terça-feira, 26 de agosto de 2008

Verdade provisória (um todo de sentido)

Rodrigo C. Vargas

O retorno às abstrações como falha na forma de pensar por um lado preocupa, por outro, deixa claro o direito de não termos nada a dizer. Direito esse sucumbido segundo Gilles Deleuze pelos meios de comunicação de massa “transbordando-nos de palavras inúteis e de uma quantidade demente de falas e imagens”. Vou além, as relações de troca submetidas a esse condicionamento repetitivo nos afoga em tolices, construindo falsas sensações de reconhecimento quase que absoluto. O que agrava ainda mais o plano é a busca por um equilibrio sustentado em sua maioria pelo afastamento ou solucionamento de nossos fracassos - através da analise - como se o caos não fosse alicerce para a construção definitiva e substancial de qualquer idéia criativa. “A besteira nunca é muda nem cega”. E essa nuvem não é passageira.

O reconstrutor de narrativas deve ser criativo, nunca reflexivo – “distinguir a percepção, a afecção e a ação como três espécies do movimento”. Ta aí: o movimento a base para o entendimento discursivo. É preciso encarar “em vez de fingir ignorar os movimentos reais para fazer deles objetos de negociações, se vai reconhecer de imediato o ponto último e a negociação se fará da perspectiva desse ponto último admitido de antemão”. Ao apontar essa lacuna Deleuze revela o quanto anestesiado estamos diante de nossas falhas de performances, antes resolvidas e sustentadas pela percepção, hoje emolduradas por algum psicólogo. “Não existe verdade que não “falseie” idéias preestabelecidas”.

Ora, como resgatar a subjetividade de um mundo controlado pelo óbvio? “O que é preciso é pegar alguém que esteja “fabulando”, em flagrante delito de fabular. Então se forma, a dois ou em vários, um discurso de minoria” - É preciso forjar o desgarro da terra, dos comuns, se transformar em pó, estabelecer não-metas, se tornar minoria para alcançar o não-óbvio. O cotidiano novo violenta a personalidade imprimindo sempre vez mais um universo de crueldade manifestado pelo infantilismo. Como um dia escreveu Lindon “ Não se nota a ausência de um desconhecido”. É a crise dos que não são notados mas aparecem - 0 caos sem mudança - que toma conta de espaços construídos e abraça a literatura, braço direito do inconformismo, afetada pela audácia de poucos que acham muito, perplexa por um novo sentido falsamente resolvido do ponto de vista das drogas (íntimas ou não) que paralisam e escondem o medo. É preciso seguir.

Um comentário:

ary disse...

inacreditavelmente bem feito, interessante e útil!