segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Erich Auerbach e a crítica literária em Mímesis




Gilberto de Sousa Lucena
drgilbertoslucena@hotmail.com
Escritor, mestre em letras

Como contemporâneo de uma geração que revelou grandes estudiosos alemães-judeus de literaturas, línguas e culturas, o filólogo Erich Auerbach (1892-1957) tornou-se uma das mais significativas referências nos estudos de cunho hermenêutico e de exegese literária do Ocidente. Isso devido, principalmente, após o fato de ter publicado em 1946 sua obra monumental intitulada Mímesis. Os que fazem parte dessa vetusta tradição intelectual podem, pela importância e qualidade dos seus trabalhos, ser aqui elencados de modo irrefutável: a começar pelo sábio prussiano Karl Lachmann (1793-1851) – fundador da nova crítica textual –; os filólogos Friedrich Christian Diez (1794-1876), Ernst Robert Curtius (1820-1885), Karl Vossler (1872-1949) e Leo Spitzer (1887-1960); o glotólogo e romanista Hugo Schuchardt (1842-1927); a exegeta berlinense Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1851-1925) e o lingüista neogramático Wilhelm Meyer-Lübke (1861-1936), só para destacarmos os mais expressivos eruditos que marcaram um grande momento do estudo das chamadas Humanidades.

Há muito tempo considerado um livro clássico entre os estudiosos das letras, trata-se da obra-prima do sábio berlinense. Mímesis compreende, entre outros e relevantes aspectos, uma abordagem original da questão da representação da realidade e do foco narrativo em obras emblemáticas da literatura ocidental, partindo de textos antigos da cultura greco-latina até contemplar autores da modernidade como os irmãos Jules e Edmond de Goncourt e a novelista e ensaísta britânica Virginia Woolf.

De forma excepcional, com Erich Auerbach e seu famoso compêndio, a crítica literária no século XX experimentou enorme avanço quanto à metodologia de análise textual. Isso porque o exegeta germânico soube, como poucos estudiosos da matéria, estabelecer uma fecunda confluência da pesquisa histórica e filológica com a estilística para o esclarecimento da obra literária. Com sua erudição, pôde também desenvolver a necessária e pertinente conexão entre filologia e literatura, o que permitiu enorme avanço qualitativo em suas análises, adotando um método caracterizado pela possibilidade de junção do diacronismo com o sincronismo que, no seu caso, e de forma original – voltamos a destacar – só contribuiu para uma leitura atual e esclarecedora dos grandes textos e excertos da literatura do Ocidente.

Em seu papel de crítico, o mestre de Berlim conseguiu levar a efeito os “modos de efetuação” do que chamou de “realidade” em suas análises e que, segundo João Adolfo Hansen em ensaio brilhante, representam “categorias de pensamento e esquemas de formar várias teorias da percepção e formações históricas”. Embora admitindo que em Auerbach “o conceito de mímesis é operado sem muita teorização”, defende ser – por isso mesmo “mais oportuno discutir alguns de seus procedimentos” (HANSEN, 1994, p.45). Segundo o especialista da Universidade de São Paulo seu método de análise, ao escrever

[...] capítulos em que se comparam discursos constituídos como pertencentes a uma mesma tradição ou a tradições diversas [...] implica os critérios comparativos do ‘mais’ e do ‘menos’ estilísticos da participação dos discursos no Gênero, pressupondo-se o meio-termo de proporção de sensível-inteligível como a qualidade estética por excelência. (HANSEN, idem, pp.46-47).

Tal preocupação se reflete no reconhecimento da importância da edição crítica, numa consistente historiografia da literatura através da adoção de um estilo que aprofunda aspectos filológicos pertinentes ao trabalho de análise de questões de poética e de retórica, indispensáveis para uma maior compreensão dos autores estudados em sua dimensão cultural. Neste tocante, são palavras do próprio sábio berlinense:

A necessidade de construir textos autênticos se faz sentir quando um povo de alta civilização toma consciência dessa civilização e deseja preservar dos estragos do tempo as obras que lhe constituem o patrimônio espiritual. (AUERBACH, 1976, p.12).

Eis, de modo cristalino, sua consciência da urgência e importância do método filológico no esclarecimento do texto e da tradição que o envolve. Ao resumir, de modo genérico, a importância da obra do nosso filólogo, o professor Leopoldo Waizbort afirmou:

Desde cedo as pesquisas de Erich Auerbach foram tomadas, por seus contemporâneos, como contribuições à sociologia da literatura. Contudo, esse aspecto sempre foi considerado secundário, ofuscado pela empreitada gigantesca da sua escrita da história e por seus estudos filológicos. (WAIZBORT, 2004, p.62).

Nem por isso o estudioso acima citado deixou de destacar a dimensão de Auerbach como sociólogo da literatura, cuja obra permaneceu dando ensejo a uma sociologia literária ainda que ironicamente desafiadora dos sociólogos. É bem possível que devamos compreender, mediante tal questionamento, a razão pela qual o autor de Mímesis permaneça gerando profícuos debates entre os que, pertencendo a campos diversificados do conhecimento humanístico, nunca deixaram de se interessar pela sua obra monumental.

Malgrado a importância dos trabalhos de Erich Auerbach para o estudo da literatura do Ocidente seja inconteste, no Brasil – em termos gerais – é possível verificar um interesse ainda incipiente pelo conhecimento mais abrangente de sua obra e, de modo especial, por Mímesis. Talvez devido a certas dificuldades técnicas na compreensão dos seus ensaios – (e aqui não podemos desconsiderar dificuldades de tradução, sua enorme erudição e a diversidade de questões envolvidas em seu método de abordagem textual) – não se tenha ainda atingido um grau satisfatório de abordagens que contemplem, de forma regular e freqüente, seu legado intelectual. Principalmente entre as novas gerações acadêmicas.

Dada a amplitude da produção de estudos universitários na área de Humanidades em nosso país, não são muitos – nos dias de hoje – os que se interessam por sua obra nas universidades brasileiras. As causas dessa relativa indiferença talvez possam ser explicadas pela ausência de uma tradição, no âmbito de nossas academias, que se volte de modo mais enfático para os estudos no campo da Filologia Românica, com seus métodos de crítica textual em sua feição clássica.

A quantidade de estudos a respeito do legado intelectual do sábio berlinense ainda não representa contingente de vulto, necessário a um debate mais consistente e aprofundado sobre sua contribuição à historiografia e sociologia literárias, das relações entre a filologia e a análise do discurso, de aspectos que envolvam línguas e culturas, além da necessidade e urgência de abordagens textuais cujos parâmetros se pautem em edições críticas criteriosas que levem em conta as complexas relações entre língua e representação literária.

Reforçando tal argumento, é necessário darmos atenção ao fato de que, na bibliografia teórico-crítica brasileira sobre Erich Auerbach, aparecem poucas referências de estudiosos que se voltam para sua obra. São destaques em nosso meio apenas autores como Luiz Costa Lima, Guillermo Giucci, Ana Beatriz Cepelovics Lessa, Edward W. Said, João Adolfo Hansen e, por fim, Leopoldo Garcia Pinto Waizbort. Convém ressaltar que, este último, recentemente coordenou um projeto de pesquisa (desenvolvido no período 2005/2006), no Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo, intitulado “Erich Auerbach: Filologia e Sociologia”, que compreendeu “uma investigação ampla acerca da obra e pensamento do filólogo judeu alemão, centrada nos diversos debates intelectuais e contatos interdisciplinares na Alemanha do entre-guerras”. Para confirmar a existência deste trabalho, pode-se contactar o seguinte endereço eletrônico: waizbort@usp.br. Ainda no Brasil, como relevante contribuição aos estudos sobre nosso filólogo, merecem destaque a jornada de debates que resultou na publicação do livro intitulado V Colóquio UERJ – Erich Auerbach, pela Editora Imago, do Rio de Janeiro, em 1994 (conferir referências bibliográficas); além da seguinte opinião de Edward W. Said – publicada em solo nacional – sobre a importância hermenêutica de Mímesis:

[...] compreende-se que esse grande livro de Auerbach era um hino a uma época em que se analisavam os textos em termos filológicos, de maneira concreta, sensível, intuitiva; uma época em que a erudição e o domínio absoluto de vários idiomas contribuíam para um tipo de compreensão da qual Goethe era o paladino, com sua própria compreensão da literatura islâmica. O conhecimento de línguas e de história era indispensável, mas nunca suficiente, assim como, por exemplo, o mero acúmulo de fatos não constitui um método adequado para a percepção do que representa um escritor como Dante. A principal exigência da abordagem filológica – da qual Auerbach, assim como seus antecessores falavam e tentavam colocar em prática – consistia em penetrar, de maneira subjetiva e enfática, na matéria viva do texto a partir da perspectiva de seu tempo e de seu autor. (SAID, 2003, p.32).

Considerando o raio de abrangência da disciplina filológica, para a leitura aprofundada de Mímesis torna-se fundamental, pelo menos num primeiro momento, o conhecimento de línguas, estilística, historiografia literária, sociologia da literatura, análise do discurso e de teorias do foco narrativo. Na tentativa de compreensão do moderno método hermenêutico de Erich Auerbach é imprescindível o domínio interdisciplinar do leitor que, ao analisar sua obra modelar, terá que empreender descomunal labor de estudo nas áreas do saber referidas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUERBACH, Erich. Mímesis: a representação da realidade na literatura ocidental. Tradução de George Bernard Sperber. 2ª Edição revisada. São Paulo: Perspectiva, 1976 (Coleção Estudos – Crítica, 2).

HANSEN, João Adolfo. “Mímesis: Figura, Retórica e Imagem”. In: V Colóquio UERJ – Erich Auerbach. Rio de Janeiro: Imago, 1994, pp.45-69 (Série Diversos).

SAID, Edward W. “O Humanismo ou a Barbárie”. In: Cadernos do Le Monde Diplomatique. São Paulo, Setembro de 2003.

WAIZBORT, Leopoldo Garcia Pinto. “Erich Auerbach Sociólogo”. In: Tempo Social. São Paulo: EDUSP, Número 16, Junho de 2004.

sábado, 7 de novembro de 2009

Camus cai, e nós aprendemos

Chico Lopes
franz53@pocos-net.com.br
Escritor e tradutor

Caminho sozinho noites inteiras e sonho, ou falo sozinho interminavelmente”, diz um certo Jean-Baptiste Clamance, advogado decaído, bebum de um boteco desclassificado de Amsterdam chamado México-City, a um interlocutor que o leitor nunca saberá quem é.

Primeiro grande achado de um romance curto, melhor dizendo, uma novela, que é, na verdade, a meu ver, o melhor de todos os (poucos) livros que Albert Camus escreveu. Estamos diante de um daqueles tipos da noite, dos bares que tardam em fechar e acolhem insones e estropiados, no anonimato de cidades para as quais calor humano é luxo ou frescura.

São tipos que o leitor deve conhecer – sujeitos que falam demais, que querem ser ouvidos, que se agarram ao colarinho do primeiro ouvinte em potencial que lhes apareça e não desgrudam mais, porque o desespero (que lhes aumenta a profundidade e a chatice) é completo, e nem importa que sua vítima (ou ouvinte) concorde, discorde, ouça. A técnica utilizada por Camus é esse diálogo com um desconhecido que torna o livro um longo monólogo, um fluxo ininterrupto de confissões tão viscerais quanto cínicas, colocando o leitor no epicentro do interesse: ao abrir o livro, sem divisões de capítulos por números ou títulos, os intervalos dados por espaços em branco, o leitor já entrou no universo de Clamance, que se intitula “juiz-penitente”, já foi agarrado no colarinho por ele, e será obrigado a ouvir, ou melhor, a ler.

A solidariedade impossível

É o livro mais enigmático de Camus, na verdade. Faz tempo que ele saiu da moda, embora relembrado aqui e ali por algum admirador. Os que irão conhecê-lo agora, certamente serão levados aos inevitáveis “O estrangeiro” e “A peste” ou aos volumes filosóficos de “O mito de Sísifo” e “O homem revoltado”.

Tudo bem, Camus estará lá. São bons livros, embora alguns tenham envelhecido bastante, por seus temas tópicos, e haja um certo tom presunçoso e retórico no argelino, o que torna seus personagens pouco críveis.

Camus tinha, sem dúvida, essa auto-consciência do escritor que não desgruda de seu mito, que deve muito à sua persona. Susan Sontag dizia que ele carregava consigo um “pedestal portátil”. O que quer ele fizesse, parecia merecer registro, teria que ter algo de solene, pomposo e filosoficamente relevante, como se ele não fosse caso comum, nunca. Sempre a consciência elevada, nunca a sordidez, a pequenez sem desculpa e sem remédio, esta de que somos realmente feitos.

“A queda”, pelo cinismo, pela radicalidade, porque não se esforça por agradar, é muito superior aos outros livros.

E não é um livro agradável. Cai-se nele como num mundo que já está cristalizado, do qual participamos como “voyeurs” impotentes, fascinados, indignados, querendo não aceitar o que Clamance diz.

