quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O desenredo lingüístico de Guimarães Rosa




Tatiana Alves Soares Caldas
tatiana.alves.rj@gmail.com
Escritora, doutora em letras pela UFRJ

Guimarães Rosa, escritor mineiro celebrizado pela peculiaridade de sua linguagem, apresenta ao leitor um desafio: dotado de um estilo único, povoado por construções insólitas, o autor de Grande Sertão: Veredas realiza uma verdadeira recriação da linguagem, redimensionando o léxico e ultrapassando os limites do mero regionalismo. A linguagem rosiana é a um só tempo regional e universal, presente e atemporal, popular e erudita. É desse redimensionamento, analisado em seus aspectos sintáticos, semânticos e morfológicos, que trata nosso estudo.

Desenredo, conto integrante de Tutaméia – Terceiras Estórias, narra a história de Jó Joaquim, homem que se apaixona por uma mulher extremamente infiel, a quem conhecera ainda casada. Flagrada pelo marido com um terceiro homem, a amante de Jó Joaquim escapa da morte. Este decide se afastar, mas, com a morte do marido, não resiste e casa-se com ela, que passa então a traí-lo. Com a infidelidade mais uma vez descoberta, Jó expulsa a adúltera companheira. Em seguida, começa uma verdadeira campanha com o objetivo de modificar a imagem da mulher, afirmando a sua inocência. Sua obstinação, motivada talvez por um amor incondicional, faz com que ele transmita aos outros um modelo de fidelidade tão perfeito que aos poucos todos começam a acreditar em sua história. E, de tanto acreditarem, até a traidora passa a crer na imagem pelo marido idealizada. Como que para fazer jus a tão boa fama, ela torna-se, de fato, uma mulher fiel, voltando para o marido, com quem é feliz para sempre. O enredo insólito, nesse conto talvez por isso intitulado Desenredo, articula-se às inovações realizadas pelo autor. Acreditamos que a exploração de novas estruturas lingüísticas efetuada por Rosa funcione como eixo fundamental do conto, sugerindo e indiciando o desenrolar dos acontecimentos na narrativa.

Um primeiro aspecto a ser destacado refere-se à presença recorrente de provérbios populares e máximas. Tais aforismos têm, a nosso ver, uma dupla função: a de apresentar Jó Joaquim como um homem humilde, do povo, o que se confirma com a sua caracterização, e a de atuar como indício do enredo. O fato de Jó Joaquim preocupar-se com a imagem da mulher perante os habitantes do lugar acentua o seu provincianismo, marca também do narrador, que aparece na introdução do conto a narrar a história a ouvintes, como se de um causo se tratasse. A oralidade, bem como a exploração de um tema do cotidiano, confere ao conto um caráter popular, intensificado pelas assertivas que mapeiam os momentos-chave da trama. A primeira delas, presente na apresentação de Jó Joaquim, prenuncia a mudança trazida por uma mulher na vida do protagonista, antes respeitado:

(...) Com elas quem

pode, porém? Foi Adão dormir, e Eva nascer.[1]


Após o encanto mútuo, Jó Joaquim e a amante começam a encontrar-se furtivamente. Aguardando um momento propício, o protagonista deixa-se levar pelo amor, iludido e sonhador. A reviravolta na trama é antecipada pela instância narrante, que prenuncia a tragédia a ser narrada, ao afirmar que o trágico não vem a conta-gotas.

A narrativa prossegue, e vemos Jó Joaquim afastado da amante, refazendo-se da decepção. Entretanto, como é de desenredo que se trata, o marido morre, permitindo o reencontro dos amantes.

Além dos provérbios citados de forma literal pelo narrador, há outros a nosso ver ainda mais significativos, que aparecem modificados, alegorizando a modificação da situação apresentada. Assim, mais do que simplesmente reproduzir expressões da fala popular, o narrador modifica tais expressões, imprimindo-lhes sua marca pessoal e adaptando-as ao contexto da narrativa. A máxima “depois da tempestade vem sempre a bonança” é aqui transformada em “a bonança nada tem a ver com a tempestade”, numa sugestão de que, após tantas desventuras, Jó Joaquim ainda não encontrará a paz. Outra expressão adaptada pelo narrador está presente na passagem abaixo, momento em que Jó Joaquim é informado da viuvez da amada:

Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos.

Daí, de repente, casaram-se. [2]

Ao subverter o conhecido num abrir e fechar de olhos, o narrador simultaneamente demonstra a eternidade do amor do protagonista, que jamais se fecharia às palavras da amada, e sugere a credulidade de Jó Joaquim, que confiava nas doces palavras da mulher.

Os jargões e termos técnicos também perpassam a narrativa, relacionando palavras de um mesmo campo semântico ao enredo do conto. Há, por exemplo, diversas referências a embarcações quando o narrador fala da paixão de Jó Joaquim. Tais referências atuam como metáforas da trama retratada. A comparação do amor com a nau tangida a vela e vento sugere, simultaneamente, uma relação movida a paixão (a vela) e que vagueia à deriva (ao vento), oscilando de acordo com os acontecimentos.

