segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Que sou eu?: uma questão da filosofia de Descartes e Nietzsche




Luciano Silva
Luciano@bagatelas.net
Mestre em filosofia pela PUC-Rio e professor de literatura brasileira

A Filosofia, como qualquer área do conhecimento, possui objeto próprio de pesquisa, que se manifesta através das mais variadas questões. Então, comecemos com uma indagação que no transcurso da nossa existência, cedo ou tarde, de um modo ou de outro, vemo-nos obrigados a fazer: que sou eu?

Antes, porém, é importante perceber que essa questão nos indica, no mínimo, duas coisas:

1— Que pressupomos existir em nós a capacidade de conhecer;

2— Que nos reconhecemos como algo, embora ainda não identificado, mas que procuramos a exata definição.

Munidos dessas primeiras ferramentas, vejamos quem, na História da Filosofia, tratou desse assunto. Para evitar uma visão unilateral do problema, vamos começar apresentando a posição de dois filósofos distintos: René Descartes e Friedrich Nietzsche.

O precursor da Filosofia Moderna, René Descartes (1596-1650), nas Meditações Metafísicas de 1641, chega à resposta desse problema de forma indireta. Seu objetivo principal era achar algo que fosse, em si, indubitável, ou seja, que não precisasse de nada externo para lhe assegurar a veracidade.

Para alcançar esse intento, o filósofo francês passou por três estágios de investigação. No primeiro, percebeu, a partir dos estudos realizados em La Flèche e em Poitiers, que as maiores autoridades da sua época apoiavam-se nas doutrinas, quase sempre confusas, dos antepassados e que, sem respaldo algum da razão, simplesmente aceitavam a autoridade estabelecida. Descartes, então, para não seguir no erro dos seus mestres e educadores decidiu colocar à prova todas as coisas que se apresentavam ao seu intelecto como verdadeiras. “Tudo que concebi, até presentemente, como o mais verdadeiro e seguro, aprendi dos sentidos ou pelos sentidos”, disse ele. Ora, todos nós, e não só Descartes, verificamos em diversas situações que os nossos sentidos em algum momento já nos enganaram. Então, para evitar esse problema, Descartes decide assumir como máxima a idéia de que não deve confiar inteiramente em quem já lhe enganou uma vez. Assim, com a aplicação desse princípio provisório, ele pode suspender o juízo, i.é, não considerar como verdadeiros ou falsos os conhecimentos adquiridos dos/ou pelos sentidos, antes que uma investigação minuciosa demonstrasse a veracidade ou falsidade desses conhecimentos. Como o objetivo é alcançar uma verdade clara e distinta, auto-evidente, Descartes radicaliza o supracitado princípio provisório e passa a considerar como falso qualquer pensamento que fosse passível de ser colocado em dúvida. Sua busca é de algo, efetivamente certo, e não meramente provável.

Entretanto, há algo imediato que os sentidos nos apresenta e que, num primeiro momento, podemos aceitar como verdadeiro, por exemplo a impressão de que lemos, neste exato momento, um texto que versa sobre filosofia. Contra essa possibilidade, Descartes apresenta o argumento do sonho (segundo estágio da sua investigação) e que pode ser estruturado na seguinte questão: como saber se estamos sonhando agora se, em diversos momentos, tivemos a sensação de que estávamos acordados quando, de fato, sonhávamos? Ora, mesmo que consideremos estar lendo algo na frente do nosso computador, existe a possibilidade de que isso não passe de uma impressão causada pela nossa mente que se encontra em estado onírico. Pode ser simplesmente um sonho, pois a barreira entre as percepções sensíveis e as representações que temos quando dormimos é tão tênue que não se pode, com segurança, saber se dormimos ou se estamos acordados. Esta possibilidade joga por terra, de acordo com o sistema cartesiano, a certeza que poderíamos nutrir de que estamos sentados, de que lemos um texto, de que, inclusive, existe alguma realidade fora de nós. Em outras palavras, qualquer coisa que os sentidos nos indique como real pode ser simplesmente figuração de um sonho.