O “juiz-penitente” pode ser definido como um guru às avessas: chama a nossa atenção para o irremediável, diverte-se lugubremente com a sua decadência e lança, com prazer sádico e “penitente”, suspeitas as mais odientas sobre a condição humana – com as quais, repugnados, acabamos concordando. Ele é um pouco como “o homem do subterrâneo” de Dostoievski, mas agravado por um século que viu o humanismo desaparecer sob o brado heideggeriano de “o Pior já aconteceu”.

Clamance é simplesmente o hedonista comum, o egoísta, o prepotente, o corrupto e cínico que há em todos nós (ou não haveria tanta corrupção e cinismo no mundo). Todos nós com facilidade nos erguemos em juízes da moral, somos peritos em detectar a podridão do mundo, fácil de ver porque é afinal tão exterior; todos nós nos sentimos sublimes, vivemos e morremos como cúmplices, mas nos queremos omissos, nos desculpamos com facilidade, não tínhamos nada com isso, as intenções eram as melhores etc. Em suma, jamais compreendemos o quanto colaboramos para que o mundo seja sórdido.

Prestar atenção a esse partido tão querido por nós, de esquerda, que desabou há um bom tempo e em geral nunca quis admitir e seguirá não admitindo sua corrupção. Uma corrupção especial, daquelas de pessoas que se acham automaticamente santificadas por estarem ao lado dos oprimidos, das boas causas, da superioridade moral, e exatamente por essa auto-complacência condescendem com o mal, achando que, ao praticá-lo, um santo está desculpado a priori; são sempre os mesmos santos automáticos que acham que purificam, com sua presença, o ar e a índole de um bordel. Nunca agem errado e se espantam quando alguém lhes diz que estão cercados da pior incredulidade, por tudo que fazem. Há uma candura fantástica na sua inconseqüência, na sua cegueira. A crença de sua superioridade moral os tornou esses monstrengos acomodados numa providencial ignorância de tudo que se autorizam a fazer.

Clamance é um hipócrita. Até uma certa altura, ele estava convencido de agir humanitariamente, de ser um sujeito até exemplar, bem-sucedido com as mulheres, com veia filantrópica, intelectualmente brilhante, profissionalmente admirado, fisicamente bem-dotado etc. – em suma, um homem de sucesso. Ele se vangloria desse humanitarismo, inclusive, de ajudar viúvas, de amparar cegos para atravessar a rua.

Um dia, um incidente curioso lhe deu a consciência exata de sua pequenez e do mal-estar desse mundo em que se sente à vontade: passando por uma ponte, viu uma mulher, cuja intenção era óbvia, mas ele a ignorou, até ouvir um grito – um pedido de socorro? – quando já ia bem longe. Não se voltou para salvá-la: a noite estava fria e ele não queria se molhar.

A partir daí, cai. Sua queda é a queda de uma consciência falsa numa contingência verdadeira: o absurdo, o horror do mundo, com os quais estamos muito mais mancomunados do que pensamos. O livro todo é compreensível como o longo desabafo de um omisso que de modo algum consegue escapar à consciência de sua culpa e da culpa do mundo todo, afundando-se numa auto-degradação lúcida, que só faz corroborar tudo que de horrível pensa de si mesmo e dos homens.

Mesmo os melhores homens que conhecemos podem, por insídias do narcisismo – que é nosso verdadeiro pecado mortal – não serem mais que pilares da opressão, da indiferença e da crueldade que nos cercam. “A queda” põe dedo em brasa na ferida que os ilustres, os admirados, os muito louvados – mesmo aqueles que parecem mais humildes e despojados – detestam admitir em si mesmos.

Revela em Camus uma coragem incomum. Num personagem como Rieux, o médico de “A peste”, cheio de ótimas intenções, de auto-complacências e atenuantes, apaixonado por seu papel de consciência única de uma comunidade afetada pela epidemia, enxerga-se essa vaidade e o pendor pela retórica, pelas grandes frases, e tínhamos ali um óbvio alter-ego do escritor argelino.

Digamos que “A queda” é superior porque nele Camus obriga Rieux a passar por essa ponte onde a mulher grita e não é ouvida. Pode ser triste, mas é muito mais verossímil. Há pouco heroísmo em nosso mundo, e santos, nenhum. O gesto que Clamance não fez é o gesto que nunca fazemos por ninguém. E não há desculpa para o que nunca fizemos. A única lucidez consiste em lamentar, em não mentir para nós mesmos – e para o mundo – que somos determinada efígie muito querida. Essa efígie pode se erguer muito alto, mas está impregnada de terra e excremento. É só não se iludir mais. E produzir livros à altura dessa desilusão, a única que pode atestar um resto de dignidade no homem do nosso tempo.

Livro obrigatório. Continuará interessando quando os outros Camus nem mais forem lembrados.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Rui Barbosa pós-moderno? (Elogio a um elogio)




Italo Moriconi
italomori@alternex.com.br
Escritor e professor

Do ponto de vista da história cultural, a figura de Rui Barbosa não é moderna, nem pós-moderna, pois encontra-se já domiciliada – no sentido que Derrida dá a essa palavra em Mal de Arquivo[1]. O domicílio é concreto e pintado de cor de rosa. Refiro-me à Fundação Casa de Rui Barbosa, sediada na Rua São Clemente, artéria fremente do antigo Rio na virada do século retrasado. Somente por leituras e releituras pode a figura de Rui ser restituída ao aqui-agora do fluxo temporal e às determinações historicistas que fundamentam categorias como moderno, pós-moderno, oitocentista, modernista. A domiciliação/arquivização de Rui confirma o poder arcôntico de sua presença ausente.[2] Ausente, porém sempre já presente enquanto começo e padrão normativo. No entanto, somos capazes de sentir uma familiaridade amigável com esse personagem arcôntico, por ocasião do centenário de sua presença fisica em capítulo decisivo no processo, ainda em curso, sempre dificultoso, de constituição de uma governança global multilateral, baseada em conceitos e práticas de uma legalidade internacional legitimada pelos povos e nações. Assim, se a trajetória de Rui Barbosa como homem público simboliza a construção do século 19 entrando a machadadas para fabricar o 20, um dos significados possíveis de seu poder arcôntico projeta-se hoje sobre o trabalho que agora o século 21 recolhe do 20. Sobra sempre algo de inspirador no poder arcôntico, até porque o que há não pode ser concebido sem aquele começo patriarcal, que fica como camada arqueológica. Arqueológico, arquivológico.

O poder arcôntico da figura de Rui se entrelaça ao de uma constelação geracional que define uma época na história política e intelectual do Brasil. Se Bonifácio fora o inconteste “patriarca da Independência”, no momento da modernização oitocentista do país temos pelo menos quatro patriarcas arcônticos. Além de Rui: Joaquim Nabuco, Machado de Assis, Rio Branco. Postumamente domiciliados, o primeiro na já mencionada Casa da São Clemente, os demais, no Instituto Joaquim Nabuco, na Academia Brasileira de Letras, no Instituto Rio Branco. Juntas, essas instituições constituem algo como o projeto ou a projeção, necessariamente fragmentada, de um panteão civilizacional. Se é que temos uma civilização. Se é que ainda cabe utilizar o termo no debate cultural. Se é que cabe adjetivá-lo: civilização brasileira? Civilização à brasileira? Civilizações?

Cada qual a seu modo, sempre de uma forma ou de outra articulados entre si, leitores e interlocutores uns dos outros no espaço público, esses quatro homens desempenharam papéis de vanguarda e de mando na evolução institucional do país. No grupo de quatro, Machado de Assis destoa e por isso se destaca: é o único literato profissional. Não é bacharel. Os demais o são. Bacharéis: intelectuais políticos, políticos intelectuais. Membros atuantes da elite dirigente do país. Para além das crônicas jornalísticas, a participação “política” de Machado de Assis restringe-se ao fato de ser funcionário em repartição do Estado. Por outro lado, o modo como se dá a dimensão intelectual aproxima os perfis de Rui e Nabuco, dada a importância que no seu poder arcôntico (o poder do legado panteônico) ocupam o patrimônio de uma obra escrita e a responsabilidade coletiva perante suas assinaturas fundadoras, monumentais. Rui e Nabuco são literatos, mas não exclusivos como Machado. E`são políticos e dirigentes (administradores), mas não exclusivos como Rio Branco. São literatos no sentido de que a personalidade intelectual no século 19 se forma a partir ou com base numa formação literária. A literatura é um discurso pivô no repertório discursivo-cognitivo das gerações intelectuais pós-70 do século retrasado.[3] Por definição, o intelectual deve ter um conceito de literário, deve ter pensamentos pessoais sobre literatura e deve em algum momento atestar uma convivência direta ou indireta com aquelas que são reconhecidas como as principais assinaturas do cânone.

Fiquemos por ora com o triângulo Rui-Nabuco-Machado, deixando momentaneamente na sombra o universo fascinante, porém para mim ainda bastante desconhecido, da tradição intelectual interna ao Itamaraty, dominada pelo poder arcôntico de Rio Branco. No debate intelectual corrente, é inegável que dos três Rui Barbosa seja até hoje o mais “soterrado” (a expressão é de Bolívar Lamounier[4]) pela hegemonia de discursos e de folclores, o modernista e outros, que elegeram nele, Rui, seu contra-modelo preferencial. É bem verdade que o “soterramento” de Rui pode ser maliciosamente interpretado como uma vingança histórica pelo soterramento dos arquivos sobre a escravidão patrocinado por Rui. No entanto, as singularidades, percalços e aspectos polêmicos da vidaobra ruiana não podem obscurecer o fato de que ele, tanto quanto Nabuco e Machado, representa exemplarmente o oitocentismo na história intelectual brasileira.[5] Entenda-se por oitocentismo aqui o sistema de valores que passa a dominar a cultura brasileira após a Guerra do Paraguai, quando entram em cena temas e práticas como abolicionismo, republicanismo, realismo, cientificismo, positivismo, naturalismo, parnasianismo, socialismo, simbolismo. Foi contra os modelos discursivos desse oitocentismo eclético, canônico, arcôntico, de final e virada de século, parodiado pelo humanitismo de Quincas Borba, que o Modernismo de 22 se rebelou, instaurando, pela via do descentramento, uma nova cultura intelectual no país.

Rui Barbosa não é pós-moderno. Mas ele é, certamente, protagonista na produção da maquinaria discursiva que sustenta a modernização cultural à brasileira ocorrida entre 1870 e 1920. “À brasileira” por manter o compromisso com o que se pode chamar, a grosso modo, de elementos arcaicos na formação sócio-cultural brasileira. Nesse sentido, o surto modernizador impulsionado pelas elites dirigentes nas cinco décadas referidas, deve continuar sendo distinguido com muita nitidez da modernização modernista. No plano especificamente estético-intelectual, aquele esteve em linha de continuidade com o substrato romântico dos tempos pós-Independência, assim como com as instituições culturais surgidas daqueles tempos, eivadas de lusitanismo e iberismo, apesar dos vernizes de francofilia. O oitocentismo de fim e virada de século realiza na verdade sínteses (que logo se tornam clichês) e opera mixagens heterogêneas de forças e valores enraizados tanto na cultura romântica quanto nas tendências anti-românticas da cultura pós-romântica.

De tal sorte que os dois oitocentismos – romântico e pós-romântico - estão encapsulados no clichê genérico e generalizador de oitocentismo contra o qual se voltam os modernistas. Compreende-se bem hoje que um dos “efeitos de soterramento” produzidos pela hegemonia do discurso modernista tenha afetado a possibilidade de perceber a dimensão modernizante presente nos ícones e nos discursos oitocentistas que se visava derrubar e substituir. A nova modernidade do século 20 concebeu a anterior como pura antiqualha. Diga-se de passagem que uma boa forma de entender a descontinuidade entre as culturas intelectuais oitocentista e modernista no Brasil é mediante a distinção entre o sistema tradicional de formação superior (baseado nas escolas de Direito, Medicina e Engenharia) e o sistema contemporâneo, baseado nas grandes Universidades modernas massivas.

2.

A seguir, restringirei meu foco ao plano literário, abordando portanto a figura do Rui homem de letras, tendo por meta simplesmente evidenciar aspectos do diferendo entre oitocentismo e modernismo, encarados como sistemas gerais de valores literários, estéticos, culturais. No plano da história da literatura, enquanto parte da história cultural, uma leitura pós-moderna ou pós-modernista da figura de Rui é sim possível, entendendo-se por tal operação o gesto de deslocamento ou distanciamento crítico em relação ao caráter supostamente auto-evidente dos valores que animam as leituras modernistas padrão, tendencialmente preconceituosas em relação a ele. Paralelamente a isso, há a tentativa de fazer reaparecer a positividade dos valores oitocentistas, ou seja, entender os discursos no seu contexto, o que não significa necessariamente uma volta a seu conteúdo normativo. Negar adesão aos valores canônicos do moderno não significa transferi-la a cânones anteriores, em gesto retrógrado, mas pode significar a possibilidade de novas visões do passado, que melhor iluminem a arqueologia do presente e informem o pensamento tendencial. Da maneira como encaro a história e os estudos culturais, o gesto pós-moderno de leitura significa aqui encarar oitocentismo e modernismo ambos lado a lado como forças históricas, passadas, mas não inteiramente ultrapassadas, em relação a cujo diferendo nos situamos de maneira ambivalente: simultaneamente implicados e alheios, herdeiros e extraviados. O arquivo vive.

