sábado, 29 de novembro de 2008

E o que vem depois?

Rodrigo C. Vargas

O que se discute politicamente e principalmente na grande mídia é o que quase sempre não afeta os interesses dos que estão no poder. A criação do Estado de Israel por exemplo, nunca foi questionada abertamente no Brasil, pelo menos não que eu me lembre. É evidente que é inadmissível o que aconteceu aos judeus durante a Segunda Grande Guerra, mas a criação de um Estado em pleno território palestino é como se os Tupis (índios que povoavam o Ceará no século XVI) retomassem a Aldeota (bairro nobre da capital cearense) sem que nenhum morador da região tivesse o direito de discutir sua retirada. O que isso quer dizer? Para entender melhor é preciso voltar para 14 de maio de 1948. Naquele dia, o Museu Nacional de Tel-Aviv recebia uma cerimônia aguardada pelo povo hebreu há 1.878 anos – desde que a destruição do Segundo Templo pelos romanos, em 70 d.C., acabou com a soberania dos judeus em Jerusalém e deu início à segunda diáspora dos seguidores de Isaac – e que iria mudar a vida de milhares de pessoas. A terra prometida estava voltando às mãos dos judeus. Lida por Ben-Gurion e assinada pelos 24 dos 37 membros da assembléia presentes, a declaração de independência buscou no passado histórico e no presente político as justificativas morais e legais para sua fundação. O documento proclamava a Terra de Israel o local de nascimento do povo judeu e dizia que a declaração de Balfour e a partilha das Nações Unidas, além do sacrifício dos pioneiros sionistas e da tormenta sofrida com o Holocausto, davam aos judeus o direito inalienável de estabelecer seu estado no Oriente Médio. O resultado foi a retirada forçada de 760 mil Palestinos que do dia para a noite se transformaram em refugiados, naquilo que ficou marcado na história como Naqba ou Dia da Catástrofe em árabe. Hoje, se contarmos os descendentes o número chega aos 4,5 milhões de refugiados.

Esse é um dos assuntos mais polêmicos do conflito israelo-palestino. Israel se opõe a qualquer sugestão de que voltem às suas terras. No dia 08 de maio desse ano, várias centenas de palestinos das áreas ocupadas da Cisjordânia, na cidade de Bethlehem, saíram as ruas cantando "o direito de retornar é sagrado". Em seguida fizeram uma marcha ao redor de um caminhão carregando uma chave de metal de dez toneladas simbolizando as casas que as pessoas perderam em 1948. É um genocídio anunciado. Pra se ter uma idéia, o físico Albert Einstein, o historiador Arnold Toynbee, o psicólogo e sociólogo Erich Fromm, o líder político Mahatma Gandhi e o filósofo e matemático Bertrand Russell, alertaram para uma possível zona de conflito permanente:

Einstein: “Os meus conhecimentos profundos da natureza fundamental do judaísmo repelem a idéia de um Estado judeu, com fronteiras, um exército e uma unidade de potência temporária, não importa por mais modesta que seja. Receio os danos que o judaísmo sofrerá, especialmente do incremento de um nacionalismo mesquinho dentro de um Estado judeu”.

Toynbee: “Desde o estabelecimento do Estado de Israel, o colonialismo israelense é um dos casos mais negros da história geral do colonialismo na idade moderna e posto em relevo pela nossa própria época. Os colonialistas da Europa Oriental praticaram o colonialismo na forma extrema de desalojar e expulsar os árabes nativos, no mesmo momento em que os povos da Europa Ocidental renunciavam a sua dominação temporária sobre os povos não europeus. (...)A tragédia da história judaica recente é que, em vez de aprenderem com o sofrimento, os judeus iriam fazer a outrem, os árabes, o mesmo que lhes tinham feito outros, os nazistas”.

Fromm: “Acredito que, politicamente falando, só há uma solução para Israel, isto é, o reconhecimento unilateral do compromisso do Estado para com os árabes – não para ser utilizado como um ponto de negociação, mas para reconhecer o total compromisso moral do Estado israelense para com os antigos habitantes da Palestina. (...) E o direito da cidadania é de fato um direito a que os árabes em Israel têm mais legitimidade que os judeus”.

Gandhi: “Tenho pelos judeus muita simpatia. Mas a simpatia não me cega quando se trata de fazer justiça. O apelo por um lar nacional para os judeus não provoca em mim nenhum eco. A palestina pertence aos árabes, como a Inglaterra pertence aos ingleses e a França, aos franceses. É mau impor os judeus aos árabes. Se os judeus não têm outro lar senão a Palestina, apreciariam a idéia de serem obrigados a deixar as outras partes do mundo em que estão instalados? Ou desejariam então uma pátria dupla onde possam permanecer à vontade?”.

Russell: “Como se poderá discutir os direitos humanos no Oriente Médio sem ir diretamente ao ponto? A criação e a expansão de Israel ocasionaram uma trágica perda de direitos humanos a um número incrível de pessoas, que alcança os milhões. Qual é o significado dos direitos humanos, se não se inclui o direito de viver em paz em seu próprio país? Que direitos são gozados por essas centenas de milhares de refugiados que cercam Israel? Por quanto tempo mais deverão sofrer tal crueldade? Como pôde o mundo tolerar tal miséria, ocasionada por uma ruidosa agressão?”.

O povo judeu não sofreu apenas com as ações desumanas de Hitler, localizadas em uma época. Os hebreus foram perseguidos e caçados por séculos na Europa e em outras regiões. O Holocausto causou uma espécie de culpa assombrosa que fez com que parte daqueles povos originalmente perseguidores, aceitasse a criação do Estado de Israel como forma de amenizar o sofrimento carregado por esse povo por quase dois mil anos; transferindo apenas a carga de mãos. Isso me faz questionar a potência empregada na analise de atos desesperados por parte de palestinos, terroristas? Não é a participação de Obama nem a de nenhum outro homem que vai mudar o rumo dessa contradição. A única resposta que consigo ter no momento é que os palestinos são os novos judeus. E o resto? Todos já sabemos.

Um comentário:

Renato disse...

Caro Rodrigo... o post é uma verdadeira aula de História.
Estou lembrando do que Saramago disse certa vez: "Os Judeus ficam remoendo e descascando eternamente a ferida que lhes foi feita no holocausto, tentando justificar qualquer coisa que façam".

Uma pergunta: Onde estavam os Judeus ricos quando Hitler fez o que fez?

Grande abraço