domingo, 12 de outubro de 2008

sábado, 11 de outubro de 2008

Machado, agora

Miguel Leocádio Araújo
Graduado em Letras pela UFC
Especializado em Investigação Literária pela UFC
Mestre em Literatura Brasileira pela UFC

No dia 29 de setembro de 2008, completaram-se 100 anos do falecimento de Machado de Assis. A data serviu de mote para uma série de homenagens à figura do escritor e para uma extensa revisão de sua arte, manifestações pouco vistas quando se trata de autores brasileiros recuados no tempo. Documentários, programas televisivos, chamadas em revistas eletrônicas, exposições, reedições da obra e um razoável leque opções de livros de crítica que pretendiam avaliar os processos escriturais do bruxo do Cosme Velho à luz das tendências do pensamento contemporâneo.

Ao que parece, todos estes produtos de uma sociedade que exerce seu cotidiano de modo cada vez mais acelerado, em que a idéia de permanência soa cada vez menos possível, vêm curiosamente negar estes atributos na medida em que elegeu um escritor e sua reconhecida genialidade como algo que nos traduz como nação. E assim, apesar do imediatismo e da superficialidade dos tempos que correm, Machado aparenta estar mais vivo do que nunca em seus livros, em sua história de vida cheia de lances cinematográficos (não sei por que sua biografia ainda não foi transformada em filme) e em seus clássicos traços de ironia e ambigüidade que verteram em frases memoráveis o olhar ao mesmo tempo agudo e enviesado para o homem brasileiro de seu tempo e, talvez, de todos os tempos. Tudo isso faz com que a leitura de textos como Memórias póstumas de Brás Cubas, O alienista ou Dom Casmurro seja, ainda hoje, fonte de prazer e descoberta de si, mesmo que as gerações mais jovens insistam em apontar a dificuldade de um vocabulário que supostamente não esteja adequado à facilidade do agora. Mas, para superar isso, é que existem as transcriações desses textos em suportes e formatos que inserem a leitura da palavra machadiana nos olhares contemporâneos, por meio dos quadrinhos, dos áudio-textos, do áudio-visual, do fanzine, do blog, entre tantos outros que surgem a cada nova respiração.

Pelo jeito, a imagem do Machado-escritor superou as expectativas que ele talvez tenha projetado para si, do mesmo modo que ele superou toda sorte de condições adversas, não sendo à toa que o crítico Harold Bloom, em seu livro O gênio, tenha colocado o autor de Memorial de Aires entre os mais inventivos autores do mundo em todos os tempos, ao lado de Shakespeare e Cervantes, ultrapassando as fronteiras de uma representatividade que não inscreve mais unicamente à língua portuguesa, mas que indica ter o que dizer ao homem de qualquer lugar, em qualquer época. 100 anos depois e parece que foi ontem.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Estócrita


Rodrigo C. Vargas

Não aconteceu uma, ou duas vezes. A cena se repete. Alguém jogando toda a culpa no Estado, em sua forma vertical, pelos atrasos e excessos. Será que não há nada de nós nesse monstro?

O Estado é hipócrita. Assim como nós, ele se permite transgredir as regras quando convém. Um bom exemplo é quando tomamos um empréstimo bancário. Se por qualquer razão não conseguimos pagar, nossos nomes vão parar numa lista de inadimplentes. Qualquer ação no mercado é impedida. Personae non gratae. Agora, quando um banco não consegue honrar seus compromissos, o Estado atua, em nome de uma economia saudável. O governo Lula assinou Medida Provisória, nº 442, que dá liberdade ao Conselho Monetário Nacional de definir o dinheiro que vai sair do Banco Central para comprar carteiras de crédito de bancos e instituições financeiras que estiverem em crise. Essas regras se estabelecem o tempo todo em nossas vidas. Quando cobramos uma saúde eficaz, e jogamos o lixo pela janela do carro. No momento em que amaldiçoamos o Estado, protestando por uma educação de qualidade, e desembolsamos uma fortuna para que colégios particulares preparem nossos filhos para o vestibular, e não para a vida. Segurança? Alguém sabe pra onde vai o dinheiro dos impostos? Você sabe com quem está falando? Tudo é reflexo do que somos.

