terça-feira, 27 de outubro de 2009

A revolta poética de uma alma complexa

Jairo Pereira
jairopereiraadv@hotmail.com
Escritor

Em Sylvia Plath poeta. Agente de seu destino. Ou em Ariel o livro de poemas. Produto de uma vida convulsa. Confissão, imagismo e ficção poética se completam com extrema eficiência. Uma vida que se conta pelos poemas e traz mnemônicas imagens de submissão e rebelião. Aos trinta anos (em 1963) a poeta norte-americana totalizava seu existencial e se despedia da vida, mas não da poesia, produzindo ecos nas gerações posteriores, conquistando adeptos e leitores nos mais diversos países.

Complexa como sua alma, a poesia dessa artista ainda provoca dúvidas sobre o seu fazer poético: “confissão” ou “conficção”, “imagismo plathológico” ou “poema-performance”? Creio que todos ao mesmo tempo e mais alguns que serão pouco a pouco destilados nas exegeses de cunho acadêmico, marginal ou diletante. Qualifico minha análise, neste micro-ensaio, de marginal-poética, portanto haurida de visão pessoal e leitura recente. A tradução de Ariel, feita pelo poeta Rodrigo Garcia Lopes e pela estudiosa Maria Cristina Lenz de Machado, fidedigna ao original, valoriza o livro de Plath, sem quaisquer perdas e antes dos cortes do marido (o poeta Ted Hughes) feitos na edição de 1965. Rigorosa apreensão do pathos poético da autora, transferindo-o pra nossa língua. Vale lembrar que traduzir importa em transcriar: exercício dos sentidos de tomada do espírito do autor no seu essencial poético transpondo-o para outro idioma.

Importante salientar o trabalho anteriormente realizado por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça na tradução pioneira de Poemas, que saiu pela Iluminuras em 1990, onde se pode apreender dois ensaios escritos ao final pelos tradutores (respectivamente “Sylvia Plath: delírio lapidado” e “Sylvia Plath: técnica e máscara da tragédia”) o retrato existencial e de artista dessa poeta extraordinária.

Não há como se evitar, em análise-relâmpago, a força de poemas como ”Ariel”, que dá título ao livro, e cavalo oculto galopa apuros técnicos extremados. O “cavalo” que o poema induz/ser, pode também metaforizar a própria vida da poeta, flecha atirada, suicida, “contra o olho vermelho, caldeirão da manhã”. A vida, frágil e breve, lançada à existência — e, por conseqüência, à morte — pelo suicídio. De outro ângulo: um cavaleiro, e só um cavaleiro, é capaz de sentir o que sentiu a poeta, de num galope cancha reta, lançar-se ao anoitecer aos espaços, rumo a um horizonte indefinido, compondo com o animal, o bólido musculado de intensa força. Há urgência em tudo. Urgência em delatar poeticamente. Urgência em viver e morrer.

“Me arrasta pelos ares-/Coxas, pêlos;/Escamas de meus calcanhares”. “Ariel” é composto de dez tercetos, com a finalização apoteótica do verso: “Vermelho, caldeirão da manhã”. Esplêndido poema que, à primeira vista, nos parece enigmático.

Nos demais poemas que compõem o poemário certos símbolos reincidem: a lua, o sangue (negro), árvores (teixo, olmo, entre outras), bebês, peitos, remédio, enfermeira, médico, vermes, morte, abelhas, bonecas, crianças, gazes de curativos. Em “Purdah” se percebe da mulher melancólica, enigmática, de visão naturalista ou patológica, pantotal, mortal, neurótica, confessional, recorrente à infância e seus bebês recusados. “De um verde Adão, eu/Sorrio, de pernas cruzadas,/Enigmática”. Vou anotando assim o que senti em alguns poemas, sem o rigor acadêmico, mas no prazer do leitor/poeta, livre. Em Amnésico: vê-se bebês/brinquedo, enfermeira/vermes/médico, tocar seios/corpo/irmã e bebidas que se transubstanciam, queimando e espumando. Os signos hibridizam uma visão real/fática e o fantasmagórico da construção mental. Essa a grande arte de Sylvia Plath: transformar um real opressor, de um nada poético, em elevada poesia.