Outra imagem ligada à navegação é a dos barquinhos de papel. A fragilidade e a inocência dos sonhos do protagonista são habilmente metaforizadas nos singelos barquinhos, acentuando a pequenez humana diante dos indecifráveis desígnios da vida. O campo semântico das embarcações / navegações é ainda vislumbrado na referência a Ulisses, célebre herói da Odisséia que, entre tantas outras peripécias, amarrou-se à proa do navio para não sucumbir ao melodioso e traiçoeiro canto das sereias. O Ulisses mitológico encontrou, portanto, uma saída contra a tentação feminina simbolizada pelas sereias, o que não parece ocorrer com Jó Joaquim, levando o narrador a citar a sabedoria do navegante ancestral:

(...) Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se,

a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver

com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulysses,

que começou por se fazer de louco. [3]


Entretanto, se por um lado pode-se ver nas palavras do narrador uma crítica ao comportamento crédulo e apaixonado do protagonista, por outro pode haver uma defesa de Jó Joaquim por parte da instância narrante. Afinal, se a sabedoria de Ulisses foi a de se fingir de louco para não ter de ir à guerra, a tentativa de redimir a imagem da esposa efetuada por Jó Joaquim, apesar de parecer uma total insanidade, no final revela-se sábia e bem-sucedida. O protagonista embarca em seu sonho, e com ele chega ao local desejado.

Ainda em relação aos termos técnicos, várias são as palavras ou expressões ligadas à lei e ao Direito, como decúbito dorsal, criminoso, reincidente ou abusufruto. Repare-se que, apesar de a maioria dos termos grifados possuir uma relação semântica com crime, não é à adúltera que eles se referem. O abuso no ato de usufruir, ou abusufruto, neologismo rosiano que sugere o prazer desfrutado pelos amantes, aparece como um delito do protagonista, instaurando uma espécie de contradição: o usufruto caracteriza o direito de se aproveitar alguma coisa, enquanto o termo abuso marca o excesso dessa prerrogativa. As delícias experimentadas nos encontros superavam, portanto, os limites estabelecidos, numa transgressão já expressa pelo caráter adulterino da relação. Já os termos criminoso e reincidente se referem explicitamente a Jó, traduzindo a imagem de que o grande erro fora dele, ao confiar novamente na mulher. O termo decúbito dorsal, normalmente utilizado para indicar a posição em que um corpo fora encontrado, coloca o protagonista na condição de vítima, ao mesmo tempo em que denuncia a sua prostração após a constatação da infidelidade da amada.

A partir do momento em que começa a sua cruzada visando a redimir a mulher, os termos vão se aproximando mais do aspecto criminal. Para livrá-la da calúnia, ele não hesita em modificar testemunhos e evidências, alterando completamente a “cena do crime”.

A relação do enredo com as estruturas morfológico-sintáticas presentes no conto é ainda vislumbrada a partir de um jogo com os parônimos mas e mais, cada um deles constituindo um parágrafo.

O primeiro parágrafo formado apenas pela conjunção adversativa surge logo após a notícia do casamento do protagonista, num prenúncio das adversidades trazidas pela união. Em outro parágrafo, desta vez sintetizado no advérbio de intensidade, uma sugestão de que há muitas coisas ainda por contar nessa história. O próprio jogo fônico-semântico entre mas e mais ilustra o desenvolvimento da trama: primeiro, há a reviravolta; depois, surge algo a mais, que permitirá a transformação, volvendo o mero enredo em desenredo.

Os neologismos detectados na obra também dialogam com ela, possuindo uma função na narrativa. Um deles indica a situação de Jó Joaquim durante o afastamento da amada, quando o narrador utiliza-se do termo franciscanato para retratar a situação do protagonista, enfatizando seu celibato e estoicismo. A renúncia aos prazeres, exigida de qualquer monge, aliada ao voto de pobreza típico dos franciscanos, acentua a abstinência de Jó Joaquim, penitente do amor. A existência monástica que o personagem levava até então contrasta com a devassidão da amada, e significativamente a referência ao franciscanato de Jó Joaquim é imediatamente anterior ao mas, indicando a mudança por vir.

Outro neologismo percebido em Desenredo é o termo ufanático, usado para caracterizar o protagonista em sua empresa.A palavra em questão, cruzamento de ufanista com fanático, sintetiza de forma primorosa a paixão de Jó pela amada. Dotado do tom exagerado que marca os ufanistas e da admiração exaltada do apaixonado que comete excessos, Jó Joaquim revela-se um verdadeiro ufanático, numa sugestão do amor quase obsessivo que manifesta. É movido por essa paixão desmedida que ele decide transformar sua história de amor.

Um aspecto que merece ser destacado refere-se à onomástica, uma vez que o nome dos personagens complementa a sua caracterização. O protagonista, que tem como primeiro nome Jó, remete ao homônimo bíblico conhecido por sua paciência e resignação. Submetido às piores provações, manteve-se fiel a Deus. O fato de o personagem possuir o mesmo nome do mártir bíblico funciona como indício de todo o sofrimento que experimentará ao longo da história, bem como a sua incontestável fidelidade.

