sábado, 10 de julho de 2010

Em busca do encanto irreal




Guilherme Ignácio da Silva
guiproust@yahoo.com
Professor de francês da Unifesp e doutor em literatura francesa pela USP

A voz que emana de Proust é uma voz estranha, que adentra pela vida e não vai explicar mais nada

"Ontem, fui me deitar às dez porque estava com muita dor de cabeça" - imagine alguém que, talvez ao telefone, ou na mesa do almoço, te informasse sobre esse detalhe de sua vida recente. Pensando em um contexto sem muitas tensões, nem muito interesse pelo aprofundamento dos sentimentos, você talvez acolhesse essa notícia com aquele mínimo de simpatia por alguém que, é provável, deve ter tido sua quota de sofrimento necessária para levá-lo a deitar-se tão cedo.

Com um É mesmo!?... você provavelmente procuraria manifestar um pouco daquele interesse sonolento que as vicissitudes da vida alheia costumam despertar em nós. E, como é de hábito as pessoas estarem sempre um pouco insatisfeitas com a vida sem, entretanto, deixar de se apresentar despertas no dia seguinte, vocês terminariam o almoço ou o telefonema já sem se preocupar com aquele triste detalhe da noite anterior.

Antes de vermos o caso da primeira linha de Proust, imaginemos a situação oposta a essa, que seria talvez o envolvimento total das duas pessoas na discussão dessa questão para elas tão grave: ter tido uma terrível dor de cabeça e ter decidido ir deitar-se cedo. Isso podia ser, por exemplo, sintoma de uma recaída em um problema gravíssimo do passado - a perda ainda não superada de uma pessoa, um assalto violentíssimo, a iminência de uma demissão, enfim, fatos que desencadearam outrora aquela dor de cabeça acompanhada de insônia. Mesmo assim, as pessoas envolvidas se preocupariam em encontrar um meio de voltar à estaca zero de tensão (e, no caso, poder dormir normalmente, não tão cedo e sem recorrer aos analgésicos).

Imagine, então, uma pessoa absolutamente desconhecida, ou melhor, apenas uma voz, que, numa noite dessas, adentrasse seu quarto e sussurrasse perto de seu ouvido: "Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo". Haveria, é claro, a estranheza absoluta de passar a ouvir vozes. Mas, antes que essa voz viesse cochichar enigmas em seu ouvido, foi você mesmo quem lhe abriu a porta da casa e a acolheu em seu quarto.

Aí, nesse caso, resta apenas a estranheza da mensagem que ela vem transmitir: o que significa durante muito tempo? Um mês, um ano, uma década? E cedo? Seriam dez horas, como no caso do amigo do almoço? Mais cedo, talvez? Por quê? Por causa de uma dor de cabeça? Um estado de depressão? Só por causa do sono mesmo?

É essa a voz que emana de Em busca do tempo perdido. Essa voz estranha que adentra nossas vidas não vai nos explicar mais nada. Em vez disso, sem que você pergunte, ela passará a dar detalhes sobre a velocidade do fechamento de seus olhos antes de adormecer e o descompasso entre o que continuava pensando e o que vivera naquele brevíssimo instante...

"Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: Adormeço."

O que está dito acima é algo tão singelo e corriqueiro que provavelmente ninguém o diria: alguém adormece tão depressa que não se dá conta de que já adormeceu. Prova desse descompasso entre o fato (adormecer) e a percepção dele está no pensamento que o assalta depois:

"E, meia hora depois, despertava-me a idéia de que já era tempo de procurar dormir; (...)."

Alguém adormece, melhor dizendo, uma parte da mente de alguém adormece e depois essa parte é despertada pela outra que, ignorando o fato ocorrido, chama a atenção para a necessidade de que ele enfim ocorra. Mas ele já aconteceu...

O leitor de Em busca do tempo perdido pode passar por detalhes dessa introdução, compreendendo-os sem se colocar conscientemente a pergunta de seu significado. Ou, pelo menos, sem formular em palavras o que constitui a beleza de certos trechos: encantado pela música fascinante que emana da prosa proustiana, ele avança para o próximo parágrafo.

Quem se perguntaria, por exemplo, quais são os tempos verbais dos parágrafos iniciais do livro? Estão todos no passado? Quais verbos estão no presente? Por que e quando esses verbos aparecem?

Não é à toa que o narrador vai atribuir um valor comunicativo muito superior à música, quando comparada às palavras: a música dá a entender de imediato o que o cansativo raciocínio frasal leva muito tempo para formular.

"(...) eu me perguntava se a música não era por acaso o exemplo único do que poderia ter sido - se não tivesse havido a invenção da linguagem, a formação das palavras, a análise das idéias - a comunicação entre as almas. Ela é como uma possibilidade que não teve prosseguimento, a humanidade tendo tomado outras vias, a da linguagem falada e escrita." (A Prisioneira, pp. 246-247).

A escrita de Proust lida o tempo todo com imagens e incorpora a esse esforço de comunicar com palavras algo que talvez as próprias palavras não sejam capazes de transmitir, uma maneira de se estabelecer a comunicação entre as almas de que a invenção da linguagem se desviou.

"Na música há visões que é impossível exprimir e quase proibido contemplar, uma vez que, quando, no momento de adormecer, recebemos a carícia de seu encanto irreal, nesse mesmo momento, em que a razão já nos abandonou, os olhos se fecham e, antes de poder conhecer não apenas o inefável, mas também o invisível, adormecemos." (Idem).