Descartes conseguiu, até o presente momento, colocar em dúvida os conhecimentos adventícios dos sentidos, sejam estes referentes as principais teorias da filosofia, sejam em relação às percepções mais simples do cotidiano. Entretanto, mesmo nos sonhos algumas coisas podem ser consideradas como verdadeiras. São, a saber, a figura, a quantidade, o espaço e o tempo, pois estes objetos, que são próprios da matemática, são indecomponíveis. Ora, quer estejamos acordado ou sonhando, uma árvore, por exemplo, vai sempre possuir figura, quantidade (uma) e estar em algum lugar no espaço e no tempo. Quer se esteja desperto ou em estado onírico, não é possível imaginar um circulo quadrado ou um resultado diferente de 4 quando somamos 2 unidades a outras 2 unidades. Descartes, então, em sua busca de um primeiro princípio que assegure a verdade das ciências, dá o passo seguinte na sua investigação: é o argumento do gênio maligno.

Este argumento baseia-se na hipótese de que possa existir um gênio ardiloso que emprega “toda a sua indústria em enganar”. Aceitando-se este ponto, qualquer percepção, seja ela oriunda dos sentidos ou da representação de uma verdade matemática, pode ser colocada em dúvida. Pois quem garante que todas as vezes que somamos uma unidade com outra unidade o gênio maligno interfere e faz com que concebamos o resultado, erroneamente, como duas unidades? Entretanto, se é possível conceber um gênio tão poderoso que seja capaz de nos enganar nas coisas mais simples, pelo menos uma certeza foge ao seu poder de enganar: a nossa existência. Em outras palavras, se ele nos engana todas as vezes que concebemos algo, então não temos como negar que existimos, pois ele nos engana. Eis a primeira verdade indubitável: o cogito, ergo sum. Em relação a essa proposição, diz Descartes: “eu sou uma coisa pensante, algo que permanece irredutível após o duvidar absoluto”. O penso, logo existo é a primeira e irrefutável verdade adquirida após todas as facetas da realidade serem postas em dúvida.

Perguntamos, de nós para nós mesmos, “que sou eu?”, Descartes, então, nos respondeu: “Uma coisa que pensa. Que é uma coisa que pensa? É uma coisa que duvida, que concebe, que afirma, que nega, que quer, que não quer, que imagina também e que sente”. Esta resposta preenche os dois tópicos apresentados no início dessa exposição: 1- é a certeza de que é uma coisa que pensa e 2- que essa coisa pensante é a primeira e indubitável verdade que o intelecto humano pode encontrar após pôr em suspenso, com bons motivos, todos os dados da realidade.

***

Friedrich Nietzsche (1844-1900) é sem dúvida um dos filósofos mais polêmicos da História da Filosofia (se não o mais). Ele é possuidor de estilo e pensamento inconfundíveis. Diferente da argumentação clássica, tal qual a apresentada por Descartes que se preocupava em ir de argumento em argumento, de sentença em sentença com o cuidado de não deixar lacuna alguma na sua exposição, Nietzsche escreveu a maior parte da sua obra por aforismos, quase sempre repletos de poesia. A sua reflexão, em um primeiro momento, recaiu sobre a cultura européia, passando, depois, a fase compreendida como a de homenagem aos espíritos livres e, por fim, o período de Zaratustra, cujo maior legado foi a teoria da vontade de potência.

Pois bem, que pensava esse filósofo acerca da questão “que sou eu?” e da resposta cartesiana a esse problema? Nietzsche, como todo crítico do racionalismo, descorda em número, gênero e grau da afirmação cartesiana. Em Descartes (recapitulemos) a resposta à questão que sou eu? vem entrelaçada em duas afirmações que, ao mesmo tempo, diz que o eu é uma coisa que pensa e que, enquanto coisa pensante, é a verdade primeira que o intelecto humano pode conceber após colocar em dúvida toda a realidade. Para Nietzsche, essas afirmações são completamente falaciosas, pois Descartes não conseguiu por em prática a intenção de duvidar de toda a realidade. Mas que será que Nietzsche quer dizer com isso? Descartes, utilizando-se do princípio provisório que lhe impossibilitava acreditar em algo que fosse passível de ser colocado em dúvida, do argumento do sonho e, por fim, do argumento do gênio maligno não conseguiu colocar em suspenso a realidade em geral, até que o cogito (penso, logo existo) surgiu como única realidade efetivamente verdadeira? Ora, esse é o problema, afirma Nietzsche, pois se de fato tudo foi posto em dúvida, como entender a expressão “eu penso”? Em outras palavras, o gênio maligno cartesiano não é tão maligno assim, pois esqueceu de colocar em dúvida a capacidade de pensar. É como se, através do pensamento, toda a realidade fosse colocada em dúvida, menos o que se concebe como pensamento. Para Nietzsche, só na sentença “Eu penso” existe uma série de dificuldades que não foram levadas em consideração, o que de imediato anula a possibilidade do cogito ser considerado como o primeiro princípio do conhecimento humano. Ora, um primeiro princípio, por definição, tem que ser apodítico, i.é, possuir valor necessário e incondicional. E isso, para o filósofo alemão, não se encontra na proposição cartesiana, pois ela pressupõe que “sou eu quem pensa”, “que existe efetivamente alguém que pensa”, que o pensar é uma “atividade realizada por um ser que supomos ser a causa do pensamento”, etc.