Claro que pra fazer isso, ela dispunha de técnica/domínio lingüístico e imaginação criadora, aplicada aos seus limites. Há sim, limites e deslimites na visão poética, que um fato (uma acontescência existencial) instala no agente criador. Além do que, a poeta joga incansavelmente com os extremos, de imagens contrárias, chocantes nos significados. E nunca recuando dos núcleos de significação, tematizados ao rigor dos mestres. “Talidomida” tem versos crus, como: “Âmnio sangrento das ausências. / Toda noite eu teço”. Ou esses outros: “Da indiferença! / Os frutos escuros giram e caem. / O vidro se espatifa, / A imagem / Foge e aborta como gotas de mercúrio”. Sempre, algo de trágico, de rompimento e morte, delatando o irreversível, o que foi não volta mais como ameaça de opressão e desamor.

No poema “Papai” assistimos, como em “Lady Lazarus”, “40 Graus de Febre” e outros, a reconstrução da mulher ferida, filha dileta da opressão. “Papai” é uma aula de exorcismo poético. “Com cola foram me refazer. / E então soube o que fazer. / Fiz um modelo de você, / Um homem de preto com um quê de Meinkampf”. A vítima arquetípica (Plath na pele de uma mulher judia) e o duro rebate ao pai e o acerto de contas, na última estrofe do longo poema: “Papai, papai, seu puto, eu acabei”. Em “O Candidato”, a mulher-objeto (“uma boneca de carne”) é descrita por metonímias: peitos de borracha, ataduras, suturas. Poema cínico, uma resposta à altura pela crescente transformação da mulher em objeto, coisa, imagem a ser explorada, objeto de consumo.

Presente em vários poemas está a experiência da maternidade, de hospitais: como em “Canção da Manhã”, poema que abre o volume, dedicado ao nascimento da filha, Frieda: o símbolo bebê pode representar a vida em estágio inicial, ante a avalanche de perigos, e a seta mortífera do opressor, repetido poema a poema. O frágil, frente ao monstruoso e desconhecido: “Num museu arejado, ......”. Importante notar que, nos poemas de Sylvia Plath, as metáforas nunca se escancaram em significação ao leitor, mas sinalizam caminhos, visões, denúncias, urgências. Pistas.

Como raros poetas, Sylvia Plath soube servir-se das imagens de sua breve vida para compor uma obra forte, brutal até, no seu conteúdo (vide poemas como “O Carcereiro”). Agressiva, pela linguagem quase-clássica, sem invenções provocadas. Como uma química de fundo de quintal que, bolindo seus apetrechos e substâncias naturais, vai compondo óleos, suspensões, cápsulas, comprimidos e ungüentos milagrosos, a poeta aproveita o tudo de sua vida, convertendo-o com maestria em poemas. Certíssimo que essa seleção consciente e inconsciente dos símbolos prestigia o essencial, tanto de um viver as coisas, como de imaginá-las, transpô-las ao mundo das linguagens. É disso que se faz a grande poesia. Desse amontoado de símbolos, que entornam e fazem parte da vida e do imaginário do poeta. Cada qual com suas formigas de estimação, aleijões fixados na alma, perquirições inúteis, perceptos acelerados a caminho do nada...

