quarta-feira, 29 de abril de 2009

Orthographia actual e anarquismo intellectual


Glauco Mattoso
glaucomattoso@uol.com.br
Poeta, ficcionista e ensaísta

Desde agora, janeiro de 2009, aproveito a vigencia da reforma orthographica para mais um acto de rebeldia. Não se tracta propriamente de desobediencia civil, mas de independencia intellectual. Na verdade, eu ja practicara o systema etymologico durante annos, na decada de 1970, emquanto editei o "Jornal Dobrabil", um fanzine anarcho-litterario. Mas, antes de explicar por que adoptei a norma archaica (que aliaz nem era tão archaica assim, como veremos), quero recapitular um artigo que escrevi nos annos 1980 para a revista "A-Z" (antiga "Around", da boate Gallery, ponto badalado de Sampa).

O artigo intitulava-se "Sem rei nem rock" e tractava da nova constituição (1988), que previa um plebiscito para votarmos si a republica deveria continuar ou si a monarchia deveria ser restaurada. Naquelle clima de debate, relatei uma passagem autobiographica para demonstrar que fui mais careta, na faculdade, que os proprios membros da TFP (Tradição, Familia e Propriedade, organização direitista da epocha). Vamos ao trecho da materia que nos interessa aqui:

[Não sei se o partido tá funcionando, pois não me filiei. O fato é que, com ou sem partido, sou monarquista por princípio, assim como os velhos & filhos sobreviventes do período imperial, mas também por uma espécie de nostalgia folclórica, uma curtição que já deixou de ser kitsch pra virar sofisticação intelectual, ou seja, finesse. Quem me vê como um cara tarado & debochado pode não acreditar que passei a adolescência toda me portando & vestindo como um verdadeiro TFP. Fui tão conservador que, quando alguns tefepistas me procuraram na faculdade (em pleno governo Garrastazu) e me convidaram a entrar pra casa de Dominus Plinius, eu respondi que toparia com uma condição: a de que cada um dos emissários escrevesse três palavras numa folha de papel. As palavras eram "filosofia", "clorofila" e "crisântemo". Eles não eram tão bobinhos e sacaram que eu os tava testando. Tentaram entrar na minha e escreveram "philosophia". Mas nas outras duas se embananaram. Não sabiam todas as letras de "chlorophylla" e "chrysanthemo". Aí foi minha chance de encerrar o papo: "Vocês não são tão tradicionalistas. Do contrário, além da volta da monarquia, defenderiam também o uso da `orthographia etymologica`." E virei as costas. Foi nessa fase excêntrica, de colete & relógio de bolso, que encasquetei uma idéia ainda mais extravagante: a de ser recebido pelo príncipe herdeiro da Coroa brasileira. Meus conhecimentos sobre as instituições imperiais se resumiam aos dados históricos e ao texto da constituição de 1824, pela qual o regime é hereditário por primogenitura masculina. Dizia o artigo 117 que a descendência de D. Pedro I sucederia ao trono "segundo a ordem regular de primogenitura e representação, preferindo sempre a linha anterior às posteriores; na mesma linha, o grau mais próximo ao mais remoto; no mesmo grau, o sexo masculino ao feminino; no mesmo sexo, a pessoa mais velha à mais moça". Assim, se a princesa Isabel teve três filhos, o mais velho, Pedro de Alcântara, Príncipe do Grão-Pará, seria o herdeiro. Como o príncipe já morreu, seu filho Pedro Gastão seria o sucessor. E D. Pedro Gastão, segundo me disseram, morava em Petrópolis, no palácio Grão-Pará. Não tive dúvidas. Escrevi uma carta (em ortografia antiga, naturalmente) onde me declarava monarquista e, na maior cara de pau, pedia a Sua Alteza que me hospedasse no palácio. Será que eu esperava resposta? Se não esperava, veio. Foi uma recusa, lógico, mas uma recusa com aquela classe, aquela elegância aristocrática que só os nascidos em berço de ouro sabem ter. Escrita de próprio punho num cartão timbrado com o brasão imperial e ilustrado com uma gravura de 1870 representando o palácio Isabel (hoje palácio Guanabara, sede do governo do Rio), dizia a resposta: "Prezado Pedro José Ferreira da Silva (é meu nome plebeu, e bem plebeu, por sinal, ó desgraça!): Ao voltar de viagem achei no Grão Pará sua amável carta. Agradeço os termos tão amáveis nela contidos. A Princesa estando ainda na Europa não me é possível o hospedar agora. Com meu sincero saudar, Dom Pedro."]

A continuação dessa historia não vem ao caso, mas basta aquelle panorama para imaginarmos como o Brasil se debatia entre velhos e novos valores. Ser livre-pensador (ou franco-atirador, no caso do poeta) em tal scenario não era facil. Os manicheistas nos pressionavam de todo lado: si você não era de direita, tinha que ser de esquerda; si não era fascista, tinha que ser marxista; si não era monarchista, tinha que ser republicano; si não era sambista, tinha que ser rockeiro; si não era parnasiano, tinha que ser concretista; si não era sonetista, tinha que ser verbivocovisual. Ora, si ha uma coisa que eu detesto, é egrejinha e panellinha. Ninguém compartilha commigo meu glaucoma, minha cegueira, meu masochismo, meu fetichismo ou minha insomnia, mas querem que eu compartilhe idéas e ideaes collectivos, indifferentes à diversidade das individualidades, né? Fodam-se, pensei eu naquella epocha, e ainda penso assim. Não tenho que seguir cartilha alguma nem prestar contas a nenhuma "auctoridade intellectual". Só tenho que consultar minha consciencia e minha trajectoria existencial. Sempre nadei contra a maré e, hoje em dia, nestes tempos de "pós-modernidade", de "globalização" e de "realidade virtual", nada é mais anticonvencional que ser antiquado, nem mais anarchico que ser anachronico. Dahi por que virei sonetista e, agora, adopto de novo a orthographia em que escreveu Machado e Bilac, Alencar e Delfino.

O gancho, porém, desta attitude minha é a actual reforma, contra a qual até escriptores bem-comportados se posicionam, inconformados. Della tractarei nos proximos capitulos desta columna. E ja vou avisando ao editor para não passar meu texto pelo corrector orthographico, do contrario me fodo todo.

2 comentários:

Miguel Leocádio Araújo disse...

Glauco Mattoso é o máximo. Que texto com sabor! Sabor de hoje, sabor de ontem.

Christiane disse...

Achei óptimo o seu artigo. Penso do mesmo jeito.