sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Propaganda Indesejada. É Claro!




Rodrigo C. Vargas

A propaganda da empresa de telefonia móvel Claro em que uma garota tem sua dor de ver os pais separados diminuída por um celular demonstra firmemente uma posição já estabelecida pelo mercado das crises e vez por outra aceita: vale tudo. Inclusive uma enxurrada de opiniões e moldes que desfiguram o sentido de sua própria existência, a sociedade.

Nietzsche em Ecce Homo no capítulo Por que sou um destino escreve: Eu sou o primeiro a ter descoberto a verdade, uma vez que fui o primeiro em sentir a mentira como mentira.

Esse apontamento abre a possibilidade para esse encontro. Para que serve a propaganda numa sociedade? Para nos aproximar do que há de melhor? Para vender qualidades? Não é o que está acontecendo. Provar é fácil, difícil é inibir as manipulações e principalmente, acompanhar de perto o que nos é garantido constitucionalmente.

Até mesmo regulamentar o setor - que tem como maiores representantes os donos das agências – é sempre impedido. Dessa forma, qualquer reação do cliente (mesmo não comprando o produto, todos somos por estarmos expostos a sua apresentação quase onipresente) de contrapor as conduções imorais é elevada a papel de censor (palavra temida e usada descaradamente para afastar quem deseja intervir nesse sistema classista). Muito fácil.

O mesmo processo desfavorável é reforçado pela novela das oito que por mais rodeios do autor, escapa-lhes as mãos a tensão de um só enredo, traição. Não que não exista, nem muito menos um eterno fervor pelo modelo patriarcal do passado – até por que memória não significa atraso – mas apenas um questionamento singular: por que da falta de reflexões nobres ao passo que somos seres supremos e tecnológicos; ou não somos? A frase da personagem de Letícia Spiller responde: “Eu preciso sentir o gosto do adultério!”

As duas coisas, a propaganda e a novela parecem distintas, mas são intimas. Todos os seus significantes e significados promovem a destruição de um modelo cheio de defeitos, mas com muitas virtudes. O que parece é que as virtudes não contam. Ao eliminar o todo, se perde tudo. Não é assim que agimos? Negar tudo isso é deixar fugir um tempo que não é esse, esquecer detalhes importantes que nos apresenta como somos.

O que significa tudo isso? Como é possível estabelecer uma relação verdadeira com o outro quando bombardeados numa roda de desejos em que não se percebe se o que está assistindo vende o celular ou o preenchimento hipócrita da posição vaga numa família despedaçada. Se marca o cotidiano romanceado ou explora uma sociedade estereotipada sexualmente.

Maiakovski (seus amores eram outros e em outro mundo, mas tanto o tempo quanto as coisas das quais era submetido permaneceram filtrados pela palavra mudança) sabia que era preciso ter em mente e nas mãos uma espécie de resistência completa, como revelou em seu poema Nuvem de Calças.

Se quiserdes

poderei enlouquecer de carne

ou então ¬¬

como um céu cambiando de tons

serei, se quiserdes,

impecavelmente deliciado.

Não serei um homem.

Serei ¬¬

uma nuvem de calças.

É preciso acompanhar os passos silenciosos dos que não tem pernas para sentir o chão. Quanto ao modelo de governo de observar de perto esses delinqüentes bem formados, é urgente e a história vai dizer valeu a pena.

2 comentários:

Aletheia disse...

Quando vi a propaganda da claro pela primeira vez senti a mesma coisa que você descreveu. Tentar fazer parecer que uma separação, para uma criança tão pequena, não vai ser traumática é ridículo, e transformar essa separação em uma fantasia é pior ainda. Não é a única, todas as propagandas me parecem absurdas ultimanente...talvez eu esteja muito nietzschiana...Erika Bataglia

Max Roger disse...

Uau! Palmas! Bela reflexão. Até que enfim Vida inteligente na net - heheheh! Outro esteriótipo! Belo texto! Comungo! Meu cel não é da claro, talvez por isso meus filhos precisam de mim ao lado o máximo possível! Valeu