Proponho-me então a comentar aspectos do Elogio de Castro Alves[6], discurso pronunciado por Rui Barbosa na Bahia, numa sessão por ocasião dos dez anos da morte do poeta. O discurso logo saiu em livro, opúsculo publicado no mesmo ano pela Tipografia de um jornal da terra. Meus breves comentários seguem um horizonte metodológico comparativo, usando por mote o confronto entre o Elogio de 1881 e o ensaio de Mário de Andrade sobre o poeta baiano, publicado pela primeira vez no livro Aspectos da Literatura Brasileira[7]. O livro de Mário, como se sabe, é de 1943, mas pelo tipo de linguagem e referências empregadas no ensaio pode-se depreender que teria sido escrito na primeira metade ou meados dos anos 30, na mesma época ou pouco depois de clássicos da crítica marioandradina como “Amor e medo”, “O Aleijadinho” e “Alvares de Azevedo”.

É certo que se poderá alegar que o Elogio de Rui e o ensaio de Mário são peças metodologicamente incomparáveis, incomensuráveis. O texto de Mário se coloca estritamente no campo da crítica literária, ao passo que em seu elogio, Rui declara logo de saída estar falando de fora desse campo restrito e especializado, propondo-se a abordar e aquilatar o legado do poeta do ponto de vista do senso comum, do não especialista. O intelectual público e homem de Estado (a essa altura de sua vida ainda circunscrito a uma atuação basicamente regional na poderosa Bahia oitocentista) retira a literatura do cercado profissional para situá-la no plano maior de seu sentido histórico, social, humano. Já o ensaio de Mário propõe-se a discutir a qualidade artística da obra de Castro Alves a partir do pressuposto que é possível demonstrar tecnicamente aquilo que é bom e aquilo que é ruim em matéria de poesia.

Dúvidas e ambivalências sobre a qualidade da poesia de Castro Alves existiram desde a primeira hora entre os críticos, a despeito da imensa popularidade do poeta, também desde a primeira hora. O prenúncio do que estava por vir em matéria de fortuna crítica castroalvina mostrava-se já na carta aberta de Machado de Assis a José de Alencar sobre o poeta, um prodígio em matéria de duplo sentido[8]. Trata-se de carta pública em resposta a outra carta aberta que viera de Alencar, apresentando e recomendando o jovem poeta recém-chegado da Bahia.[9] Estávamos em 1868. Não há elogio na carta de Machado que não contenha embutido o ácido de uma crítica por vezes aguda, por vezes furibunda, dirigida tanto ao poeta quanto ao destinatário Alencar. Mas em 1881, Castro Alves está morto e Rui sobe ao pódio para aureolar a memória do poeta com quem convivera na Bahia, de quem fora co-provinciano em S. Paulo e Rio, companheiro de mocidade acadêmica e militância abolicionista. Na geração 70 do século 19, houve também uma forte mística da juventude engajada, como ocorreria quase exatamente um século depois, com a geração que saiu às ruas para encerrar e enterrar o regime militar. A geração de Castro Alves e Rui “saiu às ruas” em campanha para encerrar e enterrar o regime abolicionista. Em relação a isso, o Elogio, como texto, agrega um pungente valor de testemunho geracional. Resgate e gesto de perenização de uma paixão de juventude. Uma aposta de juventude, a abolição, ainda não resolvida no momento em que Rui pronuncia seu discurso.

Embora indique reconhecer a pertinência dos reparos feitos pelos críticos a Castro Alves, Rui passa batido por eles e estrutura seu texto-fala como uma vigorosa peça de defesa, com base nas qualidades positivas, mais decisivas que os defeitos, considerados menores, desculpáveis pela juventude do poeta morto tão precocemente, num estágio por assim dizer espontâneo e ainda inculto de sua trajetória de criador. Defeitos que cinco décadas depois Mário magnificará, Rui empurra para baixo do tapete. Mário não perdoará o espontaneísmo da poesia de Castro Alves e afirmará peremptoriamente não acreditar que o poeta pudesse tomar jeito caso vivesse mais. Dando uma de pitonisa ao reverso, Mário simplesmente não acredita que com a idade o poeta se tornasse mais cuidadoso e estudioso. Já Rui lamenta não ter havido a chance do que para ele tinha tudo para acontecer: uma “segunda florescência” mais culta e estudiosa do gênio de Castro Alves.

O esforço todo de Rui é encontrar os argumentos que possam justificar o lugar de destaque já previamente ocupado por Castro Alves no imaginário nacional e no cânone literário, apenas dez anos após sua morte. Verificamos que aí, o papel do intelectual frente ao literário é o de um sistematizador do senso comum. No modernista Mário, é simetricamente oposto: o crítico, com seu rigor analítico, vai contra o senso comum e se posiciona como educador do gosto, educador-reformador. Desnecessário dizer que o senso comum que Rui pretende energizar e Mário reformar através do fetiche literário é o convencionalismo pequeno-burguês de uma classe média nacionalista em franca ascensão no Brasil a partir das últimas décadas do século 19.[10]

Desse modo, a comparação aqui efetuada justifica-se sobretudo no sentido de uma comparação-confronto, uma leitura contrastiva, um método de leitura “lado a lado”. A incomensurabilidade entre a situação enunciativa dos textos é uma incomensurabilidade de paradigmas, entendidos estes como sistemas dinâmicos. Incomensurabilidade de culturas intelectuais captadas, em ambos os textos, em pleno momento instituinte: instituir o culto a Castro Alves no elogio de Rui, instituir uma cultura radicalmente crítica no ensaio de Mário. Incomensurabilidade entre duas culturas intelectuais que constituem camadas arqueológicas/arquivológicas ativas na geopolítica cultural brasileira. Cabe ressaltar porém que essa incomensurabilidade é também a incomensurabilidade mais universal entre a literatura como matéria de interesse geral e a literatura como matéria de interesse dos especialistas – entendendo-se por especialistas os próprios autores e a crítica profissional. Num certo sentido, cada lado pode prescindir totalmente do outro, pois ambos representam momentos diferentes da elaboração fetichista do literário, definindo circuitos comunicacionais simultaneamente paralelos e interfácicos. Pode parecer paradoxal, mas é assim mesmo: são circuitos paralelos, que no entanto se tocam. O objeto é mais ou menos o mesmo, a literatura, mas os valores nela investidos têm por referência repertórios e interesses bem diversos.

O elogio de Rui é um primor na evidenciação do conceito convencional de literatura. Já não me refiro agora apenas ao convencional oitocentista. Ao contrário, enfatizo o fato de que o convencional oitocentista é o convencional em geral. O convencional em geral é o conceito intuitivo da literatura enquanto prática comunicacional no espaço público, independente das flutuações que esse conceito passou a sofrer no espaço mais reduzido dos especialistas. Sabendo-se que o espaço especializado no campo da escrita artística tanto é o da boêmia literária quanto o do saber disciplinarizado. Isso que chamo de conceito convencional do literário é intuitivo porque é a expressão automática do senso comum numa sociedade que se vive, que se vê, ou que se quer integrada.

No elogio ruiano, a defesa do senso comum, e de Castro Alves como poeta do senso comum, parte de uma compreensão daquilo que podemos chamar de hugoísmo[11], no momento mesmo em que este vinha sendo contestado e rechaçado pelo que havia de mais inovador (mais moderno) na cultura poética pós-romântica. Rui Barbosa mostra-se informado sobre o debate literário de seu tempo e faz opções conscientes, a partir das quais arquiteta sua peça laudatória. Rechaça poéticas de escola positivista, cientificista. Sua defesa do veio hugoano - sentimental, heróico, grandiloqüente – habilmente desliza ao longo do texto, deixando de lado o campo estritamente literário para apoiar-se na defesa mais ampla de uma estética do pathos e do sublime. Coloca-se assim numa outra margem do pós-romantismo. No pódio baiano, vinte e cinco anos antes de Haia, a águia mostra que saberá alçar seu vôo e que suas garras são bem limadas. A literatura pode ser um campo de provas para a inteligência. No exercício da crítica, seja na forma do elogio, seja na forma da desmistificação, essa inteligência confunde-se muitas vezes com a esperteza letrada, dos golpes de mão e das providenciais vassouradas soterradoras. Isso pelo simples motivo que nenhum discurso critico pode exaurir o potencial hermenêutico de um texto. De lacunas e insights parciais constitui-se o discurso da boa crítica literária.

Pelo caminho de uma abordagem estética e não técnica, Rui forceja por desvincular a poética de Castro Alves não só do “hugoísmo” e de outros “ismos”, mas também de qualquer impulso meramente copista em relação a modelos estrangeiros. Ao fazê-lo, estabelece claros critérios não só de avaliação do literário como propriamente de sua conceituação:

Bem pouco valeria Castro Alves, se a estabilidade do seu nome se achasse ligada às feições específicas e aos transitórios destinos dessa fase literária a que entre nós se imprimiu o selo da influência e do nome de Hugo. Na sua personalidade esses não passam, a meu ver, de traços acidentais. O que faz a sua grandeza, são essas qualidades superiores a todas as escolas, que, em todos os estados da civilização, constituíram e hão de consitituir o ‘poeta’ aquele que, como o pai da tragédia grega, possa dedicar as suas obras ‘ao Tempo’: sentiu a Natureza; teve a inspiração universal e humana; encarnou artisticamente nos seus cantos o grande pensamento de sua época [BARBOSA, 1995, p. 613]

Rui Barbosa desvincula Castro Alves do polêmico Hugo para relacioná-lo diretamente ao inconteste Homero e, mais à frente, aos incontestes Dante e Shakespeare, poetas citados no original e de maneira muito pertinente. Há portanto um conceito bem nítido de poesia em geral, em relação ao qual Rui pretende fixar o valor de fetiche da assinatura Castro Alves. Judiciosamente, cuidadosamente, e eu diria que amorosamente, pela intimidade profunda que Rui demonstra ter com o texto legado pelo amigo desaparecido precocemente, o Elogio se desenvolve com base no levantamento, enumeração e interpretação das múltiplas facetas da poesia de Castro Alves. A primeira delas sendo, justamente, a variedade da musa. Logo em seguida, a piedade. A piedade, que Mário em seu ensaio dos anos 30 descartará enquanto móvel poético, por seu caráter demagógico (e sabemos bem como Mário odiava o que chamava de demagogia). Eis o que Mário afirma sobre a piedade na poesia de Castro Alves:

Se no amor o seu ópio foi a sinceridade sem mentiras, no ideal social foi a piedade. Usou e abusou da piedade. O escravocrata não é uma circunstância defeituosa da sociedade, é um criminoso feroz, um monstro vil. A igualdade humana não é uma necessidade, é uma conquista.

Castro Alves jamais ergue os escravos até sua altura, mas se abaixa até os seus irmãos inferiores. A África não é uma grandeza diferente, é uma infelicidade. “Minhas irmãs são belas, são ditosas” dizem as [...] Vozes d’África, num engano prestifigitador de visão... Ou melhor, numa mentira convencional, imposta pela piedade... [ANDRADE, 1978, p. 111]

Que adeptos do Black is beautiful não leiam apressada ou erradamente este trecho de Mário, aparentemente contraditório em relação à sua postura usual, receptiva à cultura negra e ao erotismo da negritude. Mas na leitura de Rui Barbosa, a piedade não diz respeito apenas à poesia abolicionista de Castro Alves. É um princípio subjacente a todas as dimensões temáticas de sua poesia. Musa subjacente que tem a ver com a empatia entre o olhar do poeta e o mundo a seu redor. É através daí que Rui conecta com a informação-Dante e não pelo viés de uma catolicidade. É o abraçar o mundo com os olhos, deixar-se invadir por sua luminosidade, que define a piedade em Castro Alves, na leitura de Rui. Nessa leitura, a piedade, musa subjacente, se enlaçará à musa que Rui denomina “do heroísmo, do direito, da glória” [op.cit., p. 615]. Em observação ousada, porém percuciente, Rui observa que em Castro Alves o heroísmo e a glória estão ligados à celebração do Direito. Os heróis de Castro Alves são combatentes-mártires contra as tiranias. Nesse sentido, Castro Alves seria claramente o poeta da cultura liberal bacharelista do Oitocentos brasileiro. A piedade é uma adesão à luminosidade do DAireito. E Rui Barbosa arrematará seu raciocínio, que nada mais pretende ser senão a evidenciação do raciocínio por trás da seqüência de poemas de Espumas Flutuantes: a escravidão é uma forma de tirania. O escravo é herói e mártir. A liberdade é um direito absoluto. Não existe liberdade no Brasil enquanto existir o escravo. Mas o elo entre piedade, heroísmo sacrificial e poesia dos escravos será estabelecido num momento posterior do discurso de Rui, somente depois de terminado o levantamento e a análise interpretativa (sempre ousada, desabrida) das diversas facetas, as diversas musas do poeta.