Outro aspecto criticado por Nietzsche é a implicação que a suposta veracidade do cogito põe em curso. Se o cogito é verdadeiro, então o conhecimento não só é possível como também é imanente, i.é, existe uma natureza humana que possui a capacidade de conhecer. Já vimos os argumentos de Nietzsche contra o “penso, logo existo”, vejamos, então, o que ele tem a dizer sobre o desdobramento natural desse conceito, a saber, a nossa capacidade cognitiva (se é que possuímos isso!).

Michel Foucault (1926-1984), também filósofo e melhor conhecedor do pensamento de Nietzsche que nós, veio nos ajudar e, de início, propôs-nos analisar um aforismo que diz o seguinte: “Em algum ponto perdido deste universo, cujo clarão se estende a inúmeros sistemas solares, houve, uma vez, um astro sobre o qual animais inteligentes inventaram o conhecimento. Foi o instante da maior mentira e da suprema arrogância da historia universal” (Foucault apud Nietzsche, 1996, p.13). Foucault, gentil como sempre, aponta para duas possibilidades de interpretação desse aforismo. Primeira, que num determinado momento e lugar específico animais inteligentes inventaram o conhecimento. A “palavra que [Nietzsche] emprega, invenção, — o termo em alemão é Erfindung —, é freqüentemente retomada em seus textos, e sempre com sentido e intenção polêmicos. Quando fala de invenção, Nietzsche tem sempre em mente uma palavra que opõe a invenção, a palavra origem. Quando diz invenção e para não dizer origem; quando diz Erfindung e para não dizer Ursprung”. (Foucault, 1996, p.15/16). Sugere nosso amigo francês ao ler o alemão de grandes bigodes que o conhecimento foi inventado, i.é, ele não possui uma origem. Não ter origem significa que ele não está, em absoluto, inscrito na natureza humana. Ele não se constitui como o mais antigo instinto do homem, ou, inversamente, que não há no comportamento humano algo como um registro genético do conhecimento (Foucault, 1996, p.16). O conhecimento para Nietzsche seria, assim como as demais criações humanas, simplesmente o resultado de um jogo indeterminado (sem regras e sem dependência de jogadores determinados), do afrontamento, da junção, da luta e do compromisso entre os instintos. É justamente porque os instintos se encontram, se batem e chegam, finalmente, ao término de suas batalhas a um compromisso, que algo se produz. No caso em questão, o conhecimento. Se existe conhecimento, este é fruto das relações de combate que os instintos travam entre si, sem que o intelecto, por si, protagonize alta função nesse achado. O conhecimento é o efeito dos instintos, é como um lance de sorte, ou como o resultado de um longo compromisso. Ele é ainda, diz Nietzsche, como ‘uma centelha entre duas espadas’, mas que não é, de modo algum, formado a partir do mesmo material presente nas lâminas.

Outra possibilidade, sugere-nos Foucault, é a de que o conhecimento, além de não estar ligado à natureza humana, de não derivar da natureza humana, nem mesmo é aparentado, por um direito de origem, com o mundo a conhecer. Não existiria, efetivamente, nenhuma semelhança, nenhuma afinidade prévia entre o conhecimento e as coisas que seria necessário conhecer. “Em termos mais rigorosamente kantianos, seria necessário dizer que as condições de experiência e as condições do objeto de experiência são totalmente heterogêneas” (Foucault, 1996, p.17).

