quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Arte deve ser tratada como mercadoria?

Fernando Eichenberg
feichenberg@hotmail.com
Jornalista

O artista plástico inglês Damien Hirst, que lança uma linha de roupas em parceria com a Levi's, desafia a crítica. Com uma fortuna estimada de um bilhão de dólares, ele subverte os limites da arte ao encarar o comércio como parte do processo artístico

Ser bom em negócios é o tipo mais fascinante de arte, escreveu Andy Warhol em seu abecedário filosófico, publicado em 1975. Três décadas depois, o britânico Damien Hirst personalizou o aforismo do ícone pop, aperfeiçoou o método e encurtou ao extremo a distância que separa a produção artística de sua comercialização. Ao promover um leilão com 223 obras suas, nos dias 15 e 16 de setembro de 2009, no prestigiado endereço da casa Sotheby's, em Londres, Hirst quebrou de forma espetaculosa as regras do mercado de arte e lançou um provocador desafio aos galeristas. O controverso artista violou uma norma em vigor desde o fim do século 19: vendeu trabalhos recentes diretamente ao consumidor, sem a intermediação de marchands, que geralmente ficam com cerca de 50% do total das transações. Nomes de seu cacife têm negociado uma porcentagem maior para si, entre 70% e 90%, mas o enfant terrible da festejada geração batizada de Young British Arts (Jovens Artistas Britânicos) surpreendeu o mercado ao passar por cima de suas fiéis galerias, a White Cube, de Londres, e a Gagosian, de Nova York, e ceder à tentação do risco Sotheby's.

Na semana que debutou com a falência do quarto maior banco de investimentos americano, o Lehman Brothers, estopim da derrocada mundial das bolsas, o aguardado e polêmico leilão superou todas as expectativas e arrecadou a impressionante soma de £ 111.464,800, o equivalente a US$ 200.752,179. Com a cifra, a Sotheby's bateu de longe o recorde da venda anterior dedicada exclusivamente a um artista: US$ 20 milhões por 88 trabalhos de Pablo Picasso da coleção Stanley J. Seeger, em 1993. O lote de Hirst, intitulado Beautiful Inside my Head Forever (algo como "bonito para sempre em minha mente"), integra sua produção conceitual. Dessa série, The Golden Calf, um bezerro dourado conservado em uma infusão de silicone e formol em um tanque sustentado por uma base de mármore Carrara, adornado por uma auréola de ouro, os chifres e cascos revestidos a ouro de 18 quilates, foi arrematado por £ 10,345,250, ou US$ 18,661,796.

"Damien não é apenas um artista extraordinário, mas um fenômeno cultural", disse Oliver Barker, um dos especialistas da Sotheby's responsáveis pelo leilão, obviamente satisfeito com o sucesso das vendas. A capa da edição européia da revista Time confirmou seu entusiasmo ao estampar a imagem de Hirst e o título: O Artista como Rock Star. Nem todos, no entanto, comungam do mesmo ardor por sua reputação artística e suas agressivas e bem-sucedidas estratégias comerciais. Para o reverenciado crítico australiano Robert Hughes, por muitos anos um dos mais influentes nomes no mundo das artes, Damien Hirst é um embuste, autor de obras "simplórias" e "sensacionalistas", uma "marca comercial" destruidora da verdadeira compreensão da arte.

O afiado crítico desclassifica uma das mais conhecidas obras do repertório de Hirst, The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living (2004, título que pode ser traduzido como "a impossibilidade de a mente de alguém vivo conceber a morte"), um tubarão suspenso no formol. Segundo Hughes, trata-se do "organismo marinho mais superestimado do mundo". Para o crítico, onde se vê Hirst vêem-se também "os balões de Jeff Koons, os rabiscos baratinados de Jean-Michel Basquiat, as piadas fracas e pin-ups de enfermeiras de Richard Prince e, inevitavelmente, muitos Warhol realmente ruins". Na sua opinião, juntas, as peças funcionam como uma mensagem uniforme de uma decadência de fim de século. "Para esses bozos, o ouro é a religião", resumiu o ácido Hughes.

Vencedor do Prêmio Turner 2003 (Hirst conquistou o mesmo título britânico, bastante respeitado no cenário da arte contemporânea, em 1995), o artista britânico Grayson Perry não fica atrás na artilharia: "Temos a arte que merecemos, e Damien é o artista perfeito de nossos tempos de economias frívolas e celebridades hype. Seu trabalho sempre tem versado sobre o dinheiro: receio que o seu contador se tornou o seu conselheiro artístico mais influente." Em editorial, o jornal americano The New York Times também deu suas pinceladas: "O Sr. Hirst deixou de ser um artista para ser o que se poderia chamar de administrador dos fundos bancários da arte de Damien Hirst. Nenhum artista administrou a escalada de preços para a sua própria obra de uma forma tão brilhante quanto o Sr. Hirst. Esse é o verdadeiro conceito de sua arte conceitual."