Dessa variedade, pincemos a musa do amor e da natureza, para uma rápida digressão. Estamos diante de um clichê na fortuna crítica castroalvina que tanto Rui quanto Mário de Andrade vão se aplicar em desmistificar. Rui, motivado pelo intuito casto de empurrar para baixo do tapete a sensualidade presente nos versos de Castro Alves, Mário, ao contrário, aproveitando-se de Castro Alves para promover o seu próprio pan-sexualismo orgiástico. Basta dizer que a alturas tantas, Mário enuncia, entusiasmado: “(...)pode-se dizer que Castro Alves foi entre nós o primeiro propagandista do divórcio” [op. Cit., p.110]. O clichê repudiado por ambos a partir de posições estético-eróticas tão diferentes é a tendência, segundo ambos existente em críticos importantes, de preferir em Castro Alves os poemas de amor e natureza aos poemas abolicionistas e engajados. Tal tipo de juízo seria provavelmente motivado pelo fato de que foi nessa lírica social que os referidos críticos teriam encontrado de maneira mais acentuada os defeitos que todo mundo repudia em Castro Alves: fatura apressada, grandiloqüência banal, quedas no mau-gosto, excessos hiperbólicos.

Tanto na avaliação de Mário quanto na leitura de Rui, a opção é outra e é bem clara: o valor canônico de Castro Alves está, indubitavelmente, na lira abolicionista. Podemos arriscar dizendo que para ambos, tirando o tema dos escravos, Castro Alves é um poeta romântico como os demais, como um Fagundes Varela, por exemplo. A lira abolicionista, se não o torna necessariamente “maior” que os outros (embora o torne “poeta maior”, pela embocadura social), certamente o destaca e o coloca numa posição singular, incontornável do ponto de vista histórico, dentro do cânone nacional. Rui Barbosa, no entrecho caprichoso de seu argumento, afirma a musa heróica sobre a musa do amor e da natureza, mas depois retorna a este último assunto, levantando o tema de outra forma, no sentido da mulher como musa. A voluptuosidade vai aparecer (cf. op. cit., . 616) mas vai aparecer como dado pecaminoso, ameaçador. Aí Rui comete um deslize triplo. O primeiro é a censura imposta sobre a sensualidade em Castro Alves. O segundo é ler a abordagem castroalvina da mulher na clave retrógrada – já neste 1881 - de um primeiro imaginário romântico convencional, baseado na dualidade conflitiva entre as imagens de anjo e flor versus demônio e víbora. O terceiro deslize é tentar argumentar que o lado “diabólico” da lira amorosa castroalvina acaba superado pelo lado religioso e pelo lado família, quando no máximo o que se poderia aceitar seria a idéia da presença oscilante das distintas pulsões. O filho família com o terço na mão e o rapaz lascivo com a mão solta e boba são duas faces da mesma moeda.

Ao realçar a sensualidade, Mário supera Rui neste ponto específico. No entanto, há brilhantismo na esperteza com que Rui converte o tema do amor no da presença da mulher. Eis aí uma observação arguta de Rui, embora a serviço de uma estratégia sublimadora. É interessante observar que no elogio dessublimador de Mário ao que chama de “sensualidade perfeitamente sexuada e radiosa” de Castro Alves, a mulher desaparece da cena. Mário faz nesse trecho de seu ensaio (p.110) uma leitura bastante queer do tema, celebrando Castro Alves por inaugurar na literatura brasileira “o celibatário de todos os amores”, pois “nisso de amores ele se distingue virilmente”. O fato é porém que por causa justamente dessa virilidade toda, a mulher está presente como figura forte, interpelada e celebrada na poesia de Castro Alves. E ela está presente também no meio do público que ouve Rui Barbosa. Diante delas, o discurso de Rui adota o respeito cidadão e o galanteio decoroso. O que pode nos parecer hoje hipocrisia, para Rui, Machado, Nabuco, era puro decoro, fórmula de convivência civil. A passagem a seguir é digna de nota, pois no seu entrelaçamento vertiginoso de temas, indica uma instabilidade de valores e vocabulário que não só já é o processo de emancipação feminina acontecendo como é também o momento em que aflora no texto pudico de Rui, por mímese e contigüidade, algo da sensualidade do poeta. O decoro não impede que as coisas sejam ditas, mesmo de passagem:

[Castro Alves] sente como verdadeiro inspirado diante da mulher. Ele soube cantar em notas ardentes, ou doces como a ambrosia olímpica, a deliciosa fragrância dessa ‘bela calamidade’. Perdoem-me as minhas graciosas ouvintes; não é do orador a frase: é uma reminiscência importuna e descortês de Hesíodo, o poeta das durezas rústicas do trabalho, que, como o antigo Oriente, não via nas graças do belo sexo senão tentadora malignidade. Nós protestamos pelas nossas contemporâneas contra a malevolência do velho cantor de Prometeu; e Castro Alves conosco. É sincero e apaixonado o seu culto pela mulher; confude-se no seu espírito com o das flores; chega a não distinguir delas; ‘inadvertido’, seria capaz de colhê-la, entre as rosas de um rosal, para a grinalda de sua harpa lírica, como ‘um sorriso num jardim aberto’ , ou ‘um beijo que nasceu na veiga.’ [op.cit., p.p. 615/616]

3.

O primeiro terço quase todo do discurso (texto-fala) de Rui é ocupado por essa visão geral e essa primeira defesa a priori da poética hugoana/castroalvina. A certa altura declara Rui: “Entretanto, bem sabeis que ainda não nos aproximamos do grande monumento de Castro Alves” (op.cit., 617). Após ter resgatado para o senso comum o valor do poeta contra seus detratores, Rui engata uma segunda rumo ao discurso da monumentalização. O ato público em memória dos dez anos da morte de Castro Alves é um ato de instauração arcôntica, panteônica. O poeta é nacional. O poeta é o poeta nacional. O gesto é de centramento. O centramento é a operação solicitada na era da construção dos impérios, que é também a era arqueológica e genealógia da construção do nosso (caricatural?) Império.

A monumentalização e o centramento exigem do poeta ao menos um Livro. Num dos passos mais brilhantes de seu discurso, Rui Barbosa nomeia esse Livro improvável: a “galeria de fragmentos admiráveis da grande obra (...) que, não obstante, ficará sendo no Brasil o ‘poema dos escravos’ ’’(op. cit. p. 619). A musa abolicionista é a mais importante dentre todas as demais de Castro Alves. É musa de combate, é musa de vaticínios. Em sua poesia, diz/escreve Rui, Castro Alves prevê a Lei do Ventre Livre com seis anos de antecedência. Em sua poesia, acrescenta, está o futuro de que o Brasil não poderá fugir. Mas a musa abolicionista, prossegue o tribuno,

(...) não é só a vidente, a cujos olhos se fáz diáfano o porvir: é, ainda a Nêmesis do remorso, mergulhando nos abismos dessa história tenebrosa da escravidão, para extrair de lá nos sofrimentos seculares do cativo o corpo de delito de barbaria da sociedade opressora. (op.cit., .620)

E mais: assim como a partir do que ele mesmo chama de “fragmentos”, Rui decreta que Castro Alves é o autor do poema dos escravos no Brasil, vê-mo-lo em seguida afirmar que a musa abolicionista se estende ao drama Gonzaga. Criando um poema único onde não existe intenção autoral concreta, transformando poemas inteiros em simples “fragmentos” unificados por uma assinatura meramente virtual, finalmente desrespeitando as fronteiras de gênero entre teatro e poesia, Rui opera um gesto de reconhecimento estético que nos lembra Cacaso falando do “poemão” escrito por uma geração: a idéia de um poema inadvertido feito de fragmentos dispersos. Rui chega ao ponto de afirmar que Gonzaga “é dos mais admiráveis lances do poema dos escravos”. Ou seja, no poema dos escravos, uma das principais partes é uma peça de teatro. Sem pejo de embaralhar fronteiras para operar suas sínteses, Rui neste momento vai frontalmente contra a antiga Carta Aberta de Machado de Assis. Nela, Machado, o crítico, admoestara publicamente o jovem poeta apadrinhado pelo patriarca Alencar, por colocar teatro demais na obra lírica e lirismo demais na obra dramática. Para Machado, havia que distinguir muito claramente entre uma e outra linguagem.

Falando do ponto de vista da estética e não da rígida disciplina crítico-literária de Machado (e de Mário também, muito tempo depois – são os gramáticos da forma), Rui pode se dar ao luxo de cometer esses caprichos de embaralhar gêneros e inventar formas, em prol de sua agora já aberta campanha para fixar Castro Alves como o poeta nacional do momento. Suas análises finais contemplam o drama Gonzaga e uma leitura bem urdida d’ ”A Cachoeira de Paulo Afonso” (cf. p.p. 622-627), poema castroalvino preferido por nove entre dez críticos literários brasileiros – inclusive Mário no ensaio aqui trazido à baila.

Mas será através do Gonzaga que Rui fechará o argumento principal do Elogio: o poema dos escravos de Castro Alves é o poema nacional por excelência, e Castro Alves é o poeta nacional por excelência, por associar “indissoluvelmente a causa da nacionalidade à da extinção do cativeiro.” (op.cit., p.621). Não há dúvida que Castro Alves foi de uma extrema felicidade ao colocar no centro do drama da Inconfidência, o drama pessoal de um escravo. Ele captou a emoção social do momento, a centelha da mocidade acadêmica que podia galvanizar os estratos educados das cidades onde havia teatro. Mesmo um leitor de má-vontade como Machado, acaba atraído pelo drama do escravo Luís. Isso depois de praticamente ter feito um golpe de mão, lendo Gonzaga como drama histórico sobre a Inconfidência e cometendo o erro de acreditar no título da peça, analisando o poeta/personagem Tomás Antonio Gonzaga como protagonista da história (pp. 897/898). Quando não se trata disso. O que está acontecendo é que, como bem percebe Rui em sua leitura amorosa, Castro Alves toma da nossa história o drama de fundação nacional por excelência, a Inconfidência, e nele encaixa o drama da escravidão, fazendo do protagonista não Gonzaga, mas seu escravo Luís. A causa da liberdade nacional é a causa da libertação dos escravos.

Através da encenação dramática que se inicia sob a égide da relação pessoal entre Gonzaga e Luís[12], Castro Alves logra exteriorizar o nível de convivência que marca a relação entre brancos e negros na sociedade escravista daqueles tempos. Esse valor inestimável e glorioso da cena castroalvina não passa despercebido pelo olhar artístico do crítico irônico e ranzinza. Podemos levantar a hipótese que o conto machadiano “Pai contra mãe”, escrito muito depois do episódio da Carta Aberta, é uma resposta estética ao modo como lhe afetara a peça de Castro Alves. Releiamos trecho de Machado na Carta Aberta de 1868:

(...) Em uma conspiração para a liberdade, era justo aventar a idéia da abolição. Luís representa o elemento escravo. Contudo o Sr Castro Alves não lhe deu exclusivamente a paixão da liberdade. Achou mais dramático pôr naquele coração os desesperos do amor paterno. Quis tornar mais odiosa a situação do escravo pela luta entre a natureza e o fato social, entre a lei e o coração. Luís espera da revolução, antes da liberdade, a restituição da filha (...) Por isso, quando no terceiro ato Luís encontra a filha já cadáver, (...) o coração chora com ele e a memória (...) nos traz aos olhos a bela cena do rei Lear, carregando nos braços Cordelia morta. Quem os compara não vê nem o rei nem o escravo: vê o homem. [ASSIS, 1973, p.p. 898/899)

Na fantasia (carnavalizadora?) de Machado, o escravo vira rei. Rui Barbosa escamoteia a diferença racial de outro modo. Na verdade, é plausível supor que não está interessado em apagar a marca da diferença racial. O que Rui quer ver desaparecer é a condição servil. Antes de ser pai, Luís deve ser um homem livre (Rui). Pouco importa se Luís é ou não escravo; antes de tudo, ele é um pai (Machado). A estratégia retórica de Rui omite a diferença racial, pois recobre outro ponto, que pode ser útil tanto para racistas quanto não-rascistas. Entendendo-se racista/não racista como tipos de convivência entre brancos e negros. A perspectiva de Rui é a do Estado como promotor da igualdade jurídica. A igualdade dos homens se dá no plano do Direito. Se o padrão de convivência é que define moralmente em última instância a situação escravocrata, e nisso Machado e Rui concordam, para o tribuno baiano o tema da liberdade é incontornável. No mais, ele sublima aquilo que vai aflorar em Nabuco e mais ainda em Glberto Freyre – o elo erótico-afetivo do branco ou do assim chamado branco pelo negro.

4.