Portanto, o mundo e seu conceito democrático não passam de uma grande piada azul. Concordo com Gandhi, você deve ser a mudança que quer ver no mundo. A dificuldade é enxergar que na terra, cabe muito mais que apenas dois pés. Pra iluminar a sombra de Jung, primeiro é preciso encará-la, entendê-la, e por último reprocessá-la. Estamos acostumados a pecar, sentir culpa, confessar, se redimir, e pronto! Estamos livres para outra. A conseqüência breve se torna inútil quando Deus está simbolicamente em outro plano. Uma escapadinha não faz mal. O bem e o mal, bipolarização miserável.

Tudo é amor! Não esse vendido pela propaganda de desodorante. É o respeito pelas diferenças, ou melhor, que diferença? O outro existe, e sem ele nada é, apenas está. É algo que não se pode tomar como individual, único, restrito e singular. Pluralizar, sim. Estamos em plena crise do dinheiro, abstrato por convenção. Criado para dar valor a tudo, fogo amigo. Quanto vale a vida? Esse preço é pago naquilo que menos exerce influência em nossa trajetória, mas debaixo da lupa, financia a crueldade de nunca sabermos realmente o que estamos fazendo aqui.

Anexo: A História das Coisas










quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Carnaúba

Sheila Oliveira
sheilaoliveira3@gmail.com
Fotógrafa

O Jesus histórico

(Salvador Dali)

José Correia da Silva
professorjosecorreia@yahoo.com.br
Graduado em Matemática pela UECE
Graduado em Física com HRE pela UEVA
Graduado em Teologia pelo Centro de Teologia Avançado de São Paulo


No Evangelho de Mateus (Mattityahu), no Capítulo 16, e nos versículos 13 ao 15, Jesus (yeshua) faz uma pergunta intrigante aos seus discípulos (talmidim), "quem dizem ser o filho do homem ?".É evidente que surgiram algumas respostas primárias e que por sua vez repercutiram em todo o populacho, por exemplo: alguns diziam que ele era Elias ou até mesmo João Batista ou um dos Profetas que havia ressuscitado; Entretanto, hoje, para alguns grupos sectários ou não, o Cristo foi apenas a encarnação de um Guru oriental, um dos Cristos cósmicos, uma pessoa que só pensava em fazer o bem, um político de boa reputação, um fundador de uma religião legítima, dentre outros. Todavia tudo isso é relativo se, por um leque de indagações nos for dada a oportunidade de conjeturarmos.

Se tomamos os testemunhos históricos, extra-bíblicos, como referência acerca de yeshua de Natzeret, poderíamos citar Flávio Josefo, historiador judeu (37-95) d.C; O Talmude, coleção de Doutrinas e comentários Rabínicos acerca da Lei de Moisés, elaborado à partir do 1º século da era Cristã; Os Anais de Cornélio Tácito, Historiador Romano, morto em 120 d.C; Caio Suetônio Tranquilo, Escritor e Senador Romano que viveu entre 69-141 d.C; Plínio, o moço, Governador Romano entre 62-113 d.C; Adriano, Imperador Romano, que viveu entre 117-138 d. C; Luciano de Samosata, Poeta grego do começo do 2º século; Júlio Africano, Cronologista, comentando os Escritos de um Historiador Samaritano chamado Talo, datados do ano 52 d.C; Marbar-Serápio, prisioneiro Sírio, escrevendo uma carta a seu filho, por volta de 73 d.C; Joseph Krausner, ex professor de literatura Judaica em Jerusalém, em seu livro "Jesus de Nazaré", diz: "Se apenas possuíssemos estes testemunhos saberíamos, efetivamente, que na Judéia viveu um homem, a quem chamaram o Mashiach (Messias), o qual fez milagres e ensinou o povo; que foi morto, por ordem de Pôncio Pilatos por denúncia dos Judeus mas que ressuscitou ao 3º dia".

Jesus possui uma contextualização tanto na filosofia, tanto quanto na religião, tanto mais na história e, por conseguinte na vida de pessoas que foram alcançadas por sua mensagem de amor e perdão, assombreados pela cruz do Calvário e guardados sob o manto da justiça de Deus (Adonai).

Qual a cor da tua parede?


Ana Valeska Maia
Graduada em Direito pela UFC
Graduada em Artes Visuais pela FGF
Mestra em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE


"Para viver é sempre preciso trair fantasmas"
Gaston Bachelard.

