez vezes de 1998 à 2008. Pulou de 50.000 para 500.000,ou seja uma para cada 22 paulistanos. Um mercado potente que só ano passado movimentou quase 3 bilhões de reais. Mesmo com tantos pontos absorvidos pelo registro, nada mudou. Isso por que o ator continua o mesmo. Filmar tudo é utopia, e mesmo que aconteça sempre haverá uma margem descoberta pela criatividade.

A literatura criou um cenário parecido com o que vivemos. Escrito em 1948 por George Orwell e publicado no ano seguinte, 1984 mostra uma sociedade de controle altamente reprimida e vigiada. Apesar de ter sido o primeiro contato, não foi Orwell que me apresentou o sentido real dessa ação. Aldous Huxley escreveu cinco anos mais tarde Portas da Percepção em que com a ajuda da mescalina, encontra uma maneira de fugir das amarras formadoras do caráter. Foi ali que Huxley teve a sua e a minha revelação, por ele batizada de Beatífica Visão, Sat Chit Ananda – Existência-Consciência-Beatitude.

No momento ápice da alucinação, Huxley foi tomado pela pergunta “Isso é agradável?”, e depois pela resposta “Nem agradável, nem desagradável. Apenas existe.” Aí está a núcleo para compreender a pulsão sobre o controle dos espaços e ao mesmo tempo, a retirada dos mesmos. Essa vontade de onipresença nada mais é que a vontade de ser Deus. Só que quando nós ocidentais nos deixamos conduzir por essa vontade, levamos junto o conceito cristão de perfeição. É por isso que sempre que olhamos na tela e flagramos o corte na carne ou o sangue espirrando caímos no abismo e retornamos ao começo. Isso não tem fim, quanto mais conjugarmos esse verbo mais estranhamente humanos seremos.

Para ver e ser visto sem regorjear é preciso primeiro compreender a sociedade moderna onde tudo o que falta à vida, segundo Debord, acha-se no conjunto de representações independentes do espetáculo. É a tal cegueira branca de Saramago que nada mais é que o excesso de luz. É a sobra e não a falta que atua estrangulando a observação. É por isso que nada é novo. As duas últimas gerações nasceram atrasadas.

O mundo não precisa de câmeras, e sim de gente nas ruas. De pessoas trocando apertos de mãos, olhares, fluidos. Apesar de sermos empurrados para dentro, há uma força que empurra de volta e grita: se for filmar que pelo menos coloque meu nome nos créditos finais.

Um comentário:

glória disse...

essa luminosidade excessiva não deixa lugar para que se veja por entre as sombras, no decodificar das formas. gosto daqueles postes de iluminação de cidades do interior, uma luz amarela meio que ilumina, meio deixe permanecer olhar entre as névoas. belo texto!