terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O encontro está marcado...

Valéria Geremia
valzen@uol.com.br
Graduada em Comunicação Social-Jornalismo pela UFRGS
Mestrado em Literatura pela UFC

O diálogo entre ficção e realidade tem um potencial muito rico. Podemos citar, em termos de cinema brasileiro, Central do Brasil, inspirado em um documentário, que fez de Fernanda Montenegro, durante as filmagens, uma real “escrevinhadora” de cartas para a população do interior. Ou ainda o seqüestro do ônibus no Rio de Janeiro por um sobrevivente do massacre da Candelária, que primeiro virou notícia, depois rendeu o documentário Ônibus 174 e recentemente passou a filme de ficção com Última Parada 174. Mas Nós que aqui estamos por vós esperamos, de Marcelo Masagão, tem uma estética considerada experimental e faz esse diálogo de forma mais complexa (tanto que recebeu maior número de convites para participar de festivais de cinema ficcional do que documental). Assim, é melhor compará-lo a Ilha das Flores, em que a história fictícia da trajetória de um tomate serve como pretexto para denunciar a realidade desumana à que parte da população é submetida devido à desigualdade da distribuição de renda no Brasil. Nesse caso (e em outros), a ficção bem desenvolvida retrata o objeto escolhido mais fielmente do que muitos registros documentais poderiam fazê-lo. A obra de Masagão, originalmente pensada como um CD-Rom, tinha como principal objetivo fazer uma seleção das principais mudanças ocorridas no século XX. Havia o risco de tornar-se um documentário óbvio, chato e superficial (algo um pouco pior do que as retrospectivas de final de ano exibidas pelas TVs – que veremos em breve, na despedida de 2008, aliás).

Nós que aqui estamos por vós esperamos, entretanto, é surpreendente, interessante e provoca reflexões filosóficas. Surpreendente por que foge da fórmula documental de utilizar um narrador para direcionar e explicar as imagens exibidas. Na maior parte do tempo, elas falam por si só (e essa é uma aposta na inteligência do espectador para “ler” a linguagem audiovisual). Em alguns momentos, há citações por escrito, que não repetem o que é mostrado visualmente (e novamente podemos nos sentir valorizados, por ser exigida uma interpretação dessa soma de informações entre texto e imagem). Também surpreende, e torna-se interessante, quando foge de um viés historicista tradicional. Sabemos, por certo, que a história que chega à posteridade é a história dos “vencedores” e não dos “vencidos” (dicotomia simplista que divide as pessoas apenas em dois tipos, resultante da miopia da mentalidade capitalista). Masagão não apenas coloca os “vencidos” e anônimos como protagonistas. Faz mais do que isso: cria personagens ficcionais para destacar homens e mulheres desconhecidos que sofreram, foram felizes e morreram (ou não) no século (e milênio) passado. Humanizando e aprofundando, ele transforma o ser humano comum em riqueza única. Cada um desses indivíduos se torna um tijolo importante para a construção do momento em que vivemos hoje.

Se falamos da linguagem das imagens, estamos obviamente falando da edição: a escolha de como montar as cenas. Foram 2 mil horas de edição ágil expressando leveza e poesia. Uma cena às vezes surge dentro da outra; ou se destaca em um fundo preto, como uma fresta através da qual nós, voyeurs da pós-modernidade, espiamos os personagens do passado. Destacam-se alguns paralelos muito inteligentes, como a tragédia do lançamento fracassado da Challenger e o costureiro que tenta voar da Torre Eiffel com asas feitas por ele mesmo, desastres de dimensões diferentes, mas observados com o mesmo assombro pela população. E ainda: Fred Astaire atua nos musicais e Garrincha dribla adversários, a edição criativa faz com que dancem juntos celebrando a vocação e o talento individual. As imagens editadas com ritmo e inteligência são costuradas pela deliciosa música de Wim Mertens , que dá um lirismo profundo ao conjunto (embora em alguns momentos mude o tom). É mais grave, por exemplo, ao sugerir o drama e a bufonaria trágica que emolduram a história sob o domínio dos grandes ditadores). A música é a alma, ou aura (me permita Walter Benjamin) que nos conduz, consoladora e compassiva, através da vida e da morte...

Em uma entrevista, o diretor declarou que, através dos personagens ficcionais (cuja morte normalmente é datada), pretendia falar da banalização da morte no século passado. Entretanto, seu documentário vai além: é um manifesto contra a banalização da vida e gera muitas perguntas que podem nos fazer refletir sobre nossa própria realidade. Afinal, o que torna um ser humano inesquecível: trabalhar na construção de bombas para uma Guerra Mundial ou fazer excelentes bolinhos de arroz? Permanece a idéia de que a história que escrevemos com nossas vidas, talvez, só se torne clara depois do fim...

Uma grande resposta é oferecida claramente: A Morte. Macabro? Mas realista. A inscrição do pórtico de cemitério escolhida como título, nós que aqui estamos por vós esperamos,vem nos recordar que somos todos, sim, mortais. E por isso devemos prezar mais a qualidade da vida que construímos no presente. É natural, agora, lembrar de Cidadão Kane e do simbolismo de sua última recordação, destacada no momento da morte do multimilionário e mega-empresário das comunicações. Seria um pecado imperdoável contar o final... assim, recomendo a quem não assistiu ainda que o faça logo, pois o filme de Orson Welles é considerado, em muitas seleções respeitadas, como um dos melhores filmes já feitos – quiçá o melhor. E, buscando instigar mais as reflexões e questionamentos que Nós que aqui estamos por vós esperamos provoca, sugiro, já que acabamos de recordar a nossa mortalidade, a leitura do blog http://linhasmortais.blogspot.com, produzido por alunos do Curso de Jornalismo da FIC para a disciplina Produção e Edição de Textos para Revista-2008.2, sob minha orientação, que visa abordar justamente Ela, ampliando nossa consciência e compreensão quanto aos medos, inseguranças e curiosidades mórbidas que surgem quando o tema é Morte.

Anexo: Trecho de Nós que aqui estamos por vós esperamos

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