Verifique bem as cores das tuas paredes. O que você vê? Existe alguma parede cinza ao seu redor? Repare agora dentro de você. Quantas? Uma, duas, muitas?
O que significa para nós as paredes cinzentas?

Quero falar sobre visão, miopia, cegueira, cores, seres humanos, medo, coragem e liberdade. Começo essa reflexão pegando impulso no "Ensaio sobre a cegueira", de José Saramago. Uma das passagens do livro expõe nossa relação com o medo. Evidencia a cegueira imposta pelo medo. A personagem é taxativa: "são palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegamos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos".

O cinza que estamos vendo por aí pode ser um tipo de cegueira, e nele mora o medo. É estranho falar de cinza e de medo em um mundo midiático que espalha tantas cores, tantos padrões de beleza, inúmeras promessas de felicidade. São os modelos de sucesso. Como em Matrix a paisagem é colorida, é hedonista, é portadora de uma estética do belo que promove um território propício para a fertilização das ilusões pré-fabricadas. Para ter as cores da alegria capitalista você precisa comprar, você terá que se adequar ao padrão imposto. Esse padrão fugiu do controle, como um vírus. Repleto de ardis, agindo sub-repticiamente, mistura todas as cores e você não consegue mais identificar o amarelo, o vermelho, o azul, o verde. A visão da promessa capitalista é colorida. O resultado concreto são as paredes cinzentas. A miopia. A paulatina e agonizante cegueira coletiva.

O perigo da sedução do consumo vem de sua ação hipnótica que nos satura com cores a ponto de nos cegar. Nosso desafio então é gigantesco e para encará-lo necessitaremos da coragem de um herói. Nosso desafio implica lidar com o desconhecido e nos convida para todos os dias reaprender a ver, a pensar, a ser, a sentir. O primeiro passo é o reconhecimento de que, nos jogos de poder, as regras não são explícitas. Nesse jogo, que todos jogamos, conscientes ou não, os participantes são envolvidos com amarras sutis e quase invisíveis.

Convivemos com regras implícitas. Esse reconhecimento é extremamente incômodo, pois nos arranca da ilusão. Nosso chão perde a firmeza, passamos a enxergar que o céu azul do consumo está cinzento, pesado, carregado com densas nuvens prontas para o turbilhão, para a tempestade. Michel Foucault procura delinear as regras implícitas, os micro poderes, as relações de força, a microfísica presente no poder. Alerta para a expansão desenfreada do controle, que exerce influência nas atitudes, nos comportamentos, em expressões e discursos, sem se identificar apenas com um nível geral de poder, como no caso dos poderes emanados pelo aparelho estatal. Trata-se do reconhecimento de que o poder está em toda parte, atravessa os indivíduos, está nas relações, age em rede, contamina:


O poder analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que só funciona em cadeia. Nunca está localizado aqui ou ali, nunca está na mão de alguns, nunca é apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas os indivíduos não só circulam mas estão sempre em posição de exercer este poder e de sofrer sua ação; nunca são o alvo inerte ou consentido do poder, são sempre centros de transmissão. Em outros termos, o poder não se aplica aos indivíduos, passa por eles. (FOUCAULT, 2006, p. 183)


Nossos campos, nossos espaços sociais, como argumenta Pierre Bourdieu (2003) são caracterizados por relações objetivas e específicas que envolvem investimento, capital, lucro e ganhos próprios, com suas crenças, seus jogos de linguagem, seus produtos materiais, simbólicos e sua hierarquia. Esses campos, por sua vez, possuem seus agentes, que, no exercício do poder simbólico, buscam a efetivação de uma realidade que tenta estabelecer um consenso, uma integração acerca da reprodução de uma dada ordem social. Um dos perigos de nossa cegueira coletiva pode ser traduzido no conceito de poder simbólico estampado por Bourdieu: poder simbólico que é "esse poder invisível o qual só pode ser exercido com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem". Subverter a cegueira exige o reconhecimento de um olhar ampliado, que é um olhar criativo e esperançoso. Perceber a realidade da cor que chama a iluminação em meio ao plúmbeo dia.
As paredes da democracia também estão pintadas de cinza. Sabemos que no Brasil existem máculas que já vêm de longa data, estruturantes de nosso viver coletivo, como a sociedade patriarcal, escravocrata e latifundiária, que desde cedo semeou a naturalização das desigualdades sociais. A herança do regime autoritário representa um fardo pesado para desconstruir, até porque atualmente tanto já foi introjetado que nos acostumamos a viver em uma democracia autoritária, com uma lógica de poder doentia que nos tributa a pobreza política, bem evidenciada pela lucidez do sociólogo Pedro Demo.