Agradecemos, então, a ajuda do nosso amigo Foucault, e voltemos ao bate-papo com Nietzsche. Pois bem, o senhor Friedrich nos deu (assim pensou eu) um bom argumento para não aceitarmos de imediato o “eu sou uma coisa que pensa” do senhor René Descartes. Entretanto, ainda não nos respondeu a questão inicial, a saber, que sou eu?.

Mas, pensando bem, como poderia ele nos responder, se até agora, nas suas objeções ele tem nos sugerido, nas entrelinhas, que esse “eu” da questão colocada não existe? Não lembram? Ora, ele disse, quando comentava o tal do cogito: “De onde tiro o conceito de pensar? Por que acredito em causa e efeito? O que me dá o direito de falar de um eu, e até mesmo de um eu como causa e, afinal, ainda de um eu como causa de pensamentos?” (Nietzsche, p.306). Lembraram? Pois é! Antes, entretanto, de sairmos gritando por ai que esse tal de Nietzsche é louco, vamos tentar entender o que ele pretende com essa idéia. Para ele, e isso ele me disse faz pouco tempo (rsrsr), o grande problema da modernidade foi dividir equivocadamente a realidade entre sujeito e objeto. E isso porque leva-nos a crença de que existe um ser separado da natureza (o sujeito, o eu, o ego, o cogito, o homem) que pode intervir diretamente nela, inclusive, para conhecê-la. Para nosso amigo alemão a natureza ou mundo, para usarmos a forma como ele se expressa, é algo que está muito próximo da concepção grega de phýsis, i.é, força responsável pelo surgimento e perecimento de todos os seres, a realidade primeira e última de todas as coisas. A unidade de forças que não permite um fora (um eu, um cogito, um homem). Todas as coisas, nesse mundo, já estariam dentro e em relação umas com as outras, principalmente as opostas, as contraditórias.

Dito de outro modo, e seguindo as palavras do senhor Nietzsche, o mundo seria “uma monstruosidade de força, sem início, sem fim, uma firme, brônzea grandeza de força, que não se torna maior, nem menor, que não se consome, mas apenas se transmuda, inalteravelmente grande em seu todo”. Seria um “eternamente-criar-a-si-mesmo” e “eternamente-destruir-a-si-mesmo”, um mundo “secreto da dupla volúpia, esse meu ‘para além de bem e mal’, sem alvo (...) quereis um nome para esse mundo? Uma solução para os seus enigmas? (...) Esse mundo é a vontade de potência – e nada alem disso! E também vós próprios sois essa vontade de potência – e nada além disso!

Bem, se não me engano, acho que obtivemos uma resposta do senhor Nietzsche, mesmo que de forma indireta, a questão que sou eu? Ou seja, ele respondeu que esse “eu” da questão não existe, pelo menos no sentido cartesiano (i.é, como realidade independente do mundo) porque somos unos com o mundo; mas, por outro lado, sendo o mundo vontade de potência e nós (“eu”) extensão dessa mesma força, então somos também vontade de potência. E essa vontade de potência, por sua vez, é a verificação do que nos causa o mais alto sentimento. E por falar nisso, Nietzsche quer nos deixar um último conselho. Ouçamos: “Meu ensinamento diz: viver de tal modo que tenhas de desejar viver outra vez (...) Quem encontra no esforço o mais alto sentimento, que se esforce; quem encontra no repouso o mais alto sentimento, que repouse; quem encontra em subordinar-se, seguir, obedecer, o mais alto sentimento, que obedeça. Mas que tome consciência do que é que lhe dá o mais alto sentimento, e não receie nenhum meio! Isso vale a eternidade!” (Nietzsche, 1996 p.442).

*

Que coisa! Partimos de um problema simples e chegamos a duas definições diferentes. Que fazemos agora, senhores leitores? Descartes, Nietzsche ou nem um dos dois?

Anexo: Trecho de Dias de Nietzsche em Turim (2001) dirigido por Júlio Bressane

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Um comentário:

matias disse...

É bastante supreendente saber que,hoje,no país que saltou de colônia para exportador de grfis luxuosas,que sempre esteve ás margem dos virtudes,que nunca se peocupou com o quem sou eu?;esteja agora propenso a uma consciência gélida o bstante para coagular o sange tropical.Fico feliz!!