quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Um clarão nas trevas

Daniel Lins
dlins2007@yahoo.com.br
Sociólogo, filósofo e psicanalista, com doutorado em Sociologia - Université de Paris VII - Université Denis Diderot (1990) e pós-doutor em Filosofia pela Université de Paris VIII (2003).

Bela, frágil e pertubadora, Audrey Hepburn eclode a tela. Terence Young transporta o espectador para o universo dos cegos: um mundo em que o ouvido e o olfato são primordiais; em que os códigos mudam e no qual o rangido de sapatos toma de repente um novo sentido... Em “Um clarão nas trevas”, cada barulho tem um sentido. É talvez por isso que o espectador se surpreenda mais em ouvir do que em olhar o filme.

É o devir-cego do próprio espectador. O devir-cego como força positiva. Ouvir, ao invés de ver, não seria uma sabedoria em tempo de tantas luzes ancoradas em um star system cuja virtude maior é não fazer arte? Não se pode ver esse filme com os olhos, mas com o tato, o ouvido, o faro canino. Os olhos aqui nada podem, pois, parecem colonizados por uma visão chapada pela inércia de representação, significados e significantes que funcionam como palavras de ordem. Vê-se o que “deve” ser visto: a visão na contemporaneidade é engolfada pelo comentário descartável do homo otarius.

Ofegante, esbaforido, trata-se de um filme no qual o suspense é preservado até o fim e os personagens confrontados com seus próprios medos infantis. Como os últimos 20 minutos acontecem em parte no escuro, na saída do filme, alguns cinemas apagam todas as luzes, inclusive as lamparinas, para que o espectador entre no clima. A emoção atinge seu ápice!

“Um Clarão Nas Trevas”. Direção: Terence Young, com Audrey Hepburn, Alan Arkin, Richard Crenna. Uma boneca recheada de heroína é a razão desta trama.

Anexo: Trailer de Um Clarão nas trevas (Wait until dark) de 1967.


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