Há grande semelhança entre esse trecho sobre a natureza da música e o que Proust realiza em seu livro: nele também contemplamos visões que é impossível exprimir e quase proibido contemplar. Há nele uma mensagem reconhecível e radicalmente estranha: mensagem da verdadeira Literatura. É o que se pode perceber caso prossigamos "ouvindo" as primeiras linhas do livro.

Ouvimos de início detalhes do descompasso entre a velocidade do fechamento dos olhos rumo ao sono e a lentidão da percepção consciente de passar a dormir. Dormindo, ele não cessara de pensar no que, momentos antes, lera. Mas o conteúdo do livro integrara-se a seus sonhos e tornara-se ele próprio!...

"(...) durante o sono, não havia cessado de refletir sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões tinham assumido uma feição um tanto particular; parecia-(lhe) que era o assunto de que tratava o livro: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V."

Essa crença na não separação entre o tema das leituras e si mesmo "sobrevivia alguns segundos ao despertar; não chocava (sua) razão, mas pairava como um véu sobre os olhos, impedindo-os de ver que a luz já não estava acesa."

Um pouco adiante, fala-nos de uma experiência erótica um tanto particular: o prazer de estar com uma mulher, formada durante o sonho pelo calor que emana da própria coxa dele: "meu corpo, que sentia no dela meu próprio calor, procurava juntar-se-lhe, e eu despertava." Mesmo sabendo que ela é uma criatura de sua própria mente, "o resto dos humanos se (lhe) afigurava como coisa muito remota em comparação com aquela mulher que eu havia deixado momentos antes."

Mas, em torno dele, há apenas "o caleidoscópio da escuridão", o silêncio da noite pontuado pelos "estalidos orgânicos das madeiras", o quarto, do qual não é mais que uma parte mínima e em cuja insensibilidade logo volta a se integrar. Dormindo novamente, ele retrocede "a uma época para sempre transcorrida de (sua) primitiva existência" e acorda tentando fugir das brincadeiras agressivas do tio-avô, que tenta puxá-lo pelos cachos.

Mais adiante, nos fala de experiências mais radicais, quando se abolem todas as lembranças pessoais e as promessas de prazer erótico:

"Quando acordava no meio da noite, e como ignorasse onde (se) achava no primeiro instante nem mesmo sabia quem era; tinha apenas, em sua singeleza primitiva, o sentimento da existência, tal como pode fremir no fundo de um animal."

Proust talvez tenha sido um dos maiores leitores de As flores do mal, justamente por nos ensinar a admirar a beleza e a exatidão de palavras inusitadas em alguns poemas de Baudelaire. É o caso do poema "As velhinhas", que integra o ciclo de "Quadros parisienses" - ali, o poeta da metrópole goza de prazeres clandestinos ao contemplar o trânsito das velhinhas, daquelas que chama de "destroços de humanidade maduros para a eternidade":

Uma, por sua pátria na desgraça exercitada,
Outra, que o marido sobrecarregou de dores,
Outra, pelo filho Madona traspassada,
Todas poderiam fazer um rio de sua lágrimas!


Proust comenta:

"Exercitada é admirável, sobrecarregou é admirável, perfurada é admirável. Cada palavra pousa sobre a idéia uma dessas belas formas sombrias, brilhantes, nutritivas."

Na época das leituras instrumentalizadas, das teses de doutorado com fins comprobatórios, da aplicação de fórmulas de análise, que frescor poder se extasiar, como o faz Proust, diante de um simples particípio passado (exercitada, traspassada) ou de um mero verbo no pretérito perfeito (sobrecarregou)!

O escritor André Gide, em um texto de homenagem ao livro que, anos antes, recusara editar, pedia permissão para uma confissão: "Posso confessar uma coisa? Toda vez que me acontece de voltar a mergulhar nesse lago de delícias, permaneço em seguida vários dias sem ousar retomar a pluma, não podendo mais admitir - como acontece durante o período em que uma obra-prima exerce sobre nós seu império - que haja outras maneiras de se escrever bem, não vendo mais no que você chama de pureza de meu estilo do que mera pobreza."

E, a certo momento desse texto elogioso à obra de Proust, ele também exclamava:

"Você é extraordinário, meu caro Proust!"2

Um dos prazeres de se deixar conduzir pela voz que nos guia no mundo labiríntico de Em busca do tempo perdido é poder exclamar a cada parágrafo, a cada linha, a cada palavra: Mas que livro! Como Proust é admirável!

A vida que freme no fundo de um animal é extraordinário; estalidos orgânicos das madeiras é magnífico; a indistinção entre o leitor e o tema do livro que lê é perfeito! A cena erótica em que o corpo que sentia no dela (seu) próprio calor é inacreditável de tão bom!

NOTAS

1 PROUST, Marcel. Contre Sainte-Beuve. Paris: Gallimard, 1954.
2 GIDE, André. "Lettres à Angéle: A propos de Marcel Proust". In: Incidentes. Paris: Gallimard, 1924.

Um comentário:

Leandro Danúbio disse...

Sou teu Fã Rodrigo, olha o blog que eu tenho com um grupo de amigos: http://g7ceara.blogspot.com/

Quero muito escrever do "Se Liga"

Abraços de seu fã Leandro Danúbio,