quinta-feira, 11 de junho de 2009

Fractais tropicalistas:

Amador Ribeiro Neto
Professor de teoria da poesia e literatura comparada na UFPB, mestre pela USP e doutor pela PUC-SP.

O Tropicalismo bebeu fartamente nas águas do saber oswaldiano. Juntou Carmen Miranda com Miles Davis; Chacrinha com Chaplin; samba de roda com atonalismo, Eisenstein com Vera Cruz, Mondrian com Di Cavalcanti, Vicente Celestino com Stravinsky. O resultado todos conhecemos: um forte movimento artístico-musical que hoje, por exemplo, deita suas raízes sobre os nomes mais interessantes da MPB, das artes plásticas, do teatro, do cinema e da moda.

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Caetano Veloso ao longo de sua obra tem revelado interesse pelas formas e pelos temas mais contundentes de nossa cultura. Dos aspectos políticos aos sexuais, dos ecológicos aos sentimentais, dos étnicos aos femininos e feministas, dos homossexuais aos da terceira idade, dos da infância aos das doenças estigmatizadas socialmente, etc. – (quase) nada escapa ao seu olho de lince.

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Desde o Tropicalismo (o movimento cultural mais importante deste país depois da Semana de 22 e do advento da Poesia Concreta, em 56) Caetano desenvolve um trabalho calcado na deglutição do "que não é meu" para se chegar a um produto singular, intensamente próprio. Para ele, novas linguagens nascem da mescla geral e irrestrita agitadas no big caldeirão multicultural. Não é a troco de nada que há 40 anos ele declarou que “o Tropicalismo é um neo-antropofagismo".

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Alguns intra-estilhaços da grande explosão que nos foi, e que continua sendo, o Tropicalismo: Viva São João, viva a Refazenda / Viva São João, viva Dominguinhos / Viva São João, Viva Qualquer Coisa/ Viva São João, Gal Canta Caymmi / Viva São João, Pássaro Proibido.

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O cedê Melopéia, de Glauco Mattoso, com generosas 23 faixas, tem capa assinada pelo quadrinista (hoje festejado romancista e ator) Lourenço Mutarelli. No clima dos poemas e músicas ele faz uma releitura antropofágica valendo-se da capa do Panis et Circensis, disco-manifesto dos nossos tropicalistas. Belo trabalho.

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A faixa que abre Melopéia intitula-se (muito apropriadamente) Tropicalista - composta e interpretada por Tato Ficher. Vem depois de uma inesperada introdução barroca feita num cravo e seguida por um “viva!” de samba-enredo exaltando o nome de Glauco Mattoso. Entra um samba de letra intertextual e auto-irreverente: vale-se da metalinguagem para destacar a importância das letras das canções. Não há como não rir e vibrar com este humor poético e mordaz, muito bem sacado por Tato Ficher, que cita a bossa nova (Upa Neguinho) e o Tropicalismo (Tropicália) numa carnavalização sobre carnavalização. O Tropicalismo tem em Tropicália 2, e agora em Melopéia, sua mais pertinente, criativa e renovadora homenagem. Anos-luz distante de uma bobagem chamada Tropicália 30 Anos (Natasha Discos).

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Cazuza jamais teve preconceitos musicais. Sempre se debateu contra parâmetros sociais estabelecidos. Duas características que ele herdou do Tropicalismo. Caetano e Gil, pós-tropicalistas, continuaram referências de sua produção. Chegou a ser parceiro de Gil. Gravou Caetano.

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No caldeirão de referências, citações, literatura, música, paródias, performances, só caberia mesmo a maior das antropofagias de Adriana Calcanhoto: comer o tropicalista-mor, nosso mais irreverente, criativo e inquieto compositor: Caetano Veloso. Aos sons conhecidos da canção juntam-se as vozes admiradas & admiradoras do público, que delira num misto de polivozes polissônicas, polifônicas & polissêmicas.

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Um compositor-intérprete com esta verve paga tributo ao Tropicalismo. Se Caetano uniu Carmen Miranda e Vicente Celestino, Chico César une Inesita Barroso e Torquato Neto. Não nega nem esconde o subdesenvolvimento. Também ele, como seu Mestre, nega-se a folclorizar seu subdesenvolvimento em nome de uma falsa crença: o popular é pobre.

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O resultado é uma obra que se desdobra a cada leitura. O disco Domingo indicia, nas sutilezas de sua bossa, recursos composicionais que o disco seguinte leva ao extremo. A virada é tão significativa, que críticos mais afoitos insistem em ver na Tropicália um movimento que se opõe, por exemplo, à Bossa Nova. E quando em Verdade Tropical Caetano observa que há uma ligação estreita entre os dois movimentos, o que a crítica tende a fazer é somar esta afirmação a mais uma provocação gratuita de Caetano.

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Tropicália celebra a grande felicidade do ser criador - quer seja, do artista. Tudo é festa e carnaval na reverberação melódica e rítmica da última sílaba das duas últimas palavras de cada mo(vi)mento da canção. Bossa e palhoça / mata e mulata / Maria e Bahia/ Iracema e Ipanema / banda e Miranda são parelhas rímicas que explodem qualquer construção ordenada de imagens ou qualquer processo de associação sociológico. Ao redor de tais parelhas gravitam significantes variados que se dispersam pelo corpo da canção contaminando e sendo contaminados por outros vocábulos. É como se o processo gerador se descentralizasse nestas rimas repetidas e imantasse o restante da letra da canção.

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Tropicália, é a explosão dos ícones verbo-musicais numa roleta russa de significantes que disparam-se de tempo em tempo desenredando a canção aos ouvidos e mentes que a aceitam enquanto êmulo propulsor do ato de criar. As imagens imprevisíveis que gera, impressionam e prendem "hipnoticamente” o ouvinte numa profusão de significantes e significados realimentados a cada leitura/audição. Este bloqueio à formação da imagem (ou de uma imagem) é um procedimento fortemente usado pelos barrocos via elipses, perífrases, paródias, anáforas, proliferações, condensações, substituições, etc.

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O Tropicalismo nasceu em 1967 e foi enterrado em pouco mais de um ano, por seus principais idealizadores, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

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Onde anda hoje a onda de som de inovação estético-criativa do Tropicalismo? Na grande trindade tropicalista: Tom Zé, Jorge Mautner e Rita Lee, signos mutantes que não deixam jamais de experimentar outros sons e sentidos. Em Carlinhos Brown, músico de primeira que o Brasil precisa aprender a ouvir. Em Arnaldo Antunes, megartista de zil mídias. E mais: Zeca Baleiro, Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Cássia Eller, Los Hermanos, Itamar Assumpção, Ney Matogrosso, Marisa Monte, Escurinho, Péricles Cavalcanti, Madan, Arrigo Barnabé, Otto, Zélia Duncan, Moreno +2, Eliete Negreiros, Daúde, Cida Moreira, Marcelo D2, Maria Alcina, Vânia Bastos, Seu Jorge, Cabruêra, entre outros.

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Viva o Tropicalismo e o “up-grade” que ele produziu nas artes do Brasil: 1967-2009.

Um comentário:

Ana Fernandes disse...

Seu blog SALVOU o meu trabalho de literatura.
Muito bom o conteúdo. Gostei bastante. Dinamizado e informativo.
Continue postando.
Ah, faço um convite. Passa lá depois:
http://ananeversleeps.blogspot.com

Abraços :)