O nome da amada de Jó Joaquim, intencionalmente omitido até aqui, é também extremamente sugestivo. No início do conto, o narrador refere-se a ela, sem deixar claro qual é, de fato, o seu nome. A indefinição do narrador traduz a incerteza quanto à identidade da personagem e, por extensão, quanto ao seu caráter. A inconstância da amada de Jó Joaquim é metonimizada na inconstância de seu nome, que parece se modificar com a mesma rapidez com que ela troca de parceiro. Chevalier, ao analisar a simbologia do nome, destaca a sua importância no processo de criação e de construção da identidade. Se os nomes, como afirma ele, refletem a essência do objeto denominado, a dúvida entre os vários nomes traduz a incerteza quanto à essência da personagem. Surpreendentemente, o nome que aparece ao final da narrativa não é nenhum dos três anteriormente mencionados. O fato de Vilíria surgir com um nome outro, distinto dos referidos pelo narrador, sugere a transformação nela operada pelos esforços de Jó Joaquim. É essa quarta mulher, diferente de todas as anteriores, que trará a felicidade ao protagonista. Seu último nome carrega ainda uma polissemia condizente com sua história: apesar da aparente oposição entre o vil e o lírio, maldade e pureza aliam-se nessa mulher multifacetada. A própria imagem do lírio é repleta de ambivalências, sendo ao mesmo tempo ícone de pureza e de pecado, sendo inclusive uma das marcas das prostitutas medievais. Semelhante dualismo é observando por Chevalier, que destaca os signos positivos e negativos associados ao lírio. Apesar da perspectiva de salvação metaforizada pela flor citada, esta apresenta uma relação com a tentação, com o pecado, com o amor proibido. A referência a amores proibidos é significativa, em função do adultério representado pela personagem. A interdição social incita à transgressão, e esse aspecto sedutor, marca de Vilíria, constitui mais uma das simbologias do lírio.

Além da proibição explícita – o fato de ela ser casada -, o lado tentador da personagem evoca o arrebatamento simbolizado pelo lírio, como demonstrara Chevalier. Vilíria é marcada pela dualidade, a mesma que lhe permite a transformação observada ao final da história. Não por acaso, outro aspecto presente no lírio refere-se a esse transitar pelas diferentes possibilidades de existência. Esse potencial para a mudança entrevisto em seu simbolismo reflete o poder de cada ser humano de transformar o seu destino, atitude tomada por Jó Joaquim. Este, ao reescrever a história da mulher, modifica-a, tornando-se narrador em vez de mero personagem. Ao imprimir seu desejo à narrativa, torna-se partícipe desse processo, mudando-lhe o final e gerando o desenredo aludido pelo título. O enredo corriqueiro e estereotipado da mulher de mil amantes, de fim trágico e previsível, é então reformulado, transformando-se em feliz desenredo. Com a boa-fé dos otimistas, de tanto acreditar tornou em verdade a mudança de sua história. De tanto criar uma fantasia em que pudesse se refugiar e convencer os outros, Jó Joaquim acaba por criar uma nova realidade. O processo de conversão da mentira em verdade ocorre por meio de uma lógica invertida, por uma investigação às avessas, em que o passado modifica o presente, na arte e na obstinação de Jó Joaquim. À medida que embarca quixotescamente em seu propósito, os vestígios do passado maculado vão sendo apagados, dando lugar à verdade transformada. E, mágica-paradoxalmente, o sujeito das infâmias converte-se em objeto, claro e límpido, da criação de Jó Joaquim. Numa espécie de exorcismo narrativo, Jó retira de Vilíria as máculas do passado para que ela retorne, purificada. Até mesmo o clássico “viveram felizes para sempre” é aqui resgatado, na promessa de felicidade eterna. Transformados pelo ritual da palavra, tornam-se livres e podem ser felizes. E, o que era apenas ficção do protagonista, sugerido inclusive pelo termo fábula, passa ao estatuto de verdade, sendo perpetuado com todas as formalidades, lavrado como documento de fé pública: “E pôs-se a fábula em ata” (cf., 1967, p.40).

Jó Joaquim ousou desprezar a verdade linear, redesenhando a sua história. Personagem rosiano, ele seguiu os passos de seu criador, inovando, recriando. Guimarães Rosa, que sempre subverteu a linguagem, ousou contrariar o próprio epíteto que identifica os membros da Academia Brasileira de Letras. Sua morte repentina, ocorrida apenas três dias após ironicamente ter se tornado imortal, foi o seu último desenredo.

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[1] ROSA, João Guimarães. Tutaméia – Terceiras Estórias.
Rio de Janeiro: José Olympio, 1967, p.38
[2] Ibidem, p. 39.
[3] Ibidem, p. 40.

Um comentário:

LD disse...

adoro ler suas críticas, crônicas utópicas e geniais!!! O mundo precisa de cérebros funcionando e corações pulsando!!!
Ritmo e poesia é o q encontro aqui!