domingo, 22 de março de 2009

Pequenas epifanias de Clarice

Miguel Leocádio Araújo
Graduado em Letras pela UFC
Especializado em Investigação Literária pela UFC
Mestre em Literatura Brasileira pela UFC

Quando lançou Felicidade clandestina (1971), Clarice Lispector (1920-1977) já era uma escritora consagrada. Com vários romances, livros de contos e crônicas escritas para jornais, ela decide dar destino a um material já conhecido de seu público.

Os 25 contos ali enfeixados haviam saído em A legião estrangeira (1964) ou como crônicas para o Jornal do Brasil, onde Clarice manteve uma coluna semanal, de 1967 a 73, completando-se com As águas do mundo, um trecho do romance Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969). Nenhum texto inédito, mas era como se fosse. O livro de 64 ofuscara-se pela publicação de A paixão segundo G. H., romance impactante, considerado uma de suas obras-primas, também de 64. Já as crônicas para jornal perdiam-se no tempo, levadas pelo imediatismo da edição do dia seguinte. Logo, o suporte do livro, ao retomar os textos, deu-lhes uma nova vida e uma permanência tão longeva quanto qualquer outra publicação da escritora, com seus temas mais caros e suas técnicas de composição tão peculiares.

Um das temáticas recorrentes é a infância, com suas experiências marcantes fixando-se na memória. Um exemplo: o texto que dá título à obra lança o leitor no universo do desejo inocente de uma menina por um livro. Uma vez de posse do objeto desejado, ela experimenta uma "felicidade clandestina" que a acompanhará por toda a vida, pegando-a de surpresa, provocando sensações inesperadas, como as "pequenas epifanias" de que falou Caio Fernando Abreu. Felicidade difícil e momentânea, porém forte.

Aliás, a infância protagoniza vários contos: um menino que se desestabiliza com a visão do dente de ouro e com o amor maternal de uma prima (Miopia progressiva); a garota que, num triste carnaval marcado doença da mãe, mesmo depois de ter sua fantasia de flor destruída, ainda é reconhecida como "uma rosa" e não como simples menina (Restos do carnaval); a ruivinha que se depara com um cão basset também "ruivo" e vê nesse encontro algo similar à descoberta da suprema afinidade entre os seres (Tentação); ou a menina que roubava rosas e pitangas por achar que estas "pediam" para serem roubadas em vez de permanecerem nos galhos e apodrecerem ("Cem anos de perdão"), entre algumas outras. Alguns destes textos são baseados em reminiscências da própria autora, conforme depoimentos de familiares colhidos por suas biógrafas. Trata-se então do vivido que é ficcionalizado, como se Clarice quisesse passar sua vida a limpo.

Também recorrentes são os animais, que aparecem como contraponto às personagens (pessoas), às vezes devolvendo-lhes uma humanização já esquecida. Assim, há galinhas, macacos ou insetos como a barata, que, vale lembrar, constitui a matriz deflagradora da experiência de mergulho em si mesma, da narradora-protagonista de A paixão segundo G. H.

Embora alguns textos apresentem ação, respeitando a etimologia do termo "conto", no sentido de relatar um fato acontecido, outros se fazem na exploração de uma atmosfera, um sentimento ou uma reflexão, contrariando o ato de "contar uma história". Em O ovo e a galinha, totalmente despojado de enredo, tomam-se os dois elementos do título como metáforas da existência, ao mesmo tempo em que representam os objetos e os seres tragados pela voracidade do olhar em busca de compreendê-los.

Neste sentido, é muito freqüente a associação da obra clariceana com a filosofia existencialista, representada sobretudo por Jean-Paul Sartre, autor do romance A náusea e do ensaio filosófico O ser e o nada. Os questionamentos existenciais, suas angústias e vicissitudes, estão associados à sondagem da vida interior das personagens e à própria elaboração literária, constituindo-se como metalinguagem consciente de seu lugar de procura, que mais pergunta do que responde, ancorando-se no cotidiano, como acontece em "Menino a bico de pena".

E é no cotidiano que se localiza a tão falada epifania clariceana, que nas palavras de Affonso Romano de Sant'Anna seria "o relato de uma experiência que a princípio se mostra simples e rotineira, mas que acaba por mostrar toda a força de uma inusitada revelação", apresentando-se como "iluminação súbita" na consciência das personagens, descortinando sua verdadeira condição. Fugazes e imediatas, essas epifanias, na verdade, nunca são "pequenas", pois guardam a tensão viva da clandestinidade dos afetos soterrados pelas máscaras sociais de cada um.

2 comentários:

Cláudia Ramos Carioca disse...

O texto é muito esclarecedor, fazendo um breve mas profundo incurso no mundo clariceano. Falar de suas epifanias não é fácil, ou melhor, entendê-las é que não é fácil, mas o Miguel soube fazer isso com maestria.

Carlos Eduardo Bezerra disse...

Miguel, como sempre, competente!