Sylvia Plath consegue metaforizar em forma humana a nathureza, não só nesse poema “O Caçador de Coelhos, mas em outros na obra. O corpo disso, o corpo daquilo, que tomava formas humanas e enternecia ou aterrorizava. “Era um lugar de força — / O vento amordaçando minha boca com meus cabelos revoltos, / Arrancando minha voz, e o mar / Me cegando com suas luzes, a vida dos mortos / Se desenrolando nele, se espalhando como óleo”. Sempre é uma nathureza que toma corpo, reage, persegue e impõe beleza e aniquilamento. Negativa a visão de vida que nutria a poeta. Negativa de só carregar o fardo da opressão de pai, de marido, de poder estatal, de forças naturais avassaladoras, que repercutiam diretamente no eu, vulnerando-o. Um produto dos anos Einsenhower, de um ambiente de alta competividade, e de uma busca obsessiva por ser a melhor em tudo: a melhor aluna, filha, poeta, depois mãe e esposa. Essas cobranças acabaram vulnerando-a por toda a vida breve de artista. Quase um encosto, de patológica ação, cercava a poeta desde bebê, e prosseguia na infância (pai morto em circunstâncias tragi-cômicas, criança rejeitada) entre perigosos brinquedos, traumas, associações terríveis, pesadelos, psiquismos... Esse o entorno da artista, que deu origem a seu acervo riquíssimo de signos, símbolos, sinais pra denotar a vida em palavras.

Podemos dizer que Sylvia Plath tomou as rédeas de sua vida, dominando-a e sendo dominada pelo mundo exterior. O ser/poeta/filósofo de ação empírica que, sem o apoio de Deus, insiste em alquimizar o duro destino. Não há um pedido sequer de proteção, ou guarida a uma entidade superior, que viesse diminuir o pesadelo e a dor da poeta. Mas como transmutá-la em arte? Essa a questão para Plath, já que ela própria desconfiava da poesia como “grito do coração”. A mesma trouxe pra si, a responsabilidade do revide (vingança artística e terrena através da palavra poética) ao que se era quase-impossível de se revidar, como criança, adolescente, mulher e poeta naquele mundo. Potência e impotência foram signos de presença constante na vida e nos poemas da artista. Com suas catanas, afiadas no sofrimento, Sylvia Plath, rebateu as forças opressoras que a sugavam, um tanto a mais, do que conseguiria qualquer filósofo, escudado só na razão. A força de poeta, advém da adversidade e de transcendências não-identificáveis, variantes de um instinto primário de ação e reação.

Em “Lady Lazarus”, belíssimo poema longo, um dos pontos altos do livro, a poeta evoca imagens fortíssimas, como “a leprosa desenfaixada”, “pele e osso”, “violentada aos 10”, “vermes como pérolas grudentas”. A mulher que marca o tempo, devendo tentar um ano em cada dez, e já estava com trinta. O fato da poeta denotar/identificar o tempo, induz consciência atenta aos signos que a marcavam. Consciência seletiva na qualidade simbólica do que seria sua obra e o aproveitamento do lixo/suspiro/existencial. Novamente, o rebate contra o inimigo, se opera nesse poema. “Dispa o pano / Oh, meu inimigo. / Eu te aterrorizo?”, pergunta, sem resposta, ao terror que atravessa a vida da poeta. “E eu uma mulher sempre sorrindo. / Tenho apenas trinta anos. / E como o gato, nove vidas para morrer”. Fortíssima a imagem ao final do poema (“Lady Lazarus”), que evoca a ressurreição da mulher-oprimida, a qual sem piedade, retorna pra devorar o superinimigo: “Saída das cinzas / Me levanto com meu cabelo ruivo / E devoro homens como ar”. Em ato de ressurreição, a poeta volta aos ajustes, ainda não finalizados em vida pela palavra poética. Magnífica apreensão do ódio, dos efeitos da opressão no ser, que transferidos com o corpo ao além, comparecem novamente ao mundo terreno aptos à plena realização da vingança. É de se admitir que Sylvia Plath venceu a vida no esmero de sua produção poética, impondo ao mundo uma personalidade in-descartável, ao contrário dos seus bebês de estufa e sacos plásticos, ou mulheres dentro de garrafas, símbolos semelhantes nas suas visões convulsas da nathureza e do humano.

Anexo: Poema Ariel lido por Sylvia Plath

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