Luxo e Glamour

Aos 43 anos, dono de uma das maiores fortunas da Grã-Bretanha (estimativas chegam até R$ 1 bilhão, que fazem dele provavelmente o artista mais rico de todos os tempos), o iconoclasta Hirst respondeu a seus detratores da "velha guarda": "Não esperaria nada menos de Robert Hughes. Ele provavelmente chorou quando a rainha Vitória morreu". Hirst defende-se citando Rembrandt, Velázquez e Goya, que "pensavam nos aspectos comerciais da arte": "Só estou fazendo o que qualquer um desses artistas faria se estivesse vivo. Muita gente acredita que os artistas devem ser pobres, que ninguém é um verdadeiro artista se não vive coberto de manchas de tinta com buracos nos jeans. Acho que tenho ajudado a mudar essa percepção, eu, Andy Warhol, Picasso e todos os caras que aceitaram os aspectos comerciais da arte". Hirst alega ainda que o leilão é uma forma democrática de vender, a evolução natural para a arte contemporânea. "Quem diz que se deve fazer dessa e não de outra maneira?" Para o artista, circula muito dinheiro na arte, mas os autores das peças não vêem nem a cor das notas.

Não é, certamente, o seu caso. Hirst possui hoje entre 30 e 40 propriedades espalhadas pelo mundo, incluindo a mansão gótica georgiana de 300 quartos, em Gloucestershire, na qual pretende inaugurar um espaço para exposições. Em uma das recentes aquisições para sua coleção particular de arte, administrada pela empresa Murderme, desembolsou US$ 33 milhões por um auto-retrato de Francis Bacon (1909-1992) — seu acervo reúne uma dúzia de Bacons e também criações de Warhol ou Jeff Koons. Por meio da empresa Other Criteria, ele ainda edita livros de artistas. Em parceria com a Levi's, produz uma linha de jeans definida como "arte que se pode vestir".

Hirst leva vida de milionário excêntrico. Na festa de pré-venda do leilão da Sotheby's, oferecida para 1,5 mil convidados (entre os quais o cantor Bono Vox, o ator Kevin Spacey e a cantora Lilly Allen), foram servidos champanhe e foie gras embrulhado em folhas de ouro (no convite, o traje solicitado era "glamorous"). Em suas seis unidades de produção artística em nível industrial trabalham cerca de 180 pessoas. Foi de um desses endereços que saiu uma de suas obras mais citadas, For the Love of God (Pelo Amor de Deus), cópia em platina de um crânio do século 18, coberto por 8.601 diamantes que, juntos, pesam 1.106,18 quilates. "Damien gosta de pensar grande", explica seu inseparável agente, o irlandês Frank Dunphy.

(Con)fusão entre arte e mercado

A opinião de André Rouillé, mestre de conferências em estética e filosofia da Universidade de Paris 8 e diretor do site paris-art.com, dedicado à arte contemporânea, estrelas da ordem de Damien Hirst e Jeff Koons (cujas obras causam igual polêmica espalhadas pelo castelo de Versailles, na França, até dezembro) distinguem-se pela "(con)fusão" que operam entre arte e mercado. Em sua análise, as façanhas e escândalos, extravagâncias e recordes alcançados por eles não são estranhos ao que criam, mas fazem parte da "estética espetacular" própria de um tipo de produção que visa seduzir o mundo dos negócios. Já Patrick Bongers, presidente do Comitê Profissional das Galerias de Arte da França, procura relativizar o episódio ao defender o papel das galerias como reguladoras do mercado: "Não penso que as galerias estejam ameaçadas. É verdade que não ficamos contentes em ver um artista se comunicar dessa forma com o grande público, nem os colecionadores em ver essas obras desovarem assim no mercado. Mas muito poucos nomes hoje podem se permitir a fazer algo como Damien Hirst".

Para o galerista francês Gérard Payen, as casas de leilão são, sobretudo, empresas comerciais, sem primazia artística, e com acesso a compradores internacionais que vêem na arte contemporânea um produto de investimento como petróleo ou cereais. Sotheby's e Christie's têm buscado mercados emergentes na Rússia, China e Oriente Médio. Mas o impaciente e insolente Damien Hirst não quer perder tempo: "Acho que o mercado é maior do que se pensa. Amo a arte, e isso tudo prova que não estou sozinho e o futuro parece promissor para todo o mundo". Norman Rosenthal, que durante 31 anos foi responsável pelas exibições da Royal Academy of Arts e para quem Damien Hirst é um "incrível artista e personagem crucial de sua geração", disparou: "Os bancos quebram: arte triunfa".

Muitos, no entanto, se perguntam: qual arte?

Um comentário:

Rede aan! disse...

Acho interessante sua abordagem e estaremos acompanhando as demais ponderações sobre abordagens desse nível.

Att.:
Demétrius Cotta
REde aaan