sexta-feira, 22 de maio de 2009

Lettra que te quero lettra


Glauco Mattoso
glaucomattoso@uol.com.br
Poeta, ficcionista e ensaísta

Nessa bagunça que characteriza a orthographia reformada desde a década de 1940, a toponymia brasileira offerece um complicador a mais. Temos nomes geographicos typicamente portuguezes, como Santa Catharina, Minas Geraes e Matto Grosso, convivendo com toponymos tupys, como Parahyba, Goyaz e Sergipe. Si as reformas fossem applicadas systematicamente, tanto uns como outros seriam violentados: Mossoró viraria "Moçoró", Pirassununga viraria "Piraçununga", Jahu viraria "Jaú", Piauhy viraria "Piauí", Mogy Guassu viraria "Moji Guaçu", Sergipe viraria "Serjipe", Bagé viraria "Bajé" e Bahia viraria "Baía", victimas das mutilações, juncto com os catharinenses, mattogrossenses e goyanos. Apenas os bahianos bateram o pé e se recusaram a ser chamados de filhos da "Baía", emquanto outros cidadãos brasileiros tiveram que engolir "Curitiba" em logar de Curityba, "Cuiabá" em logar de Cuyabá, "Vitória" em logar de Victoria, "Teresina" em logar de Therezina, ou "Belo Horizonte" em logar de Bello Horizonte.

A cidade de Niteroy poderia, si quizesse, invocar a tradição para reivindicar a graphia "Nictheroy", a mais usual dentre as varias formas encontradiças ha cem annos: "Niteroy", "Nicteroy", "Nitheroy", "Nyteroy", etc. Na historia da litteratura brasileira ha pelo menos dois poemas com o titulo de "Nictheroy", um do padre Januario da Cunha Barbosa, outro de Firmino Rodrigues Silva, e é dessa forma que Bilac os registra em seu "Tractado de versificação". Por seu turno, Julio Nogueira, no "Manual orthographico brasileiro", registra que Capistrano de Abreu graphava "Nyteroe", mas resalva que essa graphia tambem seria erronea.

Pelas regras do systema que adopto, os termos de origem indígena empregavam o "Y" em dois casos: nas syllabas tonicas (precedido de "H" nos hiatos) e nos diphthongos, como em "Itatyba", "Carapicuhyba", "Sapucahy", "Sapucaya", "Itatiaya", "Atibaya", "Ituyutaba" ou "Tuyuty". Verdade seja dicta que, como toda regra, esta admitte excepções, ante os exemplos de "Camaragibe", "Cambuquira" ou "Sergipe". Mas o importante, aqui, é que os encontros consonantaes "CT" (typico do latim, como em "nocturno") e "TH" (typico do grego, como em "mathematica") seriam, evidentemente, extranhos ao tupy aportuguezado, no qual a unica forma correcta para o nome da cidade fluminense é Niteroy. Em todo caso, tudo, menos "Niterói", como se ve escripto agora.

Occorre que, na orthographia etymologica, aquillo que se crystallizou pela tradição pode valer mais que o resultado duma analyse scientifica. Assim, si Bagé conseguiu conservar seu "G" e a Bahia seu "H", por que não dar a Niteroy o direito de officializar a graphia Nictheroy?

Discussão maior poderia render o proprio nome do paiz, que hoje escrevemos com "S" e os inglezes com "Z". Mas elles o fazem porque nós mesmos usavamos "Brazil" no tempo do imperio e na primeira metade do seculo XX. Conservadores que são, não mudaram a graphia, emquanto nós ficamos aqui nesta crise de identidade. Ja o caso de Brasilia, que nasceu escripta com "S", passou assim para os inglezes, que, portanto, jamais escreverão "Brazilia", nem que, na nossa proxima reforma, adoptemos o "Z" nesses toponymos. Em tempo: Aulete e outros auctores registravam tanto "Braz" como "braza" com "Z". Mas, a rigor, apenas em caso de consoante final se exigiria tal graphia (como em "gaz", "giz", "mez" e "puz"), donde a obrigatoriedade de grapharmos "Braz" e a liberdade de optarmos por "Brazil" ou "Brasil", tendo Julio Nogueira preferido com "S".

Peor, porem, fica a questão dos adjectivos. Até os orgulhosíssimos bahianos se submetteram ao incoherente tractamento de "baianos" quando da reforma orthographica, da mesma forma como os corinthianos acceitam ser tractados de "corintianos"... ainda que ninguem concorde com as graphias "Baía" e "Coríntians"! Deante dessa subtil circumstancia, qual deve ser a reacção dos acreanos, agora que os reformistas de plantão scismaram de adoptar a graphia "acrianos" para os filhos do Acre? Sorte dos sergipanos, que, alem de conservarem seu "G", nunca se denominaram "sergipeanos": caso fossem submettidos aos rigores reformisticos, teriam que se considerar "serjipianos"! Ja pensaram?

De minha parte, o systema etymologico estava adoptado desde o primeiro livro de poesia ("Apocrypho Apocalypse", de 1975), mas acabei fazendo concessão ao systema phonetico a partir de 1981, quando alguns livros passaram a sahir por editoras commerciaes, e até o final de 2008 practiquei o phoneticismo para não difficultar a divulgação da obra poetica. Ultimamente, baptizei de "Serie Mattoseana" a collecção dos livros de sonetos, mas ainda graphando como "Série Mattosiana". Si fosse agora, a partir de 2009, adjectivos como "petrarcheano", "camoneano", "bocageano" ou "mattoseano" levariam, de minha penna, "E" em vez de "I". Não é o caso de "gregoriano" ou de "victoriano", cujos substantivos já trazem o "I".

Tudo, emfim, é questão de bom senso e de preservação do "graphosystema", que, tal como o "ecosystema", necessita de activistas que de facto practiquem o que theorizam, e não de proselytos que só abraçam a causa da bocca para fora. Si encaro o portuguez escripto como encaro a matta atlantica, não basta manter bem climatizada a minha bibliotheca: tenho que semear mais livros, a mancheias, como Castro Alves, todos escriptos na boa, velha e chlorophyllatica orthographia etymologica! Fallei e disse!

2 comentários:

Christiane disse...

Oi!

Como você fez para apprender a orthographia etymologica? Você recommenda algum livro?

João Costa. disse...

Confesso que adoro e amo com todas as forças esta tão imponente orthographia com a qual meus avós escreviam e que era sim a unica que tinha razões de ser e não fructo de invenções e processos artificiaes deturpadores.Pena é que o não mais voltará esse tão bello e excelso systema orthographico que um dia foi official na nossa lingua portugueza.

Parabén, amigo pela postagem d'este texto que lembra que um dia houve o explendor da graphia portugueza e salve ao grande e incomprehendido Glauco Mattoso.