sexta-feira, 3 de julho de 2009

Instruções para descer ao inferno




Pedro Maciel
pedro_maciel@uol.com.br
Escritor e ensaísta

Coletânea de breves histórias revelam Kafka como um escritor eclético e sombrio



Franz Kafka viveu sob a influência do imaginário de três culturas: a alemã, a tcheca e a judaica. Nasceu em 3 de julho de 1883 no centro histórico de Praga e morreu de tuberculose no sanatório de Kierling, perto de Viena, no dia 3 de junho de 1924. No livro Carta ao Pai, Franz, filho de Herman kafka, negociante prepotente e patriarcal, afirma que este “assumia o que há de enigmático em todos os tiranos, cujo direito está fundado não no pensamento, mas na própria pessoa”.

Em toda a obra de Kafka, nota-se uma profunda semelhança entre a realidade cotidiana do autor e seus personagens autoritários e inatingíveis que atormentam a vida do anti-herói Josefh K. de “O processo” e do agrimensor em “O castelo”. Os conflitos familiares, os amores contrariados, a doença, a opressão da guerra, incentivaram-no a criar uma obra marcada por situações de subordinação, desprezo e desilusão; situações intoleráveis.

Segundo Camus, “sua obra é universal (uma obra realmente absurda não é universal) na medida em que nela aparece o rosto comovente do homem fugindo da humanidade, extraindo de suas contradições razões para acreditar e de seus desesperos fecundas razões para esperar, e chamando de vida sua apavorante aprendizagem da morte. É universal porque sua inspiração é religiosa. Como em todas as religiões, o homem ali se libertou do peso de sua própria vida”.

Uma das passagens mais curiosas da biografia de Kafka diz respeito às duas notas que ordenam à Max Brod, amigo e testamenteiro, a destruir os manuscritos das obras “O processo” e “O castelo”. Brod desobedeceu às ordens do temperamental Kafka, e legou à humanidade uma das obras mais complexas e realistas deste mundo degradado e alienado.

Borges anota no prólogo “Kafka: A metamorfose”, que a obra deste não dispõe de muitos recursos psicológicos e nem se desenvolve pela lógica da fábula. O essencial no autor da famosa narrativa “A metamorfose” é o ambiente e o argumento. “Contos, fábulas e aforismos”, de Kafka, textos selecionados dos livros “Contos e textos breves”, “Ao pé da muralha da China” e “Um médico de aldeia”, prova que, talvez, o genial Borges, não esteja totalmente certo. Esta coletânea de textos breves prova a autoridade de um escritor singular, que domina a técnica de vários gêneros literários, de um escritor capaz de inventar o inferno nas horas mais inesperadas, nas horas de sombra e sofrimento, nas horas do vento sob o céu aberto, da terra fechada queimando anjos.

Apesar dos ventos contrários, apesar da inglória e da solidão, Kafka sonhou com o paraíso. O paraíso perdido. Para Kafka, “há dois pecados capitais, de que derivam todos os outros: a impaciência e a preguiça. Devido à impaciência fomos expulsos do Paraíso; devido à preguiça não conseguiremos retornar a ele. Pensando bem, talvez a impaciência seja o mais capital dos pecados: foi por ela que o perdemos, é por ela que não o temos de volta”. O paraíso de Kafka também se encontra debaixo de nossos olhos, ao alcance do nosso desejo. Para ele, o paraíso é como “uma estrada, no outono: basta varrê-la para que de novo se cubra de folhas mortas”.

Kafka é mais conhecido como autor de extensas narrativas, obras-primas da prosa universal, como “O castelo”, “O processo” e “Na colônia penal”. Mas os textos monolíticos merecem ser lidos com olhos atentos, afinal, foram escritos sob a forma paródica das lendas, parábolas e fábulas. Segundo Walter Benjamim, estes textos são verdadeiros “contos de fadas para dialéticos”, devido à forma original em que Kafka reinventa as histórias. A forma e a matéria dos contos são condensadas, às vezes, em um ou dois parágrafos, revelando-se outras histórias, ou melhor, histórias novas que caracterizam os verdadeiros narradores. As histórias apresentam argumentos distintos, mas repetem-se na essência. Toda literatura é uma reescritura.

Uma fabulazinha”, que poderia ter sido traduzida como o título de “Pequena Fábula”, é uma narrativa exemplar da velha história do gato que devora o rato. Outros textos, como “A respeito de parábolas”, ou “O abutre”, excluído dessa coletânea, permitem-nos considerá-lo como um dos mais geniais escritores do século XX. Na verdade uma grande parte da obra de Kafka, o que também pode-se dizer de Borges, é uma reescritura de episódios históricos, fábulas e contos populares. Kafka está inserido no movimento dos escritores expressionistas, mas os relatos kafkanianos é a história que sonha a civilização contemporânea.

Aforismos de Kafka

* A partir de certo ponto não há mais qualquer possibilidade de retorno. É exatamente esse o ponto que devemos alcançar.

* O momento decisivo no desenvolvimento humano é um todo contínuo. É por isso que estão certos os movimentos revolucionários, que declaram nulo ou inútil tudo o que ocorreu antes deles, pois nada aconteceu ainda.

* Um homem se espantou com a destreza com que alcançou a eternidade. Não percebeu que retrocedera até lá.

* Não precisa sair de teu quarto. Permanece sentado à tua mesa e escuta. Não, nem mesmo escutes, simplesmente espera. Não, nem mesmo espera. Fica imóvel e solitário. O mundo simplesmente se oferecerá a ti, para ser desmascarado. Ele não tem escolha, e acabará rolando em êxtase a teus pés.

* “De aforismos, reflexões sobre o pecado, a dor, a esperança, e o caminho certo de Franz Kafka”; do livro “Contos, fábulas e aforismos”, tradução de Ênio Silveira; Ed. Civilização Brasileira.

A Doutrina Secreta de Kafka




As situações intoleráveis, a angústia e o absurdo, os ambientes bizarros e a força psicológica dos seus argumentos são as idéias centrais deste autor clássico

Franz Kafka é um autor que está inserido no movimento dos escritores expressionistas, mas os relatos kafkianos são histórias que sonham a civilização contemporânea.

Quase desconhecido em vida, o autor de “A Metamorfose”, criou um mundo realista e absurdo. Reinventou fábulas, lendas e parábolas. Místico, ele compara a sua própria obra a “uma nova doutrina secreta, uma cabala”. O escritor era um sonhador e queria “viver dentro da verdade”. O autor de “O Castelo” concebeu a literatura como uma expedição rumo à verdade. “Eu quero que a minha literatura doa, que faça as pessoas sofrerem. Ela deve funcionar como um machado, capaz de quebrar o mar congelado que existe em cada um de nós”, afirmou.

Toda a sua obra expressa o fantástico, o estranho e a sátira, ao invés do patético. Seus livros desmistificam a organização social que se perpetua, graças a paciência dos subordinados que morrem sem imaginar seus direitos. Kafka é cômico, sarcástico, grotesco. A leitura de “O processo”, segundo seu biógrafo, Max Brod, provocou risadas no círculo de amizades do escritor. Max Brod é o amigo-editor que não atendeu o último pedido de Kafka, que desejava a destruição de seus manuscritos após a sua morte. A este amigo-editor devemos o conhecimento de uma das obras mais fantásticas da literatura contemporânea.

Depois de Kafka tudo ficou kafkiano. Otto Maria Carpeaux, que introduziu Kafka no Brasil, diz que “o romancista de ‘O processo’ é, para alguns, o satírico que zombou da burocracia austríaca; e para outros o profeta das contradições e do fim apocalíptico da sociedade burguesa; e para mais outros o porta-voz da angústia religiosa desta época; e para mais outros o inapelável juiz da fraqueza moral do gênero humano e do nosso tempo; e para mais outros um exemplo interessante do complexo de Édipo... Tudo em torno de Kafka é equívoco”.

Há muitas controvérsias entre diversos comentadores da obra de Franz kafka. Afinal, os textos kafkianos permitem diversas interpretações, já que são obras abertas, como os romances que ele nos legou. Os contos e novelas também refletem um mundo ambíguo. A forma e a matéria dos contos são condensadas, às vezes, em dois ou três parágrafos, revelando-se outras histórias, histórias novas que caracterizam os verdadeiros narradores. As histórias apresentam argumentos distintos, mas repetem-se na essência. Toda a literatura é uma reescritura. Como em “Contemplação”, conjunto de peças breves e líricas, publicado em 1912, primeiro livro de Kafka. Os 18 contos são exemplos de textos paródicos, épicos em miniatura. Kafka diz sobre “Contemplação” (trad. de Modesto Carone; Ed. Cia das Letras), que “existe aí realmente uma desordem sem salvação, ou antes: são lampejos claros sobre uma confusão interminável e é preciso aproximar-se muito para ver alguma coisa”. Mas há muita poesia nos textos alegóricos. Segundo Walter Benjamin, “as alegorias são, no reino do pensamento, o que são as ruínas no reino das coisas”.

Já a novela “O foguista”, publicada por Kafka em 1923, primeiro capítulo do romance “América”, tem uma atmosfera de pesadelo, clima que norteará toda a obra de kafka. Narra as desventuras do herói karl Rossman no seu exílio americano. A estrutura dramática da novela remete à ficção alemã, praticada por Goethe, e retoma o estilo de Dickens através da narrativa realista.

A prosa universal de kafka é a história dos pesadelos do mundo moderno. Retrato ampliado das fraquezas e defeitos inerentes à espécie. Em sua biografia de kafka, Max Brod, diz que “qualquer estudo aprofundado de suas fraquezas demonstrará que todas elas emanam, tragicamente, de suas virtudes”. As situações intoleráveis, a angústia e o absurdo, os ambientes bizarros e a força psicológica dos seus argumentos são as idéias centrais deste autor clássico.

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AS ÁRVORES

Pois somos como troncos de árvores na neve. Aparentemente eles jazem soltos na superfície e com um pequeno empurrão deveria ser possível afastá-los do caminho. Não, não é possível, pois estão firmemente ligados ao solo. Mas veja, até isso é só aparente.

Conto de “Contemplação / O Foguista”, de Franz Kafka

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OS QUE PASSAM POR NÓS CORRENDO

Quando se vai passear à noite por uma rua e um homem já visível de longe _ pois a rua sobe à nossa frente e faz lua cheia _ corre em nossa direção, nós não vamos agarrá-lo mesmo que ele seja fraco e esfarrapado, mesmo que alguém corra atrás dele gritando, mas vamos deixar que continue correndo.

Pois é noite e não podemos fazer nada se a rua se eleva à nossa frente na lua cheia e além disso talvez esses dois tenham organizado a perseguição para se divertir; talvez ambos persigam um terceiro, talvez o primeiro seja perseguido inocentemente, talvez o segundo queira matar e nós nos tornássemos cúmplices do crime, talvez os dois não saibam nada um do outro e cada um só corra por conta própria para sua cama, talvez sejam sonâmbulos, talvez o primeiro esteja armado.

E finalmente _ não temos o direito de estar cansados, não bebemos tanto vinho? Estamos contentes por não ver mais nem o segundo homem.

Conto de “Contemplação / O Foguista”, de Franz Kafka

Anexo: Cena do filme The Trial narrado e dirigido por Orson Welles.

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