Estamos chegando ao final do Elogio ruiano. A justificação do decenário da morte de Castro Alves está no caráter panteônico do legado escrito do poeta. Seu lugar de poeta nacional não é apenas a expressão da vontade do orador, que, ao longo de tantas páginas finamente argumentadas e eruditamente fundamentadas, mostrou com sucesso à sua platéia e a seus eventuais leitores pósteros que se justifica plenamente em termos de qualidade canônica da obra. Mas tal lugar panteônico já pode ser comprovado pelo fato de que o sentimento tão forte de grandeza de Castro Alves que pulsa no espírito do público baiano, “retreme no coração do país” (op. cit., p. 628). O sentimento da grandeza da musa abolicionista “já ecoa na capital do Império” (id.ib.). Na prática, o poeta já é nacional. Rui quis apenas demonstrar que Castro Alves é o poeta nacional, por traduzir a mais profunda aspiração nacional.

Daí em diante, a águia alça seu vôo.

Nos últimos parágrafos de seu texto-fala, Rui Barbosa sai de Castro Alves e aborda diretamente a causa da abolição, tão mais viva e necessária em 1881 quanto nos tempos em que o poeta elogiado escrevera seu drama e seus poemas. A noção de nacional será acrescida aí de dois significados, duas outras dimensões. Para além da questão nacional, enquanto questão de instauração arcôntica; para além do nacional enquanto relação entre região ou província e centro do Império; há o nacional enquanto imagem externa do Brasil e há o caráter nacional, afetado negativamente pelo padrão de convivência entre brancos e negros pautado pelo regime escravista.

Em ambos os casos (cf. p.p. 628/9), Rui Barbosa veicula fórmulas e concepções profundamente difundidas no sistema de valores vigente na sociedade brasileira educada, nesses anos que antecedem o 13 de maio de 88. Repudia a péssima imagem que o Brasil tem na Europa, por tardar tanto na emancipação dos negros. Preocupa-lhe que isso passe lá fora a imagem de que seríamos uma sociedade violenta e bárbara, quando justamente o tipo de convivência realmente existente entre brancos e negros no nosso país permite outra compreensão: “(...) o Brasil não sente menos que a Europa a perversidade e a indignidade desta instituição (...) vê empenhada na solução desta problema a fibra mais vital do seu ponto de honra.” (p. 629)

Encontramos aí, na seção final do Elogio a Castro Alves, o pungente clichê oitocentista que também pipoca nas páginas de Joaquim Nabuco, assim como reaparece, em releitura positivante, na interpretação que o modernista conservador Gilberto Freyre faz de nossa herança escravocrata. Para Rui,

“a ignomínia que barbariza e desumaniza o escravo; conspurca a família livre; escandaliza no lar doméstico a pureza das virgens e a castidade das mães; perverte irreparavelmente a educação de nossos filhos; (...) explica todos os defeitos do caráter nacional (...)” [p.628]

É claro, Rui tange a corda utópica de que a simples eliminação da legalidade que sustentava o que ainda restava de cativeiro negro àquela altura, eliminaria o dado perverso constitutivo das relações sociais na civilização brasileira. Rui acredita no poder absoluto das luzes, na inexorabilidade radiosa do angelismo do futuro: “(...) a extinção do elemento servil será a fímbria luminosa de todo o nosso futuro” [p.628]. Do ponto de vista de uma leitura atualizadora desses trechos finais do Elogio, cabe ressaltar a idéia de que o padrão de convivência entre brancos e negros no Brasil afeta igualmente os dois lados, definindo-se por aí, na realidade, uma especificidade nacional. Uma especificidade que envolve amor e ódio, desejo e rejeição, sim, mas sobretudo, talvez, arquivo e mal de arquivo.

Referências bibliográficas

Castro ALVES [1986] Obra Completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 4ª. ed. Org. de Eugênio Gomes.

Mário de ANDRADE [1978]. Aspectos da Literatura Brasileira. S. Paulo, Martins, 6ª. ed.

Machado de ASSIS [1973] Obra Completa – Vol. III. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 4ª. ed. Org. de Afrânio Coutinho.

Rui BARBOSA [1995] Escritos e Discursos Seletos. Rio, Nova Aguilar, 3ª. ed. Seleção, org. e notas de Virgínia Côrtes de Lacerda (1ª. ed., 1960). [1999] Cronologia da Vida e da Obra. Rio, Edições Casa de Rui Barbosa. 2ª. ed. revista por Rejane de Almeida Magalhães.

San Tiago DANTAS [sem indic. data] “Rui Barbosa e a renovação da sociedade”. In BARBOSA, op.cit., p.p. 55/69.

Jacques DERRIDA [2001] Mal de Arquivo –Uma Impressão Freudiana. Rio, Relume Dumará. Trad. Claudia de Moraes Rego.

Américo Jacobina LACOMBE et alii. [1988] Rui Barbosa e a Queima dos Arquivos. Rio de
Janeiro, Ed. Fundação Casa de Rui Barbosa.

Bolívar LAMOUNIER [1999] Rui Barbosa. Rio, Nova Fronteira.

Italo MORICONI [2001] “Um estadista sensitivo. A noção de formação e o papel do literário em Minha Formação”. In Revista Brasileira de Ciências Sociais, vol. 16, p.p. 161/172.

_____________________________

[1] DERRIDA, 2001.
[2] Id.ib., p.p. 11/16
[3] Fiz uma análise do valor do literário no discurso autobiográfico de Joaquim Nabuco em MORICONI, 2001.
[4] In LAMOUNIER, 1999, onde o autor faz um panorama das múltiplas posições anti-ruianas.
[5] O caso da queima dos arquivos da escravidão é um exemplo de fato que o folclore histórico deturpa e exagera. Sua exata dimensão é devidamente esclarecida por LACOMBE et al, 1988. Como Ministro da Fazenda do primeiro Governo republicano, Rui mandou destruir os registros de posse do ex-escravos, no calor da polêmica sobre se se devia pagar ou não a indenização reivindicada pelos proprietários de terras, como reparação pela Abolição. Os avanços monumentais da historiografia da escravidão no Brasil conquistados nas últimas duas décadas, provam que essa documentação destruída, sendo sumamente importante, por outro lado não esgotava nem de longe a possibilidade de acesso dos historiadores a documentos originais.
[6] In BARBOSA, 1995, p.p. 612/630.
[7] ANDRADE, 1978, p.p. 109/123.
[8] ASSIS, 1973, p.p. 894/900.
[9] Cf. ALVES, 1986, 789/792.
[10] Sobre o papel de Rui Barbosa como porta voz e representante da ascensão da classe média no Brasil, ver a excelente análise de SanTiago Dantas in BARBOSA, 1995.
[11] De Victor Hugo, o poeta romântico francês mundialmente prestigiado no século 19.
[12] Castro Alves, Gonzaga, Ou a Revolução de Minas, Ato I, Cena I. In ALVES, 1986, p.p. 581/584.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Deleuze surfista da imanência

Daniel Lins
dlins2007@yahoo.com.br
Sociólogo, filósofo e psicanalista, com doutorado em Sociologia - Université de Paris VII - Université Denis Diderot (1990) e pós-doutor em Filosofia pela Université de Paris VIII (2003)

A relação entre o surf e a inspiração do filósofo francês Gilles Deleuze

Afora os aspectos que reúnem em um só platô as filosofias de Nietzsche e Deleuze, há um que considero primordial e marca a aliança entre os dois pensadores: o pensamento como receptor da vida é tão-somente movimento. Movimentos e superfícies organizam um jogo do pensamento que Deleuze chama "o jogo ideal", e que pode ser comparado pelas suas especificidades com os esportes. Mas, se o pensamento, por seu movimento intempestivo, supera todos os limites, o esporte pode tão-só encontrar sua validade no próprio limite.

O surf é um jogo, como todo esporte, mas equipado de um aspecto lúdico que lhe é intrínseco. O surf pode tão-só se emancipar mediante duas condições: o surf é desenvolvimento da alegria pelo corpo, surfar é criar movimento. O que qualifica um bom surfista é, pois, a facilidade com a qual ele realiza seu movimento numa superfície de jogo pertencente a uma velocidade nômade do movimento e do tempo da onda.

No entanto, ele brinca de brincar com a onda excedendo os limites da própria onda e de suas regras não estabelecidas. Sua ação poderá superar a chegada da vaga, fazendo dos limites o lugar de transmutação da conformidade e da violência da calma da própria onda. Superar regras e limites é o que Deleuze nomeia O jogo ideal e que, pessoalmente, chamo um movimento louco para um jogo ideal.

Jogar para além do acaso, no acaso das próprias ondas, é uma arte, um conhecimento de seu corpo e do corpo da onda: gorda ou magra, ela tem um corpo, um corpo sem órgãos, uma leveza ativa, que é a própria leveza do ser em devir. Um limite vale tanto pelo que contém quanto pelo que rejeita, e marca a sedentariedade do surfista à espreita da boa onda. Se o surfista é o "sedentário do esporte", é parado que ele se movimenta mais: parar é ter o corpo em movimento, em articulações e namoro com a onda. Devir pássaro, ele voa e não precisa dos órgãos. Seu movimento líquido encontra na vaga seu elemento: ele é natureza com a natureza.

O jogo ideal é sem regras, sem vencedor e sem vencido. É a afirmação de todos os acasos. É o jogo do contra-senso, pois não põe um conjunto de objetos distintos, cujo agenciamento organizaria um sentido, sob o signo da boa estrela ou a boa sorte. Os objetos do jogo ideal são impessoais, não se organizam pela fórmula ganhadora que daria os dados, mas pelos lances de dados a cada vez.

O mar não tem gramática, apenas alfabeto órfão: sua única verdade é a efemeridade da verdade. Essa negação do jogo tradicional impõe a afirmação do acaso proscrito, sem aniquilar, porém, o jogo: eleva-o a sua plena potência do acaso. A onda é o acaso do surfista, como o tubo é para ele o experimento da imanência.

O surfista é a onda com a onda, e não onda sobre a onda; ele não existe apenas para aquilo que o tornará vencedor, mas se realiza afirmando o acaso; temos aqui certamente uma bela definição do ser, sempre em devir. É um puro sensitivo à escuta do meio no qual ele dança com seu corpo-onda para não "dançar" na vida. Escorregar é antes de tudo reduzir o esfregão, o caldo, a "vaca".

O surf é caracterizado pela superfície na qual se evolui, superfície que como o fora não é o exterior, mas a possibilidade de um fora/dentro, desejo maior do surfista. Ele fica à espreita do grande momento, num instante de duração não linear do tempo que tatua o corpo não com marcas visíveis, mas com um devir imperceptível que inebria a superfície de um dentro em núpcias com o fora. É o momento em que o surfista fura a onda, torna-se tubo com o tubo.

A inércia é aparência, é silêncio para não afugentar os devires. Trata-se de perfurar a onda e não de ficar sob a onda, o que é muito mais rico do ponto de vista do corpo projétil. O surfista se situa num experimento ou posição claramente contracorrente, sem jogo de palavras, mas que o auxilia em seu desejo de sensação plena.

Mormente, o surfista, ao contrário do nadador, dispõe de um material extra-humano: a prancha e a força motora extracorporal, isto é, a vaga. É claro que o trabalho, a técnica, o treino, a escuta do corpo, da onda e alianças desses dois elementos nutrem a sensação do surf-imagem-movimento, inserido numa filosofia vitalista, a imanência, uma vida.

Sentir a água passar é uma sublime sensação, mas é o corpo que passa na água, pois a água é imóvel e o corpo avança; isso é verdade para o surfista e para o nadador. César Augusto Cielo, atual campeão e recordista mundial dos 100 metros livres em Roma, é sem dúvida uma grande ilustração desse corpo em movimento.

Com Deleuze, pensar torna-se um esporte, entretanto, se o esportista aplica-o, desenvolve também uma idéia do jogo. Praticar um esporte é também jogar, é acolher um pensamento como transversalidade do esporte.

Deleuze, filósofo surfista da imanência?

Experimentadores de um fora que é dobra e desdobra, os surfistas inspiraram Deleuze nos últimos anos de sua vida: "A desdobra não é o contrário da dobra, mas segue as dobras até outra dobra. Dobras de vento, de águas, do fogo e da terra, e dobras subterrâneas de filões na mina. Os desdobramentos sólidos da 'geografia humana' remetem, inicialmente, à ação do fogo e, depois, à ação das águas e dos ventos sobre a terra, um sistema de interações complexas".

"Todos os novos esportes - surf, windsurfe, asa delta - são do tipo: inserção numa onda preexistente. Já não é uma origem enquanto ponto de partida, mas uma maneira de colocação em órbita. O fundamental é como se fazer aceitar pelo movimento de uma grande onda, de uma coluna de ar ascendente, 'chegar entre' em vez de ser origem de um esforço".

Gibus de Soultrait, surfista, estudante de filosofia, procura Deleuze. Dessa relação, entre um filósofo e um surfista, nasce uma correspondência, virtual/real: "Quando se pensa no homem que viveu no final de sua vida isolado em seu apartamento em Paris, por causa de uma saúde deficiente, é de se admirar que ele tenha percebido com tanta clareza o eco de nossas ondas e nosso modo de se deixar tomar por elas surfando. A isso também, nós surfistas, não poderíamos ficar indiferentes. Essa abertura da filosofia, à nossa prática do oceano, por um de seus grandes mestres do século XX, era a prova de uma juventude e de uma acuidade com o exterior, raras. Foi então, que nos apressamos, entramos em contato com Deleuze, através de nosso editor... e, para nossa surpresa, à nossa simples solicitação de que nos honrasse com algumas linhas para nossa revista, ele respondeu não com uma recusa, mas com a vontade de conhecer o surf".

Aproveitando a ocasião, os surfistas o convidaram a participar da festa "A Noite do Escorrego", no célebre cinema Rex de Paris. "Trazer esse filósofo tão delicado e discreto para tamanha muvuca, encontro de escorregadores frenéticos, tinha algo de extraordinário, inédito".

O filósofo, enfermo, cansado foi, discretamente, à "Noite do escorrego", "La nuit de la glisse". Alguns dias depois, os surfistas receberam uma mensagem de Gilles Deleuze: "Obrigado por vossa delicadeza. Fui ao Rex, o público jovem despertou uma mistura de angústia (leve) e de jubilação, mas, sobretudo, os filmes me impressionaram muito. Há ali, evidentemente, uma combinação matéria-movimento muito nova. Mas também uma outra maneira de pensar. Estou certo de que a filosofia é concernida pelo surf".

O surf é a vida em vibração e sensações cósmicas. O oceano é o livro do surfista, sua prancha uma caneta, e cada onda um poema.

Anexo: Neste trecho da entrevista para Claire Parnet, Deleuze fala da universidade e da ausência de questionamento na mídia

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domingo, 1 de novembro de 2009

O parto de uma geração atrasada

(Salvador Dali)
Rodrigo C. Vargas

“Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.” Clarice Lispector

As últimas décadas foram marcadas pela invasão de privacidade em nome de todos. É a máxima Mcluhaniana em que o homem cria a ferramenta e a ferramenta recria o homem. O espaço dividido por todos e por ninguém. Câmeras, lentes e flashes. Na garagem, no trabalho, na estrada, no bar, no corredor, sem glamour.

Cidades como Londres reduziram a possibilidade do anonimato à zero. Não há um ponto sequer sem cobertura visual, sem uma câmera apontada naquela direção. Hoje, o Reino Unido tem uma câmera para cada catorze habitantes.

Por aqui, semana passada, uma universitária do interior paulista foi hostilizada por ter ido à aula de vestido curto. O fato poderia ter ido parar nas páginas dos jornais locais, mas ganhou dimensão nacional por ter sido flagrado por câmeras de segurança da própria faculdade, e celulares dos alunos. Neste caso particular a tecnologia prestou o desserviço de publicitar. Será que essa moça terá a mesma vida de antes?

Esse artigo tem a pretensão de escapar do maniqueísmo, portanto apresenta o outro lado, como o do juiz assassino Pedro Percy Barbosa de Araújo, captado pela câmera de um supermercado do interior do Ceará onde sua vítima trabalhava como vigia. Ou o caso do coordenador do grupo AfroReggae que graças as câmeras de uma agência bancária é possível perguntar: morto pelos assaltantes ou pelos policiais?

Na cidade de São Paulo o número de câmeras cresceu dez vezes de 1998 à 2008. Pulou de 50.000 para 500.000,ou seja uma para cada 22 paulistanos. Um mercado potente que só ano passado movimentou quase 3 bilhões de reais. Mesmo com tantos pontos absorvidos pelo registro, nada mudou. Isso por que o ator continua o mesmo. Filmar tudo é utopia, e mesmo que aconteça sempre haverá uma margem descoberta pela criatividade.

A literatura criou um cenário parecido com o que vivemos. Escrito em 1948 por George Orwell e publicado no ano seguinte, 1984 mostra uma sociedade de controle altamente reprimida e vigiada. Apesar de ter sido o primeiro contato, não foi Orwell que me apresentou o sentido real dessa ação. Aldous Huxley escreveu cinco anos mais tarde Portas da Percepção em que com a ajuda da mescalina, encontra uma maneira de fugir das amarras formadoras do caráter. Foi ali que Huxley teve a sua e a minha revelação, por ele batizada de Beatífica Visão, Sat Chit Ananda – Existência-Consciência-Beatitude.

No momento ápice da alucinação, Huxley foi tomado pela pergunta “Isso é agradável?”, e depois pela resposta “Nem agradável, nem desagradável. Apenas existe.” Aí está a núcleo para compreender a pulsão sobre o controle dos espaços e ao mesmo tempo, a retirada dos mesmos. Essa vontade de onipresença nada mais é que a vontade de ser Deus. Só que quando nós ocidentais nos deixamos conduzir por essa vontade, levamos junto o conceito cristão de perfeição. É por isso que sempre que olhamos na tela e flagramos o corte na carne ou o sangue espirrando caímos no abismo e retornamos ao começo. Isso não tem fim, quanto mais conjugarmos esse verbo mais estranhamente humanos seremos.

Para ver e ser visto sem regorjear é preciso primeiro compreender a sociedade moderna onde tudo o que falta à vida, segundo Debord, acha-se no conjunto de representações independentes do espetáculo. É a tal cegueira branca de Saramago que nada mais é que o excesso de luz. É a sobra e não a falta que atua estrangulando a observação. É por isso que nada é novo. As duas últimas gerações nasceram atrasadas.

O mundo não precisa de câmeras, e sim de gente nas ruas. De pessoas trocando apertos de mãos, olhares, fluidos. Apesar de sermos empurrados para dentro, há uma força que empurra de volta e grita: se for filmar que pelo menos coloque meu nome nos créditos finais.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

As abstrações exatas de Valéry

Pedro Maciel
pedro_maciel@uol.com.br
Escritor

O escritor francês é um pensador da poesia como meio de desvendar
o desconhecido


Paul Valéry (1871-1945) é considerado, segundo a classificação de Ezra Pound (inventores, mestres, diluidores, etc) como um mestre da linguagem que Mallarmé inventou. Edgar Poe e T. S. Eliot são os outros que norteiam o ideal estético de Valéry. Mas a “lógica imaginativa” de Leonardo da Vinci foi o que impregnou sua consciência crítica. O renascentista da Vinci serviu-lhe como modelo.

Segundo Valéry, Leonardo, “mestre de seus meios, este possuidor do desenho, das imagens, do cálculo, tinha encontrado a atitude central a partir da qual as empresas do conhecimento e as operações da arte são igualmente possíveis, as trocas felizes entre a análise e os atos singularmente prováveis: pensamento maravilhosamente excitante”. Valéry anotou no prefácio a ‘Leonardo Poe Mallarmé’: “pela abstração constrói o homem". Os três são descritos como mestres na arte da abstração. Valéry também manifestou fascínio pelos clássicos como Virgílio, românticos como Goethe, simbolistas como Verlaine, modernos como Marcel Proust.

Valéry era um construtor, um poeta-crítico, um pensador da poesia como meio de desvendar o mundo desconhecido. O que é o conhecer? Perguntava o poeta do rigor intelectual e da sensualidade. Estudioso das ciências exatas, projetou idéias artísticas associadas à linguagem da matemática e da física. Os críticos o classificam como um poeta-filósofo. Talvez porque suas reflexões fragmentárias se aproximam dos pré-socráticos como Zenão de Eléia, que inspirou os versos de “O Cemitério Marinho”, ou Heráclito, cuja linguagem se aproxima dos poetas.

"Eupalinos ou O Arquiteto" _ Escritos de circunstância, de 1921, (Ed. 34), não é exatamente um livro de arquitetura. Valéry reflete sobre o processo de criação arquitetônica. Cria um clássico universal a partir de um diálogo imaginário entre Sócrates e Fedro. “Dialogue des morts”, era como seria chamado o texto em sua primeira edição. Fedro e Sócrates habitam as vezes do inferno. Pairam sobre eles a idéia da reflexão dos mortos. Uma idéia assombrada. Conversam sobre as limitações e emoções de uma vida que poderia ter sido. Fedro, o discípulo irônico, faz saudações ao mestre. Sócrates, às vezes não responde: “Espera. Não posso responder. Bem sabes que nos mortos a reflexão é indivisível. Estamos agora muito simplificados para que uma idéia não nos absorva até o final de seu curso”.

Sócrates e Fedro apresentam-se com almas desnudas, sem sombras de nuvens, discutem as banalidades dos vivos e as estranhices dos mortos. Fedro questiona sobre a idéia do eterno entre os viventes: “Os mais grosseiros tentam preservar até os cadáveres dos mortos. Outros constróem templos e tumbas, esforçando por torná-los indestrutíveis”. Sócrates responde, contestando-o: “Loucura! Ó Fedro; claramente o percebes. Mas os destinos decidiram que entre as coisas indispensáveis à raça humana figurassem alguns desejos insensatos. Não haveria homens sem o amor. Nem a ciência, sem absurdas ambições...”

Fedro expõe as idéias de seu amigo Eupalinos, lembranças das construções de Pireu. Eupalinos dizia que “não há detalhes na execução”. Talvez o arquiteto Mies Van Der Rohe tenha se inspirado nesta frase ao afirmar que “Deus está nos detalhes”, ou ainda na frase de Voltaire que dizia que “ a poesia é feita apenas de belos detalhes”. Apesar de que Deus não existe para Paul Valéry. Os diálogos são, na verdade, pensamentos do poeta francês e não dos filósofos gregos ou do arquiteto Eupalinos, que mais tarde descobriu-se ser um empreiteiro de obras do aqueduto de Atenas.

Valéry descreve a arquitetura e a música como artes possíveis de produzirem espaços, corpos que não estão limitados ao ângulo da visão. A música constrói no nosso corpo um espírito de liberdade. Às vezes ascendemos além do nosso próprio corpo. Esquecemos até mesmo das sensações do nosso ouvido. Já o arquiteto cria um corpo no qual habitamos, vivemos por dentro dos labirintos projetados por outro alguém ávido de tempo. O arquiteto substitui a realidade pela fábula. “Logo é razoável pensar que as criações do homem se realizam, ou bem em função de seu corpo, e aí está o princípio que chamamos utilidade, ou tendo em vista sua alma, e aí está o que ele persegue sob o nome de beleza...” Afinal, diz Sócrates, os deuses não devem permanecer sem teto, e as almas, sem espetáculos.

Em “Histórias D’Anphion”, o poeta confessa a influência que a arquitetura causou no início de sua formação. O ato de construir significa para Valéry o propósito mais nobre do homem. “Um edifício terminado nos expõe, num único olhar, uma soma das intenções, das invenções, dos conhecimentos e das forças que sua existência implica; ele manifesta à luz a obra combinada do querer, do saber e do poder do homem”. Sócrates gostaria de ter sido um arquiteto, um construtor que, “primeiro, desdobraria todas as questões, desenvolveria um método sem lacuna. _ Onde? _ Por quê? _ Para quem? _ Para quê? _ Quais as dimensões? _ E, assaltando de todo lado meu espírito, eu determinaria, no mais alto nível, a operação de transformar pedreiras e florestas em edifícios, em equilíbrios magníficos...”

É possível imaginar os templos ou teatros criados no estilo socrático. Sócrates e seu discípulo Fedro conversam à beira de um tempo que não mais existe, à margem das sombras altas de um céu azul de fantasmas; e tudo que eles disseram é apenas um jogo natural do silêncio de um outro mundo. “Nisto, consiste, rigorosamente, a imortalidade”.

ABC de Pound

Clauder Arcanjo
clauder@pedagogiadagestao.com.br
Engenheiro, escritor, poeta e cronista

Resolvi reler o ABC da Literatura, de Ezra Pound. Vi-me com uma vontade enorme de revisitar os ensinamentos do autor de Os cantos. Meu exemplar é da Cultrix, com tradução de Augusto de Campos e José Paulo Paes. Publicado pela primeira vez em 1934, o ABC of Reading (na versão brasileira, ABC da Literatura) é considerado o manual por excelência da didática poundiana. Tido por Marshall McLuhan como “ao mesmo tempo a mais curta e a mais densa avaliação da poesia inglesa”.

Na abertura, uma advertência de Ezra Pound: “Este livro não se destina aos que chegaram ao pleno conhecimento do assunto sem conhecer os fatos.” O velho Pound, sempre polêmico, todavia perspicaz e arguto como poucos. Da parte inicial, “Como estudar poesia”, colhi alguns achados que faço questão de ressaltar. Vejamos. “O autor espera seguir a tradição de Gaston Paris e S. Reinach, isto é, elaborar um manual que também possa ser lido ‘tanto com prazer como com proveito’ pelos que não estão mais na escola; pelos que nunca freqüentaram uma escola; ou pelos que, em seus dias de colégio, sofreram aquelas coisas que a maior parte da minha própria geração sofreu.”

“Uma palavra especial para os professores e lentes se encontra no final do volume. Não estou semeando espinhos frivolamente em seu caminho. Eu gostaria até de fazer com que os seus encargos e a sua vida se tornassem mais alegres e de preservar até a eles próprios de inútil caceteação numa sala de aulas.” — adverte Ezra.

Pound tem a preocupação de “separar drasticamente o melhor, de uma grande massa de obras, que têm sido consideradas válidas há muito tempo, que têm oprimido todo o ensino e que são responsáveis pela idéia corrente, extremamente perniciosa, de que um bom livro deve ser necessariamente um livro chato”. Logo depois ele vocifera: “Precisa-se de uma boa poda, se é que o Jardim das Musas pretende continuar a ser um jardim.”

Um livro é clássico, segundo Pound, “devido a uma certa juventude eterna e irreprimível”. Defende o método comparativo para separar o joio do trigo na poesia, método esse tão afeito aos biologistas, contudo é sabedor, por sua vez, que “um manual não é lugar para nada que possa ser bem ou mal interpretado como uma queixa pessoal”. Cada obra, por si, apresenta e dá crédito a um autor, é um dos credos de Ezra. “A referência de um escritor é o seu ‘nome’. Depois de um certo tempo ele passa a ter crédito”. Este pode ser sólido ou não, dependendo da qualidade do que produz. Trata-se de um livro recheado de bons preceitos. Simples, diretos, elucidativos. “Literatura é linguagem carregada de significado. Grande literatura é simplesmente linguagem carregada de significado até o máximo grau possível.” Logo depois, declara: “Literatura é novidade que permanece novidade.”

Pound volta-se basicamente para a poesia inglesa, teme sobremaneira os maus vates, e anuncia sua presença universal: “A poesia medíocre, no fim das contas, é sempre a mesma em toda parte.” “A má poesia é a mesma em todas as línguas”; bem sabemos.

Ezra Pound defende a importância da literatura para uma coletividade. “A linguagem é o principal meio de comunicação humana. Se o sistema nervoso de um animal não transmite sensações e estímulos, o animal se atrofia.” Em um de seus credos, ele sentencia: “Um povo que cresce habituado à má literatura é um povo que está em vias de perder o pulso de seu país e o de si próprio.” E advoga que “os bons escritores são aqueles que mantêm a linguagem eficiente. Quer dizer, que mantêm a sua precisão, a sua clareza. Não importa se o bom escritor quer ser útil ou se o mau escritor quer fazer mal”. E arremata: “Se a literatura de uma nação entra em declínio a nação se atrofia e decai.” Ao tempo em que conclama “o homem lúcido” a não “permanecer quieto e resignado enquanto o seu país deixa que a literatura decaia e que os bons escritores sejam desprezados, da mesma forma que um bom médico não poderia assistir, quieta e resignadamente, a que uma criança ignorante contraísse tuberculose pensando que estivesse chupando bala”.

Há também ensinamentos para os que laboram na crítica. Dentre muitos, alguns causaram-me espécie. Em especial: “O crítico que não tira suas próprias conclusões, a propósito das medições que ele mesmo fez, não é digno de confiança. Ele não é um medidor mas um repetidor das conclusões de outros homens.” “O mau crítico se identifica facilmente quando começa por discutir o poeta e não o poema.” “O crítico honesto deve contentar-se em encontrar uma parcela muito pequena da produção contemporânea digna de atenção séria; mas deve também estar pronto para reconhecer essa parcela, e para rebaixar de posto uma obra do passado quando uma nova obra a supera.” “A preguiça está na origem de muitos erros de opinião.” “O ignorante de uma geração se põe a baixar leis e os meninos crédulos da geração seguinte tratam de obedecê-lo.”

Ao passo em que os classifica, Pound tem uma certeza: “Há uma qualidade que une todos os grandes escritores: escolas e colégios são dispensáveis para que eles permaneçam vivos para sempre.” Ezra enumera alguns autores tidos como fundamentais para quem quer conhecer a grande literatura. “Vocês devem ler tudo o que quiserem. Mas em vez de esperar que eu ou qualquer outro lhes diga o que há numa página, vocês devem aprender a ver por si próprios” — pondera. Dificilmente é peremptório, como quando se refere a Ésquilo, “penso que todo homem animado de uma razoável curiosidade literária há de ler o Agamenon de Ésquilo.” Mas, enquanto “material de leitura”, Pound não crê que “os dramaturgos gregos cheguem aos pés de Homero”. Quando o tema é versificação, defende: “O meio de aprender a música do verso é escutá-la.” Para logo depois proclamar: “A música apodrece quando se afasta muito da dança. A poesia se atrofia quando se afasta muito da música.” Ou seja, o leitor deve buscar a “límpida musicalidade”, e tão-somente poderá encontrá-la “com ouvidos e olhos atentos”. Se não descobri-la sozinho, “explicação alguma o fará compreender”.

Pespontando o pequeno tomo, brilhantes ensinamentos, infelizmente ainda desprezados por muitos homens de letras. “A incompetência se manifesta no uso de palavras demasiadas.” “O homem que realmente sabe pode dizer tudo o que é transmissível nalgumas poucas palavras.” “O problema de usar a maneira ou ‘estilo’ de outro homem é muito simples. O bom estilo coincide com o pensamento do escritor; tem a forma do pensamento, a forma do modo por que o homem sente seu pensamento.” “Quem perde suas palavras perde seu tom.”

Ezra Pound, no ABC da Literatura, universalizou um dos seus credos mais conhecidos: “Os artistas são as antenas da raça.” Pois os “artistas e os poetas indubitavelmente ficam excitados e ‘superexcitados’ pelas coisas muito antes do público em geral”. Enfim, leitor lúcido, “olha dentro do teu coração e escreve”, e lê, pois graças a Pound, ficamos mais conscientes de que não há nação soberana com literatura medíocre.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A revolta poética de uma alma complexa

Jairo Pereira
jairopereiraadv@hotmail.com
Escritor

Em Sylvia Plath poeta. Agente de seu destino. Ou em Ariel o livro de poemas. Produto de uma vida convulsa. Confissão, imagismo e ficção poética se completam com extrema eficiência. Uma vida que se conta pelos poemas e traz mnemônicas imagens de submissão e rebelião. Aos trinta anos (em 1963) a poeta norte-americana totalizava seu existencial e se despedia da vida, mas não da poesia, produzindo ecos nas gerações posteriores, conquistando adeptos e leitores nos mais diversos países.

Complexa como sua alma, a poesia dessa artista ainda provoca dúvidas sobre o seu fazer poético: “confissão” ou “conficção”, “imagismo plathológico” ou “poema-performance”? Creio que todos ao mesmo tempo e mais alguns que serão pouco a pouco destilados nas exegeses de cunho acadêmico, marginal ou diletante. Qualifico minha análise, neste micro-ensaio, de marginal-poética, portanto haurida de visão pessoal e leitura recente. A tradução de Ariel, feita pelo poeta Rodrigo Garcia Lopes e pela estudiosa Maria Cristina Lenz de Machado, fidedigna ao original, valoriza o livro de Plath, sem quaisquer perdas e antes dos cortes do marido (o poeta Ted Hughes) feitos na edição de 1965. Rigorosa apreensão do pathos poético da autora, transferindo-o pra nossa língua. Vale lembrar que traduzir importa em transcriar: exercício dos sentidos de tomada do espírito do autor no seu essencial poético transpondo-o para outro idioma.

Importante salientar o trabalho anteriormente realizado por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça na tradução pioneira de Poemas, que saiu pela Iluminuras em 1990, onde se pode apreender dois ensaios escritos ao final pelos tradutores (respectivamente “Sylvia Plath: delírio lapidado” e “Sylvia Plath: técnica e máscara da tragédia”) o retrato existencial e de artista dessa poeta extraordinária.

Não há como se evitar, em análise-relâmpago, a força de poemas como ”Ariel”, que dá título ao livro, e cavalo oculto galopa apuros técnicos extremados. O “cavalo” que o poema induz/ser, pode também metaforizar a própria vida da poeta, flecha atirada, suicida, “contra o olho vermelho, caldeirão da manhã”. A vida, frágil e breve, lançada à existência — e, por conseqüência, à morte — pelo suicídio. De outro ângulo: um cavaleiro, e só um cavaleiro, é capaz de sentir o que sentiu a poeta, de num galope cancha reta, lançar-se ao anoitecer aos espaços, rumo a um horizonte indefinido, compondo com o animal, o bólido musculado de intensa força. Há urgência em tudo. Urgência em delatar poeticamente. Urgência em viver e morrer.

“Me arrasta pelos ares-/Coxas, pêlos;/Escamas de meus calcanhares”. “Ariel” é composto de dez tercetos, com a finalização apoteótica do verso: “Vermelho, caldeirão da manhã”. Esplêndido poema que, à primeira vista, nos parece enigmático.

Nos demais poemas que compõem o poemário certos símbolos reincidem: a lua, o sangue (negro), árvores (teixo, olmo, entre outras), bebês, peitos, remédio, enfermeira, médico, vermes, morte, abelhas, bonecas, crianças, gazes de curativos. Em “Purdah” se percebe da mulher melancólica, enigmática, de visão naturalista ou patológica, pantotal, mortal, neurótica, confessional, recorrente à infância e seus bebês recusados. “De um verde Adão, eu/Sorrio, de pernas cruzadas,/Enigmática”. Vou anotando assim o que senti em alguns poemas, sem o rigor acadêmico, mas no prazer do leitor/poeta, livre. Em Amnésico: vê-se bebês/brinquedo, enfermeira/vermes/médico, tocar seios/corpo/irmã e bebidas que se transubstanciam, queimando e espumando. Os signos hibridizam uma visão real/fática e o fantasmagórico da construção mental. Essa a grande arte de Sylvia Plath: transformar um real opressor, de um nada poético, em elevada poesia.

Claro que pra fazer isso, ela dispunha de técnica/domínio lingüístico e imaginação criadora, aplicada aos seus limites. Há sim, limites e deslimites na visão poética, que um fato (uma acontescência existencial) instala no agente criador. Além do que, a poeta joga incansavelmente com os extremos, de imagens contrárias, chocantes nos significados. E nunca recuando dos núcleos de significação, tematizados ao rigor dos mestres. “Talidomida” tem versos crus, como: “Âmnio sangrento das ausências. / Toda noite eu teço”. Ou esses outros: “Da indiferença! / Os frutos escuros giram e caem. / O vidro se espatifa, / A imagem / Foge e aborta como gotas de mercúrio”. Sempre, algo de trágico, de rompimento e morte, delatando o irreversível, o que foi não volta mais como ameaça de opressão e desamor.

No poema “Papai” assistimos, como em “Lady Lazarus”, “40 Graus de Febre” e outros, a reconstrução da mulher ferida, filha dileta da opressão. “Papai” é uma aula de exorcismo poético. “Com cola foram me refazer. / E então soube o que fazer. / Fiz um modelo de você, / Um homem de preto com um quê de Meinkampf”. A vítima arquetípica (Plath na pele de uma mulher judia) e o duro rebate ao pai e o acerto de contas, na última estrofe do longo poema: “Papai, papai, seu puto, eu acabei”. Em “O Candidato”, a mulher-objeto (“uma boneca de carne”) é descrita por metonímias: peitos de borracha, ataduras, suturas. Poema cínico, uma resposta à altura pela crescente transformação da mulher em objeto, coisa, imagem a ser explorada, objeto de consumo.

Presente em vários poemas está a experiência da maternidade, de hospitais: como em “Canção da Manhã”, poema que abre o volume, dedicado ao nascimento da filha, Frieda: o símbolo bebê pode representar a vida em estágio inicial, ante a avalanche de perigos, e a seta mortífera do opressor, repetido poema a poema. O frágil, frente ao monstruoso e desconhecido: “Num museu arejado, ......”. Importante notar que, nos poemas de Sylvia Plath, as metáforas nunca se escancaram em significação ao leitor, mas sinalizam caminhos, visões, denúncias, urgências. Pistas.

Como raros poetas, Sylvia Plath soube servir-se das imagens de sua breve vida para compor uma obra forte, brutal até, no seu conteúdo (vide poemas como “O Carcereiro”). Agressiva, pela linguagem quase-clássica, sem invenções provocadas. Como uma química de fundo de quintal que, bolindo seus apetrechos e substâncias naturais, vai compondo óleos, suspensões, cápsulas, comprimidos e ungüentos milagrosos, a poeta aproveita o tudo de sua vida, convertendo-o com maestria em poemas. Certíssimo que essa seleção consciente e inconsciente dos símbolos prestigia o essencial, tanto de um viver as coisas, como de imaginá-las, transpô-las ao mundo das linguagens. É disso que se faz a grande poesia. Desse amontoado de símbolos, que entornam e fazem parte da vida e do imaginário do poeta. Cada qual com suas formigas de estimação, aleijões fixados na alma, perquirições inúteis, perceptos acelerados a caminho do nada...

Sylvia Plath consegue metaforizar em forma humana a nathureza, não só nesse poema “O Caçador de Coelhos, mas em outros na obra. O corpo disso, o corpo daquilo, que tomava formas humanas e enternecia ou aterrorizava. “Era um lugar de força — / O vento amordaçando minha boca com meus cabelos revoltos, / Arrancando minha voz, e o mar / Me cegando com suas luzes, a vida dos mortos / Se desenrolando nele, se espalhando como óleo”. Sempre é uma nathureza que toma corpo, reage, persegue e impõe beleza e aniquilamento. Negativa a visão de vida que nutria a poeta. Negativa de só carregar o fardo da opressão de pai, de marido, de poder estatal, de forças naturais avassaladoras, que repercutiam diretamente no eu, vulnerando-o. Um produto dos anos Einsenhower, de um ambiente de alta competividade, e de uma busca obsessiva por ser a melhor em tudo: a melhor aluna, filha, poeta, depois mãe e esposa. Essas cobranças acabaram vulnerando-a por toda a vida breve de artista. Quase um encosto, de patológica ação, cercava a poeta desde bebê, e prosseguia na infância (pai morto em circunstâncias tragi-cômicas, criança rejeitada) entre perigosos brinquedos, traumas, associações terríveis, pesadelos, psiquismos... Esse o entorno da artista, que deu origem a seu acervo riquíssimo de signos, símbolos, sinais pra denotar a vida em palavras.

Podemos dizer que Sylvia Plath tomou as rédeas de sua vida, dominando-a e sendo dominada pelo mundo exterior. O ser/poeta/filósofo de ação empírica que, sem o apoio de Deus, insiste em alquimizar o duro destino. Não há um pedido sequer de proteção, ou guarida a uma entidade superior, que viesse diminuir o pesadelo e a dor da poeta. Mas como transmutá-la em arte? Essa a questão para Plath, já que ela própria desconfiava da poesia como “grito do coração”. A mesma trouxe pra si, a responsabilidade do revide (vingança artística e terrena através da palavra poética) ao que se era quase-impossível de se revidar, como criança, adolescente, mulher e poeta naquele mundo. Potência e impotência foram signos de presença constante na vida e nos poemas da artista. Com suas catanas, afiadas no sofrimento, Sylvia Plath, rebateu as forças opressoras que a sugavam, um tanto a mais, do que conseguiria qualquer filósofo, escudado só na razão. A força de poeta, advém da adversidade e de transcendências não-identificáveis, variantes de um instinto primário de ação e reação.

Em “Lady Lazarus”, belíssimo poema longo, um dos pontos altos do livro, a poeta evoca imagens fortíssimas, como “a leprosa desenfaixada”, “pele e osso”, “violentada aos 10”, “vermes como pérolas grudentas”. A mulher que marca o tempo, devendo tentar um ano em cada dez, e já estava com trinta. O fato da poeta denotar/identificar o tempo, induz consciência atenta aos signos que a marcavam. Consciência seletiva na qualidade simbólica do que seria sua obra e o aproveitamento do lixo/suspiro/existencial. Novamente, o rebate contra o inimigo, se opera nesse poema. “Dispa o pano / Oh, meu inimigo. / Eu te aterrorizo?”, pergunta, sem resposta, ao terror que atravessa a vida da poeta. “E eu uma mulher sempre sorrindo. / Tenho apenas trinta anos. / E como o gato, nove vidas para morrer”. Fortíssima a imagem ao final do poema (“Lady Lazarus”), que evoca a ressurreição da mulher-oprimida, a qual sem piedade, retorna pra devorar o superinimigo: “Saída das cinzas / Me levanto com meu cabelo ruivo / E devoro homens como ar”. Em ato de ressurreição, a poeta volta aos ajustes, ainda não finalizados em vida pela palavra poética. Magnífica apreensão do ódio, dos efeitos da opressão no ser, que transferidos com o corpo ao além, comparecem novamente ao mundo terreno aptos à plena realização da vingança. É de se admitir que Sylvia Plath venceu a vida no esmero de sua produção poética, impondo ao mundo uma personalidade in-descartável, ao contrário dos seus bebês de estufa e sacos plásticos, ou mulheres dentro de garrafas, símbolos semelhantes nas suas visões convulsas da nathureza e do humano.

Anexo: Poema Ariel lido por Sylvia Plath

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Memórias constrangedoras

Rodrigo C. Vargas

"A voz dos animais serve unicamente para expressar a vontade, em suas excitações e movimentos, mas a voz humana serve para expressar o conhecimento." (Schopenhauer)

O telejornal de maior audiência no Brasil abriu a noite do último dia 22 contando a história de uma mãe que decidiu construir uma cela dentro de casa, para impedir o filho viciado em crack de sair. Uma especialista foi convocada para explicar o caso e conversou com os apresentadores. Falou da droga e sua potência, do quanto é difícil lidar com a situação dentro de casa, deu dicas, mas nem tocou no óbvio: por quê?

O tempo de televisão é caro e o desse telejornal específico chega a custar mais de 300 mil reais, apenas 30 segundos. Mas se podem oferecer um programa inteiro ao espetáculo agendado (queda de aviões comerciais - morte do Papa ou Michael Jackson - olimpíadas), por que não ir fundo nos assuntos sugeridos? Deleuze explica que a imagem não é objeto mas sim processo, e que esses equipamentos tem palavras de ordem clichês de uma sociedade de controle, por isso apenas reforçam suas necessidades.

Esse artigo não tem a pretensão que o telejornal teve. Não busca responder uma questão médica e individual assim, de forma rápida. O que não apareceu na matéria por conveniência, é o que está levando jovens ao suicídio ético, moral e físico na maioria dos casos: o consumo e o medo.

Não há como tocar nesses dois assuntos num ambiente claramente construído sobre essas bases. Assassinatos aqui – bombas ali – Nobel da paz - corta – intervalo (compra carro tal – abra uma conta neste banco – use essa marca – beba a cerveja que desce redondo) volta do intervalo - policia invade morro – drogas – futebol – corta! Imperativos imorais. Essa prática interfere sim nas relações sociais e comete um equivoco irremediável de achar que vale tudo em nome do mercado livre.

No mesmo dia, crianças da quarta série de uma escola pública do interior gaúcho brincavam de traficante em plena sala de aula, usando giz em pó embalado para substituir a cocaína. Esse desarranjo espacial em que tudo é desconforto e estranho, não é novidade. É chamado por Nietzsche como a morte de Deus. O fim do sentido comum e o nascimento de um outro, onde não há espaço para a compreensão tradicional. É nesse contexto claustrofóbico que a comunicação deve atuar sem memórias constrangedoras.

Liberdade é ter o real controle sobre as escolhas, e não fazê-las achando que tem. A liberdade é a essência da possibilidade humana de existir, mas ela não pode sucumbir diante de um meio que desloca de seu eixo num revezamento cínico entre o fim e o começo.

A diferença entre o rato e o homem é a capacidade de comunicação da espécie. Foi essa ferramenta que nos manteve vivos, e não pode ser usada para aprisionar as massas. As redefinições nietzschianas do homem apontam sermos "o animal mais corajoso", o animal "mais cruel" e o animal "mais sofredor". Por que deixamos que abusem apenas das duas últimas espectativas?

Não é mais possível viver numa sociedade fundada na desconfiança. O consumo deve ser questionado. Quase que a totalidade da violência que somos obrigados a comprar diariamente é financiada pelo consumo. Não é a fome nem a miséria, é o petróleo, os minerais, as pedras preciosas, os negócios que matam e fazem matar. Uma vida por um tênis.

Ainda tem apresentador com coragem de dizer boa noite!

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O silêncio, em Nelson Pereira dos Santos

Dinara G. Machado Guimarães
dinaraguimaraes@ig.com.br
Psicanalista, doutora em comunicação e cultura pela UFRJ

O neo-realismo italiano, que foi adotado por cineastas brasileiros, corresponde à resolução de filmar fora dos estúdios, dando ênfase ao realismo, com precisa observação de uma paisagem e o tratamento adequado das personagens, em uma boa integração entre o que se mostra e o que se diz. Nelson Pereira dos Santos, ao mesmo tempo, sustenta-se do movimento do neo-realismo italiano e consegue acrescentar-lhe elementos, indo ao sertão buscar as Vidas secas, obra-prima de Graciliano Ramos, e tema do seu filme homônimo, Brasil, 1963, uma obra referencial do movimento do Cinema Novo no Brasil. Nesta antropofagia, a obra de Santos, já histórica, levou ao espectador uma viagem pela zona agreste do Nordeste brasileiro, com paragens impressionantes.

O filme é um marco feliz da apropriação da literatura pelo cinema. Primeiro, o cineasta usa a palavra rarefeita do romance, introduzida no filme como uma pontuação dos poucos diálogos episódicos, esporádicos. Segundo, aproveita o gemido do carro de boi. A terceira razão é a histórica seca, com os problemas no domínio da falta de direitos privados e de responsabilidades públicas, no filme chamado social, cujo engajamento ideológico é evidente.

O modo de filmar de Santos, naquele momento das vidas secas, fica por conta da forma sucinta de narrar e da exploração do silêncio no simbólico – a grande contribuição de Ramos à narrativa literária que, pelo silêncio, age. É desta tendência que vem parte dos méritos do filme, ao mostrar o que se passa durante o período da seca, tendo como centro Fabiano (Átila Iório); a mulher, sinhá Vitória (Maria Ribeiro); os dois filhos; a cachorra de nome Baleia; e o papagaio.

O retirante, renegado, “anda no mato, furando as caatingas”, escreve José Lins do Rêgo. Desamparado, exposto diretamente ao sol ardente, o branco, o sol do filme, concede-lhe o calor sem sombra, prefigura o êxodo de terra em terra à busca de trabalho e abrigo da seca. Tudo nele é o silêncio de pouca fala, porém, muito desejo de ir longe. Algumas vezes, em meio ao silêncio intermitente, pelo diálogo entre o casal, que raramente troca palavras, ouve-se a fala da companheira, a sinhá Vitória: “Se ficasse calada seria como um pé de mandacaru, secando, morrendo – pouca, mas além”. Ao término do filme, o casal sai, retirando-se em fuga da seca, mais uma vez, caminhando como se não soubesse para onde, outra vez... É a mesma questão do sonho do filho no velório do pai morto: “Pai, não vê que estou queimando?”; na Interpretação do sonho, de Sigmund Freud.

Constantemente, o artista, querendo dizer um Real, ou dizer o “impossível” de ser dito, acaba, paradoxalmente, por destacar este impossível, ou o Real, a partir do Simbólico, já que, segundo Jacques Lacan evidenciou, o Real está em continuidade e descontinuidade com a ordem da palavra, o Simbólico; ele ex-siste ao Simbólico.

Ao longo das vidas secas, perfaz-se o silêncio. Pode-se ouvir-lhe o gemido do carro de boi. Ele vem de longe. Parece chamar os retirantes até a terra longínqua perdida na linha do horizonte; de perto, delimita a terra que não lhes pertence, nem a quem chega, e os afugenta. Com isto, evoca o direito de propriedade que ancora o sistema organizado na indústria da seca, ampliando as contradições que revelam por meio das tensões entre a propriedade privada e a produção, a apropriação e a desapropriação, a riqueza e a pobreza, a polícia e a justiça, a verdade e a morte da palavra.

O público que segue o desenrolar da história da miséria na seca, longe, pode indagar sobre o sentido de ações que remetem a outras épocas, mas acrescentando algo de significativo ao seu entendimento no presente.

Certamente a questão legal relativa àquela determinada região no Nordeste, levanta a problemática da justiça e da verdade no geral, à medida que a exposição realista do desterrado mostra as rupturas de contrato sucessivas no mundo fabiano e que vão deixando-o sem a menor possibilidade de chamar em ajuda qualquer outro, já ele é sem direitos.

O primeiro desmantelamento deste pseudo-estado de direito dá-se diante do soldado Amarelo, o representante da lei, e também um transgressor. De um momento para o outro, surpreendido como um enganador da verdade e um injusto, o Outro da lei, a quem se acredita poder confiar, cessa de ser confiável. Para Fabiano, a justiça é aquele cinturão. Ele vai preso, sofre maus-tratos, apanha e sente a dor na própria pele. Sem poder justificar o seu mais completo abandono, fica como uma criança no estado do desamparo e dependência da mãe. Diante da violência, onde quer que tenha mais força, na relação entre os poderosos e os oprimidos, lhe faltarão com os direitos e as obrigações de cidadania. E já é privado da Terra-mãe.

A expressão estética se manifesta pelo ritmo organizado em torno do tempo de leitura dado, para tornar legível, através do silêncio, as relações profundas. O que não é possível dizer, mostra, preconiza de certa forma, o filme. Ademais, no céu as nuvens do sertão desértico, o vazio invoca muita coisa mais. Até nos dias de hoje, quem escuta as ressonâncias do gemido desprendido dos confins mais imediatos da tela, perturba-se. Arranca poderosamente os ouvidos das harmonias costumeiras. E já afeta várias gerações, como voz (a)significante: isso cala a ameaça de um mundo sem direitos, um Auschvitz entre nós.

Anexo: Trecho de Vidas Secas (1963) baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos.

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