Desconfie, portanto, da inércia que sente. Identifique o cinza da tua parede. Nossa imobilização ou descrença no coletivo, nossos sonhos construídos com o intuito de satisfazer interesses particulares são uma armadilha preparada. Assim como são os modelos de felicidade e sucesso, as regras pífias de consagração e de exclusão. Não permita que sua potência crítica seja aniquilada. Tenha olhos para ver. Aprenda a reconhecer o que é arbitrário. Instigue resistências. Tenha coragem, pois a coragem é tão contagiosa quanto o medo. Deixe cair a tempestade, permita que a água flua e leve todo o cinza do teu céu. Tenha coragem para ver o que vem depois. Para ver a beleza é preciso coragem. São muitas cores, um arco-íris inteiro para você pintar as suas paredes.

Deseje. Seja inquieto, questionador, queira transformar. Escolha o que quer para si, tenha suas próprias cores. Traga essa energia para a política, desconstrua discursos hegemônicos. Contagie o mundo com coragem. Inspire-se em Exupéry, "só se vê o essencial com os olhos do coração", ou Goethe, "cinza, meu amigo, é toda teoria, mas a árvore da vida é sempre verde", ou, novamente, Saramago: "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." Portanto, repare. Veja! Não existe limite para as cores das tuas paredes. Vamos derrubar o cinza! Nossas paredes são coloridas!

domingo, 5 de outubro de 2008

Gestão social da valorização da terra

Valéria Pinheiro
ONG Cearah Periferia e representante da Rede Nuhab

O desenvolvimento urbano de Fortaleza é notório aos olhos de todos e todas que aqui moram. Mas vale destacar que tal desenvolvimento é percebido de maneira diferente, a partir do lugar que cada um de nós ocupa nesta cidade.
Para uma pequena parte dos moradores/as, Fortaleza se apresenta como espaço com boas opções para morar, divertir-se, trabalhar, enriquecer. Para a grande maioria, Fortaleza é o lugar da luta diária para sobreviver em meio ao caos urbano.

Não nos passa desapercebido que o Poder Público usou muitos recursos para a cidade se desenvolver tanto. Portanto, dinheiro de cada um de nós foi investido para o aumento e melhoramento da infra-estrutura urbana nas novas regiões de Fortaleza, para onde ultimamente têm se dirigido o capital imobiliário, os condomínios de luxo, as torres empresariais...

As terras nas cidades ficam cada vez mais caras, por terem seu entorno beneficiado com melhorias pagas por todos. As gestões municipais não conseguem diminuir o déficit habitacional nem melhor distribuir os equipamentos sociais muitas vezes por não poderem pagar o alto preço da terra urbana de qualidade. Valorização esta paga com recurso público e que “entra na conta” dos grandes proprietários.

O Estatuto da Cidade (lei 10.257/2001) - a lei nacional de desenvolvimento urbano - traz importantes instrumentos para que o Poder Público recupere para a coletividade parte da valorização urbana promovida por ações públicas ou privadas (obras públicas, alterações da norma urbanística ou na classificação do solo, etc). É o que chamamos de GESTÃO SOCIAL DA VALORIZAÇÃO DA TERRA.

Não estamos aqui tratando de mera orientação para os municípios. Está numa lei federal, e, como tal, deve ser obedecida por todos os/as gestores/as públicos. Precisamos ultrapassar a visão patrimonialista e agir no sentido da justa distribuição dos ônus e bônus do desenvolvimento urbano. Para, enfim, termos cidades melhores para todos e todas.

sábado, 4 de outubro de 2008

A sagrada condição de urgência

(Van Gogh)

Rodrigo C. Vargas

Um corpo imóvel, absolto. Deixado ao toque do tempo, respirando o ar poluído dos pulmões alheios. Alguém vê mais, além. Passos estranhos germinando afeição por um dos lados. Ninguém acredita cegamente no novo. As pontas dos dedos que antes faziam o sangue parado procurar caminho agora enxugam o suor de quem cansou, poro a poro. Naquele exato momento a distância quase acorda o impossível. Olhos entreabertos, braços estendidos. Troca de posição quase epilética, acatisia, sem perder os pés de vista. Agora, outro. Cada pedaço achado no quarto em que estávamos. Uma disputa silenciosa descontrai os músculos, colados. Um detalhe ofensivo, último fora de casa. Na saída, pego o que deixou. Ainda existe lá no canto. Que tal amanhã?

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

O sentido da república brasileira

Rosendo Freitas de Amorim
rosendo@unifor.br
Licenciado em Filosofia e História pela UECE
Mestre e Doutor em Sociologia pela UFC

Nossa república foi erguida sobre os escombros de uma monarquia, que muito mais do que derrubada, ruiu ao primeiro golpe. Os militares, do exército, serviram de ponta de lança de uma mudança política há muito desejada pelos cafeicultores do Oeste Paulista e das classes médias urbanas, que começavam a identificar o governo monárquico como ultrapassado, preso a um passado escravocrata.

A extrema centralização do poder político no Rio de Janeiro, as posições conservadoras do Império, contribuiram para que as novas forças sociais, que se consideravam progressistas: cafeicultores paulistas, classes médias urbanas e exército se unissem em torno do projeto de um Brasil republicano. Há muito estas idéias vinham se desenvolvendo. O marco deste processo foi a criação do Partido Republicano em 1870.

Fundamentalmente, o objetivo maior de se instituir uma república no Brasil era oferecer maior autonomia política e econômica para as províncias, que passaram as se chamar de estados membros, que vieram compor os Estados Unidos do Brasil, cuja institucionalização ocorreu por meio da Constituição de 1891. Assistimos ao longo dos últimos 119 anos fluxos e refluxos em relação a centralização e a descentralização política do Estado republicano brasileiro. Porém, a preferência pelo presidencialismo como sistema de governo, revela, de forma incontestável, a prevalência do caráter centralizador do poder político no Brasil.

Há muitas interpretações, no sentido de defender que a Constituição de 1988 ampliou a força política dos munícipios. Em parte, isto é verdade, entretanto, em contrapartida houve um aumento das atribuições e responsabilidades destes entes políticos . Por outro lado, precisamos refletir sobre os fortes vínculos e as influências políticas que a União (governo federal) exerce atualmente sobre os municípios.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Entre o capital e o homem

Márcia Sucupira
Graduada em Direito
Mestra em Políticas Públicas

Estranha estrutura essa criada pelo homem. Originariamente pensado para determinar equivalências, em razão de nossa dificuldade em aferir o que tem maior ou menor valor, o dinheiro, na última metade do século passado, começou a adquirir uma importância por demais exagerada nas relações sociais, fato que foi acentuado pelas frustradas tentativas de implementação de sociedades voltadas pela repartição igualitária de riquezas denominadas de socialismo ou comunismo.

Outro sistema de distribuição de riquezas e equivalências não foi pensado, e o capitalismo adquiriu o status de único sistema sobrevivente. Livre de concorrências, talvez o próprio sistema tenha se descuidado em sua gestão e, num movimento desorganizado, trazido em si o germe de sua desestrutura, ultimada pela crise das bolsas americanas.

A possibilidade de falência do sistema de capital desperta o pânico das nações, conclama estadistas e cientistas que se concentram nesse tema e buscam alternativas para sua salvação.

Da observação dessa movimentação mundial em torno do capital, o que podemos perceber é que o homem passou a manter com o dinheiro uma relação de estranha e desapercebida subserviência, e o que antes era uma estrutura para equivalência entre coisas, passou a medir também relações entre pessoas, e o homem, em meio ao domínio do capital, não enxerga mais o outro homem, sozinho e individual, sem as aparas da equivalência determinada pelo dinheiro.

O homem se esquece de que o dinheiro é apenas uma criação da mente humana, maravilhosa, genial, mas apenas uma criação, que pode ser revertida pela própria mente humana. O grande medo é que o homem deixe de perceber que o dinheiro é uma estrutura